para campanhas políticas

Em depoimento à PF, Jayme Rincón admite recebimento de recursos da Odebrecht

Ele afirma que seus motoristas recebiam as entregas no apartamento que ele tem em São Paulo. Escutas também revelam entrega de R$ 1,2 milhão em propina no mesmo local.

Foto de arquivo de 12/06/2012 de Marconi Perillo durante depoimento no Senado, em Brasília — Foto: Dida Sampaio/Estadão Conteúdo

Em depoimento à PF, Jayme Rincón admite recebimento de recursos da Odebrecht

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Um documento obtido pela TV Anhanguera mostra que Jayme Rincón, um dos cinco presos na ação que mirou endereços ligados a Marconi Perillo (PSDB), admite recebimento de recursos da Odebrecht para campanhas políticas.

Segundo o relato dele à Polícia Federal, os valores foram entregues aos motoristas dele no apartamento que ele tem em São Paulo.

A Odebrecht informou, por meio de nota, que a empresa “continua colaborando com a Justiça e reafirma o seu compromisso de atuar com ética, integridade e transparência”.

A reportagem também tentou contato, por telefone, com a defesa de Jayme, entre 15h20 e 15h30, mas as ligações não foram atendidas.

O investigado era também presidente da Agência Goiana de Transportes e Obras (Agetop), mas após a prisão foi substituído no cargo pelo Procurador-Geral do Estado, Luiz Cesar Kimura.

Jayme está preso desde o último dia 28 de setembro, quando foi deflagrada a Operação Cash Delivery. Além dele, outras quatro pessoas também foram detidas na data.

O investigado foi ouvido pela primeira vez no dia da prisão, quando revelou as informações presentes no documento, mas em segunda oitiva, na última segunda-feira (1º) exerceu seu direito ao silêncio.

No documento, Jayme afirma que os seus motoristas, Sérgio, que faleceu em 2016, e Moura, preso com ele na operação, receberam os recursos, mas não disse para quais candidatos os valores eram destinados e nem quantas vezes isso ocorreu. Ainda segundo a declaração, o apartamento em São Paulo foi o escolhido por causa do fácil acesso dos funcionários dele ao local.

“Confirma ter havido entrega de recursos por parte de prepostos do grupo Odebrecht aos policiais militares Sérgio e Moura no apartamento de propriedade do interrogado [Jayme Rincón] na cidade de São Paulo.

Que não sabe dizer ao certo o número de vezes em que tal procedimento ocorreu”, afirma o documento.

Segundo as investigações, os PMs eram responsáveis por pegar o dinheiro de propina em São Paulo.

O pagamento de R$ 1,2 milhão teria sido entregue na Rua Hadock Lobo, na capital paulista, onde, conforme a PF, fica o apartamento onde mora o filho de Jayme Rincón, Rodrigo Rincón, um dos presos da Operação Cash Delivery.

Em uma das escutas obtidas pela PF, o motorista do doleiro Álvaro José Novis liga para um motorista de Jayme Rincón, identificado como Sérgio, para confirmar o endereço do apartamento onde faria a entrega de “encomendas”, que, segundo a PF, tratava-se de propina.

Conforme a declaração de Jayme, o filho dele, Rodrigo Rincón, também preso na Operação, “não tinha a menor participação nestes encontros e sequer sabia do que estava ali acontecendo”.

O G1 entrou em contato com a defesa de Rodrigo por mensagem na tarde desata quinta-feira (4) e aguarda retorno com um posicionamento sobre o caso.

A Justiça Federal determinou que ele fosse solto em decisão liminar – ou seja, em caráter provisório, mas até as 16h07 a soltura dele não havia sido confirmada.

Ainda na declaração de Jayme Rincón à Polícia Federal, ele afirma que os recursos obtidos da Odebrecht eram “destinados em sua maioria para campanhas de candidatos aliados” e que “parte dos valores era oficializado com ajuda de empresas parceiras”.

O preso disse ainda que “todo o montante destino à campanha de Marconi Perilllo foi legalizado”.

A defesa do ex-governador e atual candidato ao Senado afirmou que “não existe qualquer hipótese de propina ou corrupção na investigação, apenas doações para campanhas”. Ele deve prestar depoimento à PF após as eleições.

Também de acordo com Jayme, ele se encontrou e conheceu alguns executivos da Odebrecht em 2010, quando foi coordenador financeiro de campanha de Marconi Perillo, e também em 2014, mesmo não coordenando nenhuma campanha.

No documento, o investigado diz “que nunca recebeu nem pessoalmente nem indiretamente, por terceiros, nenhum valor em espécie da empesa Odebrecht.

Ele declara ainda que “não pediu apoio financeiro a eles nas campanhas”, mas que “foram os executivos que ofereceram voluntariamente tal apoio financeiro”.

Também conforme o documento, Jayme declara que todo o suporte foi feito “de forma legal”. Ele acrescentou ainda que o valor “não chega nem perto de R$ 10 milhões”.

A declaração de Jayme também revela que, segundo ele, um dos executivos da empresa tentou passar ao investigado uma senha uma vez, mas que a resposta dele para essa oferta foi que “não desejava receber nenhuma senha e que esse tio de assunto deveria ser tratado diretamente com o policial militar Sérgio [então motorista dele]”.

Jayme afirmou ainda na declaração que “sempre quis se afastar dessa questão operacional referente à campanha eleitoral”.

Escutas
Escutas da Polícia Federal presentes no inquérito que culminou a Operação Cash Delivery, também obtidos pela TV anhanguera, mostram um diálogo que, segundo a corporação, revela a entrega de R$ 1,2 milhão em propina da Odebrecht para campanhas de Perillo em 2010 e 2014 (veja abaixo).

A transcrição da conversa é, segundo a PF, um diálogo entre Márcio Garcia de Moura – policial militar e motorista de Rincón, também preso na Operação Cash Delivery – e um homem identificado como Márcio, que, conforme a corporação, também é PM e funcionário do doleiro Álvaro José Novis.

Moura: Aí veio 3 mensageiros seus. É isso mesmo?
Márcio: É, um levou 7 e outro levou 5, Né?
Moura: Então tá certo, né?
Márcio: Isso. Aí faz um ponto dois. [segundo a PF, ele se refere a R$ 1,2 milhão de reais]
A defesa de Marconi Perillo informou à TV Anhanguera que o ex-governador foi liberado pela Polícia Federal para prestar depoimento só após as eleições.

A defesa já havia dito, na última sexta-feira (31), que não há provas dos fatos citados pelo delator e que eles se referem a questões antigas, sem qualquer indício contra Perillo.

Em um dos trechos do inquérito, a polícia diz que, segundo versão apresentada por colaboradores, Marconi Perillo, que é candidato ao Senado Federal atualmente, teria dito ao executivo da Odebrecht Ambiental, Fernando Reis, que ele esperasse uma contribuição “do tamanho da Odebrecht”, em Goiás.

No inquérito consta que Marconi, ao solicitar os valores para suas campanhas, se mostrava favorável às demandas da Odebrecht em Goiás, como, por exemplo, na construção do VLT, que não saiu do papel, além de obras de esgoto no Entorno do Distrito Federal.

Conforme apurou a TV Anhanguera, apesar da suspeita de envolvimento de Marconi Perillo no esquema, a Justiça Federal não pediu a prisão dele por conta da Lei Eleitoral, que proíbe a prisão de candidatos 15 dias antes do pleito, exceto em casos de flagrante.

Prisões
Ele e Márcio Garcia de Moura – policial militar e motorista de Rincón – tiveram a prisões temporárias convertidas em preventivas, ou seja, por tempo indeterminado. Já o empresário Carlos Alberto Pacheco Júnior teve a prisão temporária prorrogada por mais cinco dias. Somente o advogado Pablo Rogério de Oliveira foi solto.

Todos os envolvidos sempre negaram envolvimento com o suposto esquema criminoso. A operação investiga o recebimento de propina de R$ 12 milhões durante as duas últimas gestões de Perillo à frente do governo do estado, em troca de favorecer empreiteiras em contratos.

Durante a operação, os celulares de Marconi Perillo e da esposa, além do computador da filha, foram apreendidos.

Veja o que dizem os citados
Marconi Perillo

A Defesa do Governador Marconi vem reafirmar que ele está e sempre esteve à disposição para esclarecer tudo relacionado à investigação e, a pedido da defesa, a delegada responsável marcou depoimento para logo após a eleição. O Governador não irá depor antes das eleições pois entendemos que a deflagração da operação na reta final da campanha eleitoral teve claro sentido eleitoreiro e o objetivo de provocar ataques e injusta perseguição política a Marconi. Ressalta a Defesa que os fatos objetos da delação da Odebrecht – delação já conhecida há mais de 1 ano – dizem respeito a pretensas doações para as campanhas de 2010 e 2014, ou seja, fatos antigos e em nada relacionados à campanha de 2018. Além disso, não existe qualquer hipótese de propina ou corrupção na investigação, apenas doações para campanhas. E a defesa está muito segura a respeito e fará o necessário enfrentamento técnico do caso. A questão deve ser tratada e resolvida juridicamente na Justiça Eleitoral. O uso de fatos alegadamente ocorridos há 8 anos e 4 anos em plena campanha eleitoral revela o verdadeiro intuito da Operação, que provocou uma ilegal e indevida perseguição política ao Governador que, como não poderia deixar de ser, está à disposição das autoridades e, como cidadão, é o maior interessado em esclarecer os fatos. A defesa alerta, há muito tempo, para os riscos de uma espetacularização do processo penal e da criminalização da política, que ataca e ofende pessoas de bem e comprometidas com o país. A democracia exige serenidade e responsabilidade. Ninguém está acima da lei, mas todo cidadão, político ou não, tem o direito de ver respeitada a Constituição da República, que garante a qualquer um o devido processo legal, a presunção de inocência, a ampla defesa e um julgamento justo.

Kaky

Jayme Rincón

A defesa esclarece que não há qualquer fato novo (ou velho) que justificasse a ordem de prisão hoje expedida contra Jayme Rincón, que jamais se esquivou de responder qualquer questionamento, inclusive fornecendo seus sigilos constitucionalmente garantidos.

A defesa conhece os depoimentos prestados pelos delatores por ocasião da homologação da delação, o quais são completamente diferentes entre si, considerando cada delator em si e um com outro.

As menções aos codinomes são diferentes entre os dois momentos da delação, parecendo uma adequação ao desejo acusatório em troca de um perdão de legitimidade duvidosa.

Mais do que isto, a defesa de Jayme Rincon, desde há muito tempo, questiona judicialmente a competência do juízo federal para tal análise dos fatos e a atribuição do Procurador que fora licenciado para concorrer a cargo eletivo. Verdadeiro golpe no sistema democrático brasileiro, conforme outrora a defesa já havia antevisto.

Márcio Garcia de Moura

Nem o policial militar Márcio Garcia de Moura nem o advogado dele quiseram comentar o assunto durante a audiência de custódia.

Em nota, a assessoria de comunicação social da Polícia Militar informou que “todas as providências legais serão adotadas em decorrência da operação desencadeada pela Polícia Federal, na manhã de hoje (28), no tocante ao possível envolvimento e prisão de um integrante da Polícia Militar”.

Pablo Rogério de Oliveira

A defesa do ex-policial militar e advogado Pablo Rogério de Oliveira disse que também não tem conhecimento dos autos, mas pedirá a liberdade provisória do investigado. “Ele tem todos os requisitos para responder em liberdade, não causa prejuízo ao processo. Tem também a questão da lei eleitoral, que protege eleitores e candidatos”, afirmou o advogado José Coelho de Oliveira.

A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) de Goiás disse que foi informada da prisão.

“A Ordem tem por regra acompanhar toda ocorrência envolvendo seus inscritos por meio de sua Comissão de Direitos e Prerrogativas. Antes de tudo, para assegurar o respeito às suas prerrogativas profissionais. Depois, para certificar-se de que será punido em caso de comprovação de culpa, observando sempre o devido processo legal, contraditório e amplo direito de defesa, garantias que assistem a todo cidadão, não apenas aos advogados.”

Carlos Alberto Pacheco Júnior

O empresário negou, durante audiência de custódia, envolvimento com o esquema.

Investigações
De acordo com o Ministério Público Federal (MPF), Perillo, quando ainda era senador e depois como governador, pediu e recebeu propina para favorecer a Odebrecht em contratos e obras. Os valores, segundo as investigações, foram de R$ 2 milhões em 2010 e R$ 10 milhões em 2014.

Na denúncia, Marconi Perillo é citado como líder do esquema. Jayme Rincón é apontado como braço-direito do ex-governador, responsável pela entrega do dinheiro solicitado pelo político. O filho de Jayme, Rodrigo Rincón, teria colaborado diretamente com o recebimento do dinheiro, tendo sido beneficiário de parte dos pagamentos.

Além disso, os policiais militares Sergio Rodrigues de Souza (falecido) e Márcio Garcia de Moura teriam transportado o dinheiro conforme pedidos de Marconi, assim como Pablo Rogério de Oliveira e Carlos Alberto Pacheco Junior.

Ao todo, foram cumpridos 14 de busca e apreensão. A ação ocorreu em cinco cidades – Goiânia (GO), Pirenópolis (GO), Aruanã (GO), Campinas (SP) e São Paulo (SP). Foram apreendidos R$ 80 mil na casa de Jayme Rincón. Outros R$ 940.260, na casa do motorista dele.

De acordo com as investigações, a propina era entregue em dinheiro em espécie e transportada em malas e mochilas. O MPF apontou que houve ao menos 21 entregas do dinheiro irregular em 2014 feitas a mando da Odebrecht para favorecer Perillo.

O policial militar e motorista Márcio Garcia de Moura (de cinza) e Jayme Rincón (branco) durante audiência de custódia — Foto: Paula Resende/G1
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