Para falar bem da Secrt de Saúde

Mulher que arrancou dentes por falta de atendimento diz que teve proposta

Depoimento foi dado a vereadores que apuram irregularidades em Goiânia. Segundo a dona de casa, a oferta ocorreu em visita de uma equipe da pasta após a TV Anhanguera divulgar o problema.

Celina Teixeira arrancou um dente por não conseguir tratamento na rede pública (Foto: Murillo Velasco/ G1)

Mulher que arrancou dentes por falta de atendimento diz que teve proposta

A dona de casa Celina Lopes Teixeira, que arrancou um dente com alicate por não conseguir atendimento em postos de saúde de Goiânia, disse nesta quarta-feira (6) aos vereadores que, depois de a TV Anhanguera divulgar o problema, recebeu uma proposta de ajuda de um representante da Secretaria Municipal de Saúde (SMS) para poder “falar bem” do órgão. Se aceitasse, ela ganharia três meses de alimentação para a família dela.

Segundo Celina, a proposta foi feita na residência dela, durante a visita de uma comitiva da SMS, com a presença da secretária Fátima Mrué.

“Eram umas seis pessoas, incluindo a secretária.Ele [assessor] primeiro ofereceu cestas básicas para minha família durante três meses, depois pediu para que eu falasse bem da secretária sempre que eu fosse procurada. Em um primeiro momento, eu achei que ele queria me ajudar mesmo, mas agora percebo que era uma forma de suborno e eu provavelmente não vou querer receber essa ajuda, não dessa forma, com essa condição”, disse.

A Secretaria Municipal de Saúde (SMS), informou, em nota, que a proposta de alimentos “não faz parte de sua oferta de serviços”. O órgão disse ainda que “está à disposição da paciente para todo o seu tratamento odontológico e para a assistência em saúde que ela precisar” e que já realizou 22 mil atendimentos odontológicos este ano.

Por fim, a pasta esclarece que a secretária Fátima Mrué procurou pessoalmente a paciente para se inteirar da situação “devido à sua indignação com o ocorrido e na qualidade de profissional da área médica se solidarizou com o episódio”.

O depoimento da dona de casa começou às 10h20 desta terça-feira durante sessão da Comissão Especial de Inquérito da Câmara Municipal de Goiânia que apura irregularidades na Saúde Pública da capital.

Celina foi convidada a dar a sua versão aos vereadores após declaração da superintendente de Atenção de Redes da SMS, Luciana Curado, na audiência de terça-feira (5). Na ocasião, a servidora afirmou que Celina tinha o “hábito” de arrancar os dentes com alicates há dez anos.

De acordo com a dona de casa, ela realmente arranca os próprios dentes há anos porque não consegue atendimento na rede pública. Neste ano, como sentia muita dor e, mais uma vez, não era atendida, Celina usou um alicate para extrair o órgão.

“Não sou insana ou masoquista, arranquei os dentes porque estava em desespero, com dor. Eu fiquei muito decepcionada com essa informação porque ela sabe muito bem a luta que eu passei em busca de um tratamento para que não perdesse o dente dessa forma”, rebateu Celina.

A dona de casa afirmou ainda que, após a repercussão do caso, ela recebeu um encaminhamento para ser atendida em uma unidade de saúde do Setor Novo Horizonte, na região sudoeste da capital, e já passou pelo primeiro atendimento .

Falta de atendimento
O caso da Celina foi um dos problemas de atendimento odontológico da rede pública da capital mostrados por uma série de reportagens do Jornal Anhanguera 1ª Edição, da TV Anhanguera. A apuração apontou ainda que 370 dentistas concursados recebem salários entre R$ 4 e R$ 10 mil, mas não conseguem atender porque estão sem receber materiais há cerca de um ano.

Após a exposição do caso, a Comissão Especial de Inquérito convocou funcionárias da prefeitura para falar sobre os problemas. Os parlamentares também solicitaram à Polícia Civil a abertura de um inquérito, pois denunciam que a Prefeitura de Goiânia foi omissa e negligente.

Na terça-feira, além da superintendente, a gerente de Saúde Bucal de Goiânia, Ana Paula Nomelini, também prestou depoimento à CEI. Aos vereadores, ela disse que 77 das 87 unidades não estão fazendo procedimentos odontológicos em Goiânia porque não há anestésico.

“Foram 37.644 atendimentos neste ano na rede. A gente sofre, tentei medidas, peguei materiais emprestados. Estou fazendo o que posso, tentando comprar. Não estou parada, sendo omissa”, disse.

Ana Paula garantiu que os produtos já foram solicitados. Eles devem ser entregues em, no máximo, 30 dias.
Relator da CEI da Saúde, o vereador Elias Vaz (PSB) avalia que o depoimento reforça a falta de planejamento para a aquisição de insumos e inexpressividade dos atendimentos.

“O dado que a gerente coloca, de 37 mil atendimentos para 370 dentistas, dá menos de meio atendimento por dia para cada profissional. Há incoerência, irresponsabilidade do poder público com uma questão tão séria”, afirma.


Luciana Curado disse em depoimento que Celina tinha o hábito de arrancar dentes há 10 anos (Foto: Paula Resende/ G1)
Dentistas da rede pública ficam sem poder atender pacientes por falta de material Goiânia (Foto: Reprodução/TV Anhanguera)
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