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Brasil deve ser alvo do “Dia da Libertação” prometido por Trump

O Brasil tem grande chance de ser um dos alvos das tarifas recíprocas que os Estados Unidos prometem anunciar nesta quarta-feira (2).

O presidente norte-americano Donald Trump define a data como o “Dia da Libertação”, no qual promete responder a alegadas injustiças de parceiros comerciais contra a produção dos EUA.

Na mira de Trump desde o início do mandato, o Brasil já foi definido por ele como um dos países que “taxam demais” e “querem mal aos EUA”.

O Brasil também é citado em várias páginas de um recém-publicado relatório do governo norte-americano que lista restrições a produtos e serviços dos EUA no exterior.

Tarifas recíprocas são uma estratégia comercial em que um país busca equilibrar sua relação tarifária com outro, aplicando à importação de produtos taxas equivalentes às cobradas pelo parceiro sobre bens exportados.

Se aplicado, o tarifaço vai ampliar as incertezas econômicas para o Brasil, já pressionado por inflação persistente e problemas fiscais.

Analistas avaliam que elas podem desacelerar o crescimento do PIB brasileiro, pressionar a inflação e obrigar o Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) a manter a taxa Selic elevada por mais tempo.

Tarifas de Trump no “Dia da Libertação” podem ser mais amplas que o esperado
A julgar pelo que Trump afirmou nos últimos dias, as tarifas devem ser aplicadas a todos os países com relações comerciais com os EUA.

A divulgação da extensão da medida, no fim de semana, gerou tensão nos mercados financeiros globais, reduzindo o apetite por risco e elevando a demanda por ativos seguros, como o ouro.

Inicialmente, o secretário do Tesouro, Scott Bessent, mencionou foco nos chamados “15 sujos” – países com altas barreiras tarifárias que representam grande parte do comércio americano. As tarifas podem chegar a 20%, apontam sites de notícias norte-americanos.

Mas, segundo Trump, a medida será um “tratamento generoso e benevolente” em comparação ao que os EUA recebem de outros países, incluindo amigos e inimigos.

Os números serão menores do que os que eles estão nos cobrando e, em alguns casos, talvez substancialmente menores.

De certa forma, talvez tenhamos uma obrigação para com o mundo, portanto, seremos muito gentis, relativamente falando, seremos muito generosos, afirmou.

No fim de semana, Trump afirmou que os recursos obtidos com as tarifas vão financiar cortes de impostos e promessas eleitorais.

Eles nos roubaram como nenhum outro país e nos retiraram empregos e riqueza. Será muito dinheiro para nosso país.

Os EUA enfrentam déficits comerciais significativos. Em fevereiro, as importações superaram as exportações em US$ 147,9 bilhões, o segundo pior saldo desde 1992, segundo o US Census Bureau. Nesse período não foi registrado nenhum saldo positivo mensal.

Trump afirmou que as tarifas servirão também como ponto de partida para futuras negociações comerciais.

Segundo a Associated Press, CEOs foram convidados para o anúncio oficial na Casa Branca, com expectativa de que empresas anunciem investimentos nos EUA para evitar a nova taxação.

Um relatório publicado nesta segunda (31) pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês) destaca as restrições impostas aos produtos e serviços norte-americanos no exterior.

O Relatório de Estimativa Comercial Nacional sobre Barreiras ao Comércio Exterior (NTE) dedica seis páginas ao Brasil.

O Brasil impõe tarifas relativamente altas sobre importações em uma ampla gama de setores, incluindo automóveis, peças automotivas,

tecnologia da informação e eletrônicos, produtos químicos, plásticos, máquinas industriais, aço e têxteis e vestuário, diz o relatório do USTR.

O documento sinaliza para barreiras comerciais impostas pelo Brasil, com foco em tarifas elevadas e tributações como o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), que dificultam o acesso de produtos americanos em setores estratégicos.

A tarifa sobre etanol é mencionada como entrave relevante nas relações bilaterais. Segundo o órgão, essas práticas ampliam o custo do comércio e afetam a competitividade das empresas dos EUA no mercado brasileiro.

A burocracia excessiva e práticas específicas para importação, como licenciamento não transparente e restrições a bens remanufaturados, são outros pontos críticos apontados pelo relatório.

Exigências de parceria com empresas locais em contratos governamentais e a ausência de adesão ao Acordo sobre Contratação Pública (ACP) da Organização Mundial do Comércio (OMC) dificultam a entrada de concorrentes estrangeiros.

A situação reduz a integração do Brasil ao comércio internacional.

O relatório ainda ressalta desafios na proteção da propriedade intelectual, citando falsificação, pirataria e atrasos em patentes.

Outras barreiras incluem cotas culturais para conteúdos audiovisuais e exigências de reciprocidade no setor financeiro, que prejudicam a concorrência. Essas restrições, segundo o USTR, comprometem a atratividade do mercado brasileiro para investidores estrangeiros.

Brasil foi alvo de tarifas de Trump antes do “Dia da Libertação”

A taxação sobre alguns produtos brasileiros começou antes mesmo do “Dia da Libertação”. Desde 12 de março, foram revogadas isenções e cotas que beneficiavam siderúrgicas brasileiras, sendo estabelecida uma tarifa de 25% sobre aço e alumínio.

“Os Estados Unidos são um mercado crucial”, destaca Simão Silber, professor sênior da Universidade de São Paulo (USP) e pesquisador da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe). Em 2023, 10% da produção brasileira de aço foi destinada ao mercado americano, fazendo do Brasil o segundo maior fornecedor dos EUA.

A medida afetará também as cadeias produtivas americanas, elevando custos em setores como o automotivo, apesar do objetivo declarado de proteger a indústria local. Para o Brasil, a produção de aço deve recuar cerca de 11% em 2025, estima Siebel.

O economista Rafael Yamano, da SulAmérica Investimentos, alerta que outros segmentos estão vulneráveis devido a tarifas brasileiras significativamente superiores às americanas. Entre os mais expostos estão ferro fundido, madeira, aviões comerciais, carne bovina, suco de laranja, petróleo e transformadores.

O que o governo brasileiro diz sobre as ameaças de tarifaço de Trump
O vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Geraldo Alckmin, acredita que o déficit comercial brasileiro com os EUA pode ser usado como argumento para reverter as tarifas recíprocas. Porém, segundo o Banco Mundial, as tarifas brasileiras são cinco vezes superiores às americanas.

O ministro da Fazenda,

Fernando Haddad, classificou como injustificável a possibilidade de os Estados Unidos aplicarem novas tarifas sobre o Brasil.

Qualquer retaliação ao Brasil vai soar injustificável à luz dos dados e das décadas de parceria entre Estados Unidos e Brasil,

afirmou Haddad na segunda-feira, durante conferência sobre economia e clima realizada na França.

Haddad destacou que a economia brasileira está pronta para enfrentar uma eventual guerra comercial, apesar da vantagem estrutural que os Estados Unidos possuem em relação ao Brasil.

Nós que teríamos mais espaço para crescer no comércio com eles, completou o ministro,

sinalizando que o Brasil busca expandir sua presença no mercado americano, mesmo diante de possíveis barreiras.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) vem criticando a postura americana e enviou documento ao USTR alertando sobre danos às relações bilaterais.

Lula cogita acionar a OMC e, se necessário, retaliar com tarifas sobre produtos americanos.

Não podemos aceitar que eles imponham tarifas, declarou durante encerramento da viagem ao Japão, na semana passada.

Yamano e Felipe Vasconcellos, sócio da Equus Capital, apontam para os riscos de uma retaliação tarifária por parte do Brasil. Ela pode desencadear um cenário de menor crescimento econômico combinado com alta inflação – a chamada estagflação. Esse contexto tornaria mais difícil a atuação do Banco Central no controle da inflação e no ajuste da economia.

Há riscos em se tomar medidas impulsivas, que, se mal planejadas, podem causar impactos ainda mais graves no Brasil, afirma o sócio da Equus.

Outra possível justificativa para o Brasil tentar evitar medidas protecionistas mais severas dos Estados Unidos é o fato de o país não figurar com destaque em listas de problemas sociais frequentemente citadas por Donald Trump, como imigração ilegal e tráfico de drogas.

No entanto, o Brasil é apontado pelos EUA como um dos países mais desleais em termos comerciais, devido às suas tarifas elevadas em comparação às americanas.

Essa percepção foi reforçada por Trump em fevereiro, ao apresentar um memorando solicitando estudos para a implementação das tarifas recíprocas.

O republicano destacou o caso do etanol: enquanto os EUA aplicam uma tarifa de 2,5% ao biocombustível brasileiro, o Brasil impõe 18% sobre o etanol americano.

Em 2024, os EUA importaram aproximadamente US$ 200 milhões em etanol do Brasil, mas exportaram apenas US$ 52 milhões para o mercado brasileiro.

Uma abordagem diplomática bilateral é mais viável para a discussão das tarifas neste momento, dada a fragilidade atual da OMC, apontam analistas.

Vasconcellos defende a diversificação das exportações brasileiras como estratégia de longo prazo, destacando iniciativas como o acordo Mercosul-União Europeia, que precisa ser implementado, e esforços recentes para ampliar mercados na Ásia.

Novas tarifas de Trump devem afetar mais o Brasil por serem mais gerais
Especialistas ouvidos pela Gazeta do Povo ressaltam que, caso sejam mesmo aplicadas sobre o conjunto dos produtos brasileiros, as novas tarifas do presidente norte-americano terão reflexos mais graves do que aquelas sobre o aço e o alumínio. Os Estados Unidos são o segundo maior parceiro comercial do Brasil e o principal destino no exterior para os produtos industrializados.

Silber aponta que um reflexo mais imediato deve ser a desaceleração da atividade econômica.

Rodrigo Leite, professor de finanças e controle gerencial do Coppead/UFRJ, destaca que a imposição de novas tarifas, ao reduzir exportações, diminuiria a entrada de dólares no Brasil, desvalorizando o real e pressionando ainda mais a inflação. Esse cenário pode levar o Copom a manter ou elevar a taxa de juros, causando um cenário de estagflação.

Outra preocupação é com o ambiente de negócios. José Augusto de Castro, presidente da Associação do Comércio Exterior do Brasil (AEB), afirma que as constantes mudanças tarifárias por parte de Donald Trump dificultam o planejamento das operações das empresas brasileiras que têm negócios no exterior.

“Dia da Libertação” pode ter efeito negativo também nos Estados Unidos

As medidas de Trump tendem a afetar negativamente a própria economia americana, com redução no crescimento econômico, alta da inflação e aumento do desemprego.

O Goldman Sachs, um dos maiores bancos de investimento norte-americanos, estima que as medidas vão tirar 0,5 ponto percentual do crescimento do PIB dos EUA, que com isso fecharia o ano em alta de apenas 1% sobre 2024.

O banco também prevê aumento de 0,5 ponto na inflação devido ao custo elevado dos bens importados. A instituição ainda elevou de 20% para 35% a chance de recessão nos próximos 12 meses.

A deterioração da percepção dos consumidores é um dos principais indicadores de preocupação na economia americana.

De acordo com a Universidade de Michigan, em março esse índice piorou pelo terceiro mês consecutivo, refletindo expectativas mais negativas sobre finanças pessoais, negócios, emprego e inflação.

O movimento ocorreu tanto entre os democratas e independentes, quanto entre republicanos, partidários de Trump.

Jason Furman, ex-presidente do Conselho de Assessores Econômicos da Casa Branca entre 2013 e 2017 e professor na Universidade de Harvard, escreveu no jornal The New York Times que tarifas recíprocas podem reduzir o comércio global, tornando produtos americanos menos competitivos devido a prováveis retaliações dos demais países.

Além de enfraquecer o sistema de comércio internacional, analistas apontam que as medidas tarifárias dos EUA podem fortalecer a posição geopolítica da China.

Ao pressionar países a escolher entre os Estados Unidos e a China como parceiros comerciais, muitos podem optar pela segunda opção, dada sua relevância e peso no comércio global.

Esse movimento pode provocar um realinhamento estratégico em favor da China, avalia Furman.

Por Vandré Kramer

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  • Gildo Ribeiro

    Gildo Ribeiro é editor do Grupo 7 de Comunicação, liderado pelo Portal 7 Minutos, uma plataforma de notícias online.

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