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Todos estão falando sobre longevidade, mas muita coisa é pura ficção, diz pesquisador de superidosos

Em entrevista ao ‘Estadão’, o cardiologista americano Eric Topol, um estudioso do envelhecimento, reflete sobre os fatores que realmente garantem uma vida futura saudável.

Segundo ele, a herança genética tem menos peso do que se imagina

Aos 71 anos, o cardiologista americano Eric Topol propõe aos seus pacientes e leitores um programa de milhas diferente: em vez de acumularem quilômetros de vida, ele sugere que acumulem saúde.

Autor de quatro best-sellers sobre o futuro da medicina, Topol acaba de lançar o último deles em português pela Artmed.

Compêndio de 360 páginas já traduzido em 19 línguas, Super Agers: o segredo da longevidade saudável teria pelo menos 120 páginas a mais, não fosse a opção da editora de disponibilizar as centenas de referências numa lista online.

Porque é disto que se trata: um programa de milhas baseado em evidências científicas.

Um dos dez pesquisadores mais citados na área médica, Topol é conhecido por seus estudos inovadores sobre a aplicação da inteligência artificial (IA) na medicina, o uso de tecnologias digitais em ensaios clínicos e os potenciais da genômica.

Existe uma diferença importante entre genômica e genética.

Enquanto a genética estuda a hereditariedade de genes específicos, a genômica analisa o conjunto completo de genes de um organismo, incluindo interações, estrutura, função e evolução.

Já os super agers, que dão nome ao livro, seriam indivíduos na faixa dos 80 ou 90 anos livres de doenças crônicas relacionadas à idade.

Aqueles que nunca desenvolveram câncer, hipertensão e/ou algum tipo de demência estariam nessa seleção.

O que surpreendeu Topol em suas pesquisas com os superidodos é que a herança genética não é tão imperativa como ele pensava.

Mudanças no estilo de vida, agregadas a dados personalizados e avanços na medicina moderna, podem dar o salto de qualidade que se deseja com o passar dos anos.

Os médicos não podem prometer reverter ou interromper o envelhecimento em si”, diz Topol.

Mas podemos prometer que a segunda metade de nossas vidas seja muito mais saudável do que a de nossos antepassados.

A entrevista a seguir foi feita por videochamada com Topol em La Jolla, balneário localizado em San Diego.

É onde ele vive e onde se estabeleceu o Scripps Research, o maior instituto biomédico sem fins lucrativos dos Estados Unidos, do qual o cardiologista é vice-presidente executivo e professor de medicina molecular.

No livro, o senhor afirma que Super Agers foi seu projeto mais ambicioso. Por quê?

Porque ele abrange toda a medicina e propõe um caminho para que tentemos mudar a história das três principais doenças relacionadas à idade: o câncer, as doenças cardiovasculares e as doenças neurodegenerativas. A ideia é abarcar diferentes domínios da medicina, incluindo genômica, células, inteligência artificial e proteômica (conjunto completo de proteínas expressas por uma célula), para que não mais aceitemos passivamente essas três doenças, mas que evitemos que ocorram.

Como prevenir ou retardar significativamente as doenças relacionadas à idade?

A maioria das pessoas não tem alto risco para todas as três doenças graves; geralmente, apenas para uma delas. Mas precisamos fazer coisas para preveni-las. Claro, sabemos que ajustes no estilo de vida são muito importantes, mas há novos medicamentos e vacinas para ajudar. E muitas novas camadas de dados. Não só dispomos dos genes do nosso genoma, ou o que chamamos de risco poligênico a partir dessas variantes genéticas comuns, como também temos proteínas, ou seja, um relógio biológico dos órgãos. Posso dizer qual órgão está apresentando sinais de envelhecimento acelerado em qualquer pessoa.

Também temos biomarcadores sanguíneos como a p-tau217 (proteína tau fosforilada na posição 217), que nos diz com 20 anos de antecedência se temos risco de desenvolver Alzheimer.

São dados que nunca tivemos antes. Se não temos capacidade humana para analisar todos eles, temos a chamada IA ​​multimodal para integrá-los e, assim, identificar quem está em alto risco.

O que o senhor pensa sobre uma triagem em massa?   Valeria a pena “escanear” indistintamente as pessoas por ressonância magnética, por exemplo, para que pudessem ter um envelhecimento mais saudável?

Essa é, basicamente, uma receita para falsos positivos e, pelo que sabemos, causa mais danos que benefícios. Algumas pessoas dão depoimentos dizendo que esse tipo de rastreamento salvou suas vidas. Mas, para cada caso assim, há muitos outros que acabaram em biópsias desnecessárias, pulmão colapsado, ansiedade. Fora a dificuldade em realizar isso e o quão dispendioso seria. Precisaríamos de um ensaio randomizado, fazer com que as pessoas fizessem exames de imagem de corpo inteiro. Mas não há ensaios sobre isso, não há projetos.

O senhor destaca a importância do estilo de vida para um cotidiano saudável, mas adicionou um + à expressão. O que seria um estilo de vida+?

A maioria das pessoas sabe da importância da atividade física, da dieta saudável e de boas noites de sono. Mas também abordei a relevância do envolvimento social, do contato com a natureza, de ter hobbies com propósito e coisas do tipo. A lista é longa.

O outro lado da moeda são os problemas ambientais que fazem parte do nosso estilo de vida, como a exposição à poluição do ar, a certos alimentos ultraprocessados, a microplásticos, a produtos químicos persistentes. Não estamos fazendo o suficiente em relação a esses problemas e, ao mesmo tempo, eles estão, em grande parte, fora do nosso controle. Precisamos que nossos governos e nossa comunidade se mobilizem. Porque, como você sabe, temos mais jovens com câncer do que nunca, e isso provavelmente está relacionado a esses problemas ambientais, a esses perigos que não foram enfrentados.

Estamos vivenciando uma epidemia silenciosa de privação de sono?

A privação de sono é séria porque as pessoas estão vidradas em seus dispositivos e sob estresse.

Vivemos em um mundo muito conturbado.

E, sim, as pessoas estão com níveis de sono muito baixos, o que é extremamente prejudicial à saúde.

Se você não elimina os metabólitos tóxicos do cérebro, o que só acontece no sono profundo, esses resíduos causam inflamação cerebral, o que prejudica o sistema imunológico e também predispõe a doenças neurodegenerativas.

Portanto, precisamos nos esforçar para dormirmos melhor.

Há muitas coisas a fazer nesse sentido.

A primeira é ter uma rotina regular: dormir e acordar no mesmo horário.

Isso tem um impacto maior do que a maioria das pessoas imagina. O corpo precisa de um ritmo. E, claro, sabemos que o álcool interfere no sono profundo. Então, reduzir o consumo de álcool seria bom para dormir melhor.

O uso excessivo de celulares tem causado danos evidentes ao sono de jovens e adultos. O senhor acredita que esse uso intenso pode acelerar o envelhecimento dos nativos digitais da Geração Z, a chamada “geração ansiosa”?

Pode ser. Podemos fazer esses testes e comparar essa geração com outro grupo mais velho ou mais jovem. É um bom ângulo de pesquisa. Deveríamos fazer esse estudo.

Qual toxina ambiental lhe parece mais preocupante?

Todas contribuem, mas tem uma que as pessoas não levam a sério o suficiente, o que me preocupa.

São os micro e nanoplásticos. Na cardiologia, que é a minha área, há estudos mostrando que partículas de plásticos foram encontradas na parede das carótidas (artérias do pescoço) com inflamação grave ao redor dessas partículas, o que levou a um aumento de quase cinco vezes no risco de essas pessoas terem ataque cardíaco ou AVC nos três anos seguintes.

Então, estou convencido de que os microplásticos são perigosos. Eles não são biodegradáveis, mas tudo o que fazemos é continuar acumulando esse material. Precisamos mudar isso porque os microplásticos se infiltram em todos os órgãos e tecidos do corpo. Eles têm sido associados à demência, mas não duvido que também estejam ligados à nossa crise reprodutiva, à infertilidade.

Estou convencido de que os microplásticos são perigosos

Eric Topol, cardiologista

 

Qual o papel da solidão na aceleração do envelhecimento?

As interações humanas são valiosas. É um fator tão importante quanto a atividade física em alguns estudos. Mas uma pesquisa publicada recentemente reforçou que é bom interagir com outras pessoas desde que elas não lhe causem problemas. Se essas pessoas, que o estudo chama de “encrenqueiras”, são muito negativas, elas podem acelerar o envelhecimento biológico da pessoa, com efeitos mais pronunciados se o encrenqueiro fizer parte da família. Melhor estar sozinho do que com elas.

O senhor é entusiasta de medicamentos que simulam a ação do hormônio GLP-1, as famosas canetas para obesidade. Mas, com o tempo, efeitos colaterais importantes estão sendo associados ao seu uso.

Os miméticos de GLP-1 são fascinantes. Algumas pessoas, claro, apresentam efeitos colaterais, mas a maior parte dos efeitos não é grave e geralmente desaparece em algumas semanas. Essa é a única classe de medicamentos que conheço em que os efeitos colaterais desaparecem, mas a eficácia permanece.

A questão é que só recentemente descobrimos que muitos dos benefícios desses medicamentos não têm nada a ver com a perda de peso. Veja: ter gordura abdominal e estar com sobrepeso ou obesidade aumenta o risco das três principais doenças. Portanto, é importante emagrecer. Mas isso é um ponto. Mais de 60% do benefício cardiovascular associado aos agonistas de GLP-1 ocorre sem perda de peso. Cerca de 10% das pessoas não emagrecem com esses medicamentos e, ainda assim, obtêm o mesmo benefício para o coração, fígado, rins e artrite. Há algo neles que é anti-inflamatório, algo muito potente para o cérebro e para corpo, e estamos apenas começando a aprender sobre isso.

Sua mãe morreu de câncer quando tinha 50 e poucos anos, enquanto seu pai perdeu a visão aos 40 anos devido ao diabetes. Essa herança o preocupa? Até que ponto devemos atentar para os nossos “genes ruins”?

A maioria das pessoas pensa que seu destino está ligado à saúde dos pais. Está errado. Completamente errado. Fizemos um grande estudo com 1.400 pessoas, todas com perfil semelhante ao da paciente que apresento no livro, a L.R., cujos parentes morreram muito jovens. A mãe dela morreu aos 59 anos; o pai, aos 64. Ela vai fazer 99 anos agora e nunca teve uma doença grave. Vai para todo o canto sozinha, dirigindo o próprio carro

Com o sequenciamento do genoma dos 1.400 participantes da pesquisa, descobrimos que a expectativa de vida saudável está menos relacionada aos genes e mais ao funcionamento do nosso sistema imunológico ao longo da vida. Quando o nosso sistema imunológico desregula, ele pode promover inflamação no cérebro ou nas artérias ou deixar de nos proteger contra o câncer, dando uma vantagem ao tumor de crescer e se espalhar. O sistema imunológico não é determinado geneticamente. Ele é muito influenciado pelo nosso estilo de vida e pelo nosso ambiente. Então, se você é como eu e tem um histórico familiar terrível, não se sinta mal. Sinta-se livre. A maioria das pessoas tem uma família geneticamente problemática.

O senhor é conhecido como um tecno-otimista. Para melhorar a qualidade do envelhecimento, precisamos necessariamente de tecnologia?

Sim, precisamos, porque apenas o estilo de vida não será suficiente. Precisamos, em primeiro lugar, de algo que fortaleça nosso sistema imunológico, seja um medicamento, uma vacina ou qualquer outro recurso. Precisamos mantê-lo íntegro. Assim evitaríamos não só que o organismo atacasse ele próprio como perdesse a proteção ou a regulação.

Também precisamos de análises de dados avançadas e mais precisas para avaliar os registros de saúde da pessoa, seus exames laboratoriais, sua retina, sua exposição ambiental. Com a IA, consigo ver alterações dentro da normalidade. Essa será a maior contribuição da inteligência artificial. Todo mundo fala que a IA fará isso, que a IA fará aquilo, que a IA é tudo. Para mim, essa é a única aposta segura de que a IA fará uma grande diferença na medicina.

Se você é como eu e tem um histórico familiar terrível, não se sinta mal. Sinta-se livre

Eric Topol, cardiologista

 

O envelhecimento deve ser considerado uma doença?

Não. Todos nós vamos envelhecer. A ideia de que vamos reverter o envelhecimento não é clara. Muitas empresas estão trabalhando em tecnologias de reversão do envelhecimento. Espero que tenham sucesso. Os resultados parecem promissores em ratos, mas não temos dados de humanos. Acho que não devemos contar com isso.

Outro ponto que enfatizo no livro é que, mesmo que encontremos uma maneira de reverter o envelhecimento, haverá o risco do câncer. É difícil separar um do outro. Quando você rejuvenesce as pessoas, também pode induzir ao crescimento de um tumor cancerígeno. Você quer ficar cinco anos mais jovem e correr um risco de 10% de ter câncer? As pessoas terão que decidir quantos anos de rejuvenescimento conseguirão e medir as consequências disso. Nunca será totalmente livre de riscos, sabe?

Qual foi o impacto da covid-19 em sua pesquisa?

Por causa da covid, aprendi como era especialmente importante ter uma fonte confiável. Eu não podia confiar no nosso próprio governo, no CDC (Centros de Controle e Prevenção de Doenças, a principal agência de saúde pública dos Estados Unidos). Tive que analisar os dados da epidemia por conta própria.

Depois de um tempo, percebi que temos o mesmo problema com a longevidade e que eu precisava buscar fontes confiáveis para esclarecer essa história também. Todo mundo está escrevendo e falando sobre longevidade, mas muita coisa é pura ficção. Influenciadores que dão crédito a suplementos que prometem prolongar a vida, essas coisas sem nenhum embasamento científico, usadas de forma predatória para ganhar dinheiro às custas das pessoas.

O problema é que as pessoas são muito suscetíveis porque querem viver uma vida longa e saudável. Nos Estados Unidos, temos várias clínicas que promovem a longevidade oferecendo células-tronco, câmaras hiperbáricas, suplementação, mas não há regulamentação desses tratamentos nem dados que comprovem sua eficácia. É realmente exasperante. Essa é uma das razões pelas quais escrevi o livro: a desinformação em torno do envelhecimento.

O Brasil é um país muito desigual. Mesmo assim, nossa expectativa de vida aumentou, enquanto a taxa de natalidade diminuiu drasticamente, o que acelerou o número de idosos. Muitos deles, no entanto, estão doentes. Como consertar um carro enquanto ele está andando?

Essa é uma boa pergunta. É muito mais difícil tratar uma pessoa quando ela já tem uma doença. Não estou dizendo que não devamos consertar o carro, mas acho que precisamos protegê-lo antes que ele precise ser consertado.

Precisamos investir muito mais em prevenção. Temos alguns tratamentos para insuficiência cardíaca, Alzheimer, Parkinson grave, mas, francamente, nenhum deles é ótimo. É por isso que devemos nos empenhar para que esse carro não quebre. Ele pode durar muito, e nunca é tarde demais para adotar um estilo de vida mais saudável. Mas não funciona dizer a todos para fazerem tudo sem entender as especificidades de cada um. Quando uma pessoa tem seus dados, sabe exatamente qual é o risco para essa ou aquela doença e o que pode ser feito para mudá-lo, a chance de mudança é muito, muito maior.

O senhor acha que a primeira pessoa que viverá mil anos já nasceu?

Não, isso é loucura. Isso não faz sentido. Posso manter uma pessoa em coma com suporte de vida por muitos e muitos anos, até os 120, 130, 140 anos. Mas estamos falando de expectativa de vida saudável. Atualmente, a expectativa de vida saudável está na casa dos 60 anos, enquanto a expectativa de vida por si está na casa dos 80. Vamos aumentar a expectativa de vida saudável. Viver mil anos? Isso não vai acontecer. É simplesmente impossível, não está na natureza. Não é biológico. É desafiar tudo o que sabemos sobre a biologia de um ser humano ou de qualquer outra espécie.

Por Mônica Manir

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  • Gildo Ribeiro

    Gildo Ribeiro é editor do Grupo 7 de Comunicação, liderado pelo Portal 7 Minutos, uma plataforma de notícias online.

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