Acontece.

Bom de texto, ruim de arremesso


Muito simpáticos, os dois jornalistas. Não esperavam encontrar por estas bandas um colega pousadeiro – nos tempos antigos, estalajadeiro, Pousada do Farol . ( Foto: Brasigois Felicio )

Bom de texto, ruim de arremesso

Mes de Vacinação - Prefeitura de Anápolis

Ontem chegaram na Pousada do Farol dois jornalistas da Folha de São Paulo.

Estão em missão de fazer uma reportagem sobre o assoreamento do Rio Piranhas, da nascente até a foz, nestas bandas nordestinadas.

Rio lindo e bendito, Riovindo de generosa e hoje sofrida fonte altiplana, nestes páramos potiguares, deságua no mar Atlântico paraibano.

Também estão conhecendo a dura realidade do avanço do mar, que não é só local, mas por aqui vem causando grandes estragos, devastando calçadas, casas, hotéis e pousadas.

Um dos jornalistas conhece parte do sudoeste goiano. Esteve em Catalão, fazendo matéria sobre o avanço da criminalidade nas cidades de médio porte. Ficou impressionado com o trágico fenômeno social, ligado ao tráfico e consumo de drogas ilícitas.

Muito simpáticos, os dois jornalistas. Não esperavam encontrar por estas bandas um colega pousadeiro – nos tempos antigos, estalajadeiro.

Hoje, voltando da praia, um deles, no ato de jogar as chaves do apartamento para o colega, errou em muito o alvo, e acabou atirando as mesmas sobre o telhado.

Logo ele que na noite anterior, por horas a fio, colocou no ar, com seu zunido característico, um bem equipado drone.Olhei para aquilo zunindo e cheguei a pensar que era a terra sendo invadida por extraterrestres.

Com uma escada de pedreiro, dessas bem pesadonas, ajudei-o no resgate das chaves. Pediu desculpas pelo incômodo, disse que era a primeira vez que fez isto em um hotel ou pousada.

Eu disse que não tinha sido nada demais.

Acontece.

Tem a primeira vez para tudo, nesta vida. Jornalista e escritor – bem como outros viventes, podem ser bons de texto, e ruins de arremesso.

Réquiem para os rios  que estão secando

Lindo e bemvindo
Rio Piranhas,
que desde as serras
e altiplanos potiguares
banhando terras
paraibanas, vinha existindo
sendo dádiva e provimento
a tantos sedentos

Agora está indo
das terras do Bemvirá
para a incerteza
do Deus-dará

Destino igual
em areia e secura
que também vai tendo
o rio Piranhas de Goiás
– antes tão caudaloso
de águas piscosas
hoje mal e mal conseguindo
juntar-se em poças

II
Quem terá ciência,
engenho e arte
para fazer renascer
os rios que estão secando?

Quando as terras
tornarem-se áridas,
tendo só pedras
em seus caminhos,
que sorte terá
o humano destino?

Quem irá nos socorrer
quando água alegre e limpa
em parte alguma correr?

 

Brasigóis Felício é escritor e jornalista.

Ocupa a cadeira 25 da Academia Goiana de Letras e é colaborador do 7 minutos

  • Fonte da informação:
  • Leia na fonte original da informação
  • Veja mais

    Leave a Comment

    Protected by WP Anti Spam