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Coração bem Acelerado em Goiás

Vestido goiano rouba a cena em novela da TV Globo e revela força da moda autoral brasileira

Na noite de segunda-feira, 9 de março, uma das cenas mais aguardadas da novela Coração Acelerado deixou o público dividido entre surpresa, indignação e emoção.

Peça criada pela estilista goiana Theodora Alexandre para a personagem Agrado, da novela Coração Acelerado, leva à televisão nacional técnicas artesanais, regionalismo do Cerrado e a trajetória empreendedora de uma marca de moda autoral fortalecida por consultorias e capacitações do Sebrae

Na noite de segunda-feira, 9 de março, uma das cenas mais aguardadas da novela Coração Acelerado deixou o público dividido entre surpresa, indignação e emoção.

A personagem Agrado, interpretada por Isadora Cruz, aparece pronta para subir ao altar ao lado de João Raul, vivido por Filipe Bragança.

O vestido de noiva, delicado e marcante, chama a atenção logo nas primeiras imagens.

O momento parece seguir o roteiro clássico das histórias românticas.

Agrado chega a vestir o traje e desperta a admiração do noivo.

Mas a trama toma um rumo inesperado. Em meio a reviravoltas dramáticas, a personagem decide não se casar.

Em um gesto radical, leiloa o vestido e foge da situação que parecia selar seu destino.

Para quem assistia, o vestido de noiva se tornou parte central da narrativa.

Ele simboliza esperança, ruptura e transformação, elementos que dialogam com a própria trajetória da personagem.

O que muitos espectadores talvez não saibam é que a peça que protagonizou esse momento da televisão brasileira nasceu em Goiânia.

O vestido foi desenvolvido pela marca autoral Thear, comandada pela estilista e empresária goiana Theodora Alexandre.

A criação carrega não apenas estética, mas também história, memória cultural e técnicas artesanais que representam o regionalismo brasileiro.

A história por trás do vestido de Agrado

A presença da Thear na novela começou de forma inesperada. Segundo Theodora Alexandre, o convite surgiu após a figurinista da produção conhecer o trabalho da marca na internet.

Ela estava pesquisando marcas que representassem o regionalismo brasileiro.

Depois de encontrar a Thear digitalmente, decidiu visitar o nosso ateliê em Goiânia.

Foi ali que nasceu o convite para desenvolver o vestido da personagem, conta.

A visita da figurinista Sabrina Moreira à Casa Thear, em setembro do ano passado, permitiu que ela conhecesse de perto os processos de criação da marca que são baseados em manualidades, memória afetiva e referências do interior do Brasil.

O resultado foi a criação de um vestido pensado especialmente para a trajetória da personagem Agrado.

A peça carrega elementos que traduzem sensibilidade, delicadeza e ligação com as raízes interioranas presentes na narrativa da novela.

Mais do que um figurino, queríamos criar uma peça que dialogasse com a história da personagem e com aquilo que ela representa,

explica Theodora.

Construção artesanal e identidade do Cerrado

Do ponto de vista técnico, o vestido reúne elementos clássicos da alfaiataria feminina e técnicas artesanais tradicionais.

A estrutura da peça parte de um corset modelado, elemento que define a silhueta e cria uma base estruturada para o restante do vestido.

A amarração nas costas, recurso tradicional, permite ajuste preciso ao corpo e reforça a estética artesanal da criação.

O corset foi construído sobre uma base de tule de algodão, material leve e translúcido que serve de suporte para aplicações manuais de crochê.

Esses módulos foram produzidos com linha 100% algodão e formam desenhos orgânicos que lembram rendas e texturas naturais.

O crochê não aparece apenas como detalhe decorativo.

Ele atua como elemento central do design de superfície, criando relevo e profundidade na peça.

A técnica evoca saberes manuais presentes em diferentes regiões do interior do Brasil e conecta o figurino a memórias afetivas e culturais.

Na parte inferior, a saia em tecido encorpado ganha volume e movimento por meio de drapeados frontais com franzidos.

A técnica cria um caimento fluido que alonga visualmente a silhueta.

O conjunto ainda apresenta uma leitura sutilmente western, perceptível na construção do volume e na composição do drapeado, referências que dialogam com universos rurais e interioranos.

Para finalizar o visual, o vestido recebe uma mantilha em tule leve com acabamento em renda gripir de algodão.

O detalhe amplia o caráter bucólico e poético da cena, reforçando a estética de delicadeza artesanal que marca o trabalho da marca.

A trajetória da estilista por trás da marca Thear

A história do vestido também se conecta diretamente à trajetória da estilista que o criou, uma jornada marcada por transformação, conceito que dialoga simbolicamente com o próprio vestido de noiva que aparece na novela.

Natural de Goiânia, Theodora Alexandre atua há mais de duas décadas no universo da moda. Formada pela Universidade Federal de Goiás (UFG) e com pós-graduação na área pela Universidade Estadual de Goiás (UEG), ela acumulou experiência trabalhando como consultora e colaborando com diferentes marcas antes e em paralelo ao próprio negócio.

Eu comecei na 44, relembra.

A estilista também atravessou um processo pessoal importante ao longo dessa trajetória. Há cerca de cinco anos, Theodora realizou sua transição de gênero.

Segundo ela, a moda teve um papel fundamental nesse caminho de autoconhecimento e construção de identidade.

Para Theodora, o trabalho com imagem, estética e expressão visual contribuiu diretamente para fortalecer a conexão com quem ela realmente é.

A moda ajudou muito nesse processo de entender minha própria identidade.

Essa comunhão bonita entre imagem e identidade, que me permite me ajudar e também ajudar outras pessoas, e completa:

lindo na vida é ver na essência quem a gente é!

Compartilha.

A empresária conta que procura viver cada etapa com tranquilidade e respeito ao próprio tempo seja na vida pessoal ou profissional.

Explica que não enfrenta disforia em relação ao corpo ou à própria trajetória profissional, preferindo enxergar sua história como um processo contínuo de descoberta e amadurecimento.

A Thear nasceu a partir de um trabalho de conclusão de curso, desenvolvido durante sua pós-graduação entre 2014 e 2015.

Naquele momento, Theodora enfrentava uma crise pessoal e profissional em relação ao modelo de produção predominante na indústria da moda.

Incomodava muito perceber o impacto ambiental do fast fashion e da produção em larga escala.

Eu queria construir algo que tivesse sentido, que valorizasse processos e histórias, relembra.

Foi nesse processo de reflexão que surgiu a ideia de criar uma marca baseada em sustentabilidade, artesanato e memória cultural.

Após anos de estruturação do negócio, a Thear foi oficialmente lançada em 2018.

Desde então, a marca construiu um portfólio que combina técnicas manuais como crochê, bordado, macramê e aplicações em algodão, criando peças que dialogam com a natureza do Cerrado e com referências culturais brasileiras.

Coleções como Elementos, inspirada nos quatro elementos da natureza, terra, água, ar e fogo; e a coleção dedicada à poetisa goiana Cora Coralina ajudaram a consolidar a identidade estética da marca.

Essa última também resultou em uma colaboração institucional com os Correios, que lançou um selo comemorativo inspirado na coleção.

A trajetória da Thear ganhou projeção nacional a partir de participações em eventos importantes do setor, como a Casa de Criadores, em São Paulo, e posteriormente na São Paulo Fashion Week.

Em 2025, a marca também participou do Fashionclash, na Holanda.

Trata-se de um renomado evento internacional de moda realizado anualmente em Maastricht, que funciona como plataforma para uma nova geração de designers, artistas e criativos — experiência que ampliou ainda mais a presença da marca no cenário da moda autoral contemporânea.

Consultoria e gestão fortalecem o crescimento da marca

Por trás da trajetória criativa da Thear existe também uma estratégia de gestão e desenvolvimento empresarial construída ao longo dos anos.

Theodora afirma que mantém uma relação próxima com programas de capacitação e consultorias oferecidos pelo Sebrae há mais de dez anos.

Para ela, esse apoio foi fundamental para transformar a criatividade em um negócio sustentável.

Eu sempre enxerguei as consultorias como um diferencial estratégico.

Elas ajudam a ampliar a visão de mercado e a identificar novas oportunidades, afirma.

Atualmente, a marca conta com o acompanhamento do consultor do Sebrae Goiás e especialista em negócios de moda Leandro Pires, que auxilia no desenvolvimento estratégico da empresa.

Segundo ele, a trajetória da Thear mostra como marcas autorais podem crescer de forma consistente mesmo com recursos limitados.

É uma marca que nasceu pequena, com origem simples, mas que cresceu com maturidade.

Desde o início houve planejamento, construção de identidade e busca por conhecimento, avalia.

O consultor destaca que a participação em eventos como a São Paulo Fashion Week ampliou a visibilidade da marca e abriu novas portas no mercado.

Hoje existe um grande potencial de expansão comercial.

O desafio agora é transformar reconhecimento criativo em oportunidades de mercado, ampliando conexões dentro da cadeia produtiva da moda, explica.

Entre os próximos passos da marca estão a realização de um desfile solo em São Paulo, previsto para maio deste ano, e abertura de nova praça comercial por meio de revenda multimarcas, e para tal, a consultoria de Leandro por meio do Sebrae já está contratada.

Moda autoral e economia criativa ganham força no Brasil

A presença da Thear em uma produção televisiva de alcance nacional também reflete um movimento maior que vem ocorrendo no setor da economia criativa brasileira.

Nos últimos anos, cresce o interesse por marcas autorais que valorizam identidade cultural, sustentabilidade e processos artesanais. Esse movimento tem ampliado o espaço para criadores que trabalham com narrativas ligadas ao território e à memória cultural.

Segundo Leandro, a valorização da produção artesanal e das referências regionais tem impulsionado novas oportunidades para pequenos negócios da moda.

Nesse contexto, Goiás também começa a ganhar destaque no cenário nacional.

O estado possui uma cadeia produtiva que vai da produção de algodão à criação de peças autorais, conectando agronegócio, indústria têxtil e economia criativa.

Para Leandro Pires, esse movimento pode fortalecer ainda mais o setor.

A moda autoral brasileira está em ascensão.

Existe uma demanda crescente por identidade, sustentabilidade e originalidade.

Quando essas marcas conseguem estruturar gestão e networking, elas ampliam muito suas possibilidades, afirma.

Serviço:
Instagram: @thearoficial
Casa Thear: Rua 24, nº 278, Centro – Goiânia – GO
Contato: 62 98446-4466

Por Leidiana Batista, de Goiânia

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    Leidiana Batista

    Jornalista com experiência nas principais áreas da comunicação, TV; Rádio, internet; impresso e assessoria de imprensa. Formou-se pela Universidade Federal de Goiás (UFG) e especializou-se em comunicação empresarial. Foi voluntária no Rotary Club Anápolis Jaiara, onde atuou na área de Imagem Pública. Foi editora de texto na TV Anhanguera (Globo) e nas assessorias de comunicação do Porto Seco Centro Oeste e Associação Comercial e Industrial de Anápolis (ACIA). Atualmente faz assessoria de comunicação e marketing e gerente de projetos na Orman D&B.

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