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O Sistema por Trás da Guerra:

Dólar, Petróleo e o Conflito que Redefine o Poder Global

Há um erro recorrente — quase infantil — na forma como se interpreta o poder internacional: a crença de que ele pode ser reduzido a uma única dimensão.

Alguns o veem apenas na força militar.

 Outros, mais sofisticados, tentam deslocá-lo inteiramente para o campo econômico.

Ambos erram por simplificação.

O poder real, sobretudo no mundo contemporâneo, é sistêmico — e nasce justamente da combinação entre coerção e estrutura.

Há uma cena emblemática em Game of Thrones que ilustra isso com precisão quase didática.

Em um diálogo tenso, Petyr Baelish afirma que “o conhecimento é poder”.

Cersei Lannister, sem elevar a voz, ordena que seus guardas o matem.

Após recuar a ordem, ela conclui: “poder é poder”.

A lição é direta: no limite, é a capacidade de impor a vontade — pela força — que sustenta qualquer outra forma de poder.

Mas essa é apenas metade da verdade.

A outra metade, menos visível e mais duradoura, é que a força bruta, isoladamente, não organiza o mundo.

Ela abre caminho.

Quem o estrutura é o sistema.

A atual escalada envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã não pode ser compreendida pela ótica convencional da guerra. Ela exige uma reconstrução histórica — não dos eventos imediatos, mas das estruturas que tornaram esse conflito não apenas possível, mas, em certa medida, inevitável.

O ponto de partida não é Teerã. É 1971.

Quando Richard Nixon encerra unilateralmente a conversibilidade do dólar em ouro, ele não está apenas tomando uma decisão econômica.

Está rompendo com a última âncora objetiva do sistema monetário internacional. Até então, o dólar era uma promessa lastreada em algo físico.

A partir dali, passa a ser uma promessa sustentada por confiança ou, mais precisamente, por poder.

Mas poder, aqui, precisa ser entendido em sua forma completa: capacidade de coerção e capacidade de organização.

Essa transição não poderia sobreviver por inércia.

Era necessário construir uma nova base de sustentação. E essa base não seria econômica no sentido estrito. Seria geopolítica — ancorada, em última instância, pela força.

O arranjo consolidado em 1974 com a Arábia Saudita — articulado sob a lógica estratégica de Henry Kissinger — não foi um simples acordo bilateral.

Foi a fundação de um mecanismo de coerção estrutural. Ao atrelar a venda do petróleo global ao dólar, os Estados Unidos transformaram uma moeda fiduciária em requisito operacional da economia mundial.

Mas esse arranjo só é crível porque, por trás dele, existe a garantia implícita de proteção — e, se necessário, de intervenção.

O petróleo substituiu o ouro — não como lastro físico, mas como necessidade universal sustentada por poder militar.

A partir desse ponto, estabelece-se um circuito fechado: energia exige dólar; dólar exige integração ao sistema financeiro dominado por Washington; e essa integração implica submissão a regras definidas fora das fronteiras nacionais.

Não se trata apenas de hegemonia, mas de uma arquitetura de dependência — garantida, em última instância, pela capacidade de coerção.

É nesse nível que o poder americano deve ser compreendido. Não como capacidade isolada de destruir, nem apenas como domínio financeiro abstrato, mas como a fusão entre força militar e engenharia econômica.

O chamado “petrodólar” não é um conceito retórico.

É um mecanismo funcional sustentado por dois pilares: a necessidade global de energia e a capacidade americana de proteger — ou desorganizar — as rotas que a distribuem.

Ele permite aos Estados Unidos sustentar déficits crônicos, expandir sua dívida em escala sem precedentes e, sobretudo, exercer um poder disciplinador sobre o sistema internacional.

Sanções, bloqueios financeiros, exclusões de redes de pagamento — tudo isso deriva de uma premissa simples: a centralidade do dólar, respaldada pela força.

Mas toda estrutura de poder, quando levada ao extremo, gera suas próprias tensões internas.

O que se observa nas últimas décadas — e que se intensifica agora — é o surgimento de um movimento de contestação não militar, mas monetário. A China compreendeu algo fundamental: não é necessário confrontar diretamente a superioridade bélica americana para reduzir sua influência. Basta corroer o pilar que sustenta sua projeção global.

A estratégia chinesa não é disruptiva no curto prazo. É cumulativa.

Ao estabelecer acordos energéticos com Rússia e Irã fora da órbita do dólar, ao desenvolver sistemas alternativos de compensação financeira e ao incentivar a denominação de commodities em yuan, Beijing não propõe uma ruptura imediata. Propõe uma transição silenciosa.

Cada transação fora do dólar é irrelevante isoladamente. Mas, agregadas, essas operações constituem uma tendência.

É nesse contexto que o Estreito de Ormuz assume centralidade estratégica. Mais do que uma rota logística, ele é um gargalo sistêmico. Aproximadamente um quinto do petróleo mundial transita por ali. Controlar esse fluxo — ou condicionar sua utilização — significa interferir diretamente na engrenagem que sustenta o petrodólar.

E, novamente, aqui se revela a lição implícita naquela cena: controlar um fluxo não é apenas uma questão de posição geográfica, mas de capacidade de imposição.

Quando o Irã sinaliza a possibilidade de vincular o trânsito ou a comercialização de petróleo a moedas alternativas, não está fazendo um gesto simbólico. Está explorando uma vulnerabilidade real do sistema.

A resposta americana, muitas vezes interpretada como desproporcional, torna-se compreensível apenas sob essa lente. A presença naval no Golfo não se explica pelo volume de petróleo importado diretamente pelos EUA, mas pela necessidade de preservar o padrão de precificação global.

Não é sobre quem consome mais petróleo. É sobre quem decide em que moeda o mundo o compra — e quem tem força para sustentar essa decisão.

Se essa denominação se altera, o impacto não é marginal. Ele atinge o núcleo da demanda global por dólares.

E é aqui que o conflito contemporâneo se conecta a decisões políticas específicas.

A atuação de Donald Trump, especialmente em sua política de sanções e pressão econômica, não pode ser reduzida a uma lógica meramente ideológica ou eleitoral. Há uma dimensão estrutural: conter, retardar ou dificultar a expansão de um sistema paralelo liderado pela China.

Sancionar o petróleo iraniano, restringir fluxos financeiros e pressionar atores-chave como a Arábia Saudita são movimentos que, no plano superficial, parecem fragmentados.

No plano sistêmico, convergem para um objetivo comum: preservar a centralidade do dólar — sustentada, em última instância, pela capacidade de coerção.

Nesse mesmo tabuleiro, a atuação de Benjamin Netanyahu deve ser interpretada à luz de uma estratégia de longa duração.

Para Israel, o Irã não é apenas um adversário regional, mas uma ameaça estrutural à sua segurança.

A convergência entre essa agenda e os interesses americanos cria uma zona de interseção onde objetivos distintos se reforçam mutuamente.

Não se trata de subordinação de uma parte à outra, mas de alinhamento circunstancial — ancorado tanto em interesses estratégicos quanto na capacidade de ação militar concreta.

Ainda assim, a dinâmica do conflito revela um elemento adicional: a assimetria de tempo estratégico entre os atores. Enquanto os Estados Unidos operam sob pressões políticas internas e ciclos eleitorais, a China atua com horizontes mais longos. Sua postura diante da crise — marcada por contenção, acúmulo de reservas e recusa em legitimar a intervenção americana — não é passividade, mas cálculo.

Ao evitar envolvimento direto, Beijing preserva sua narrativa internacional, fortalece sua posição econômica e permite que os custos do conflito recaiam predominantemente sobre seus rivais.

O isolamento relativo dos EUA nesse episódio — evidenciado pela cautela de aliados e pela ausência de engajamento direto de atores como a OTAN — sugere uma mudança gradual na disposição internacional de sustentar automaticamente a liderança americana em todos os cenários.

Não é uma ruptura. É um ajuste.

Mas ajustes, em sistemas complexos, podem ter efeitos cumulativos significativos.

Enquanto isso, os efeitos materiais do conflito se disseminam com rapidez. A elevação dos preços do petróleo impacta cadeias produtivas, pressiona custos logísticos e alimenta processos inflacionários.

Em economias como a do Brasil, altamente sensíveis a variações no preço de energia, esses efeitos se traduzem de forma direta no cotidiano.

É nesse ponto que a geopolítica deixa de ser uma abstração analítica e se converte em experiência concreta.

O que se desenha, portanto, não é apenas um conflito regional ampliado, mas um momento de inflexão sistêmica. A ordem construída no pós-1971 — consolidada pelo petrodólar — enfrenta um processo de contestação gradual, porém consistente.

Se esse processo resultará em ruptura ou adaptação ainda é incerto.

Mas uma conclusão já se impõe: o centro de gravidade do poder global está em disputa.

E essa disputa não será decidida apenas por quem controla territórios ou vence batalhas, mas por quem consegue sustentar — simultaneamente — a força que impõe e o sistema que obriga o mundo a obedecer.

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Por: Rodrigo Schirmer Magalhães
Cientista político e Analista de Politica

 

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  • Gildo Ribeiro

    Gildo Ribeiro é editor do Grupo 7 de Comunicação, liderado pelo Portal 7 Minutos, uma plataforma de notícias online.

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