A mulher balzaquiana

A mulher ideal

 Mulher balzaquiana . A mulher ideal     ( Foto: A revista da Mulher)
Mulher balzaquiana . A mulher ideal ( Foto: A revista da Mulher)

A mulher ideal

Publiquei há pouco, neste espaço, uma crônica intitulada A mulher balzaquiana. Falava eu da que, segundo Balzac, é a mulher ideal – a mulher de trint´anos. Choveram protestos, em viva voz, por e-mails, e até por carta vinda do estrangeiro (gesto caído nas antiguidades, que hoje já não se faz). Tudo por achar o mulherio que fui injusto ou passadista, ao colocar a mulher ideal como sendo balzaquiana, quando bate com os cravos na trave dos trinta janeiros, colhidos no verdurão da existência.

Motivo alegado pela maioria das quereladas & protestantes: no tempo do bom e eterno Balzac podia ser, que naqueles tempos românticos (porém duríssimos) nem mulheres nem homens podiam contar com os tratos e jeitos de que hoje dispõe a medicina estética, a cosmética saiu do tempo da carroça, hoje viaja de avião a jato. Ao tempo de Balzac, tirando as podres de chique, nas classes baixas, mulher passada dos trinta estava mais engruvinhada do que maracujá de gaveta, ou genipapo passado da hora de cair do galho.

Remoendo meus miolos, e colocando atenção nos milhares de medicamentos, produtos da cosmética, e procedimentos cirúrgicos, capazes de ocultar os efeitos do tempo, percebo que as mulheres que brigaram em cima dos tamancos, em protesto ao meu escrito, estão cobertas de razão. Eis senão quando, como diria aquele político prolixo, vemos hoje mulheres balzaquianas já cruzando – em cima dos tamancos, tendo quase tudo em cima, tudo erguido a golpes de bisturi, em cirurgias feitas quase uma em cima da outra, tal a pressa em dar um jeito no que o tempo desgastou. Se bem que, em tal terreno movediço, onde afundam vaidades, nem todo prometido é cumprido.

Hoje, mesmo aplicando-se no rosto insulina botulímica, não há ruga para a qual não haja um jeito, uma vez que sempre haverão pessoas dispostas a pagar onças de ouro de tolo, para não ter rugas na face. Entonces, dando o dito pelo não dito, dou a mão à palmatória, não apresento recurso às interpelações feitas (ainda bem que não em juízo, pois assim estaria frito antes da sentença condenatória). Mulher balzaquiana não é mais a de trint´anos, podendo até mesmo a que, por uma ou até duas décadas depois, manteve-se nos trinques, sendo dama de fino trato, mesmo armando os maiores barracos.

E para não dizerem que não fui romântico, eu que mal falei da mulher balzaquiana, digo: a mulher ideal é a mulher surreal: pois a mulher conquistada, que temos, de cama e mesa, jamais será como a mulher irreal, que sempre vem alumbrar os sonhos do coração. Esta está sempre mais presente quanto mais se perde na distância, pois o cotidiano não a alcança, nem ela tem o sono assombrado por pesadelos do real. Talvez por isto cantava o poeta boêmio: “Quanto mais bebida eu ponho/mais cresce a mulher no sonho/na taça e no coração/”.

*Brasigóis Felíio é escritor e jornalista.Membro da Academia Goiana de Letras (cadeira 25)

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