Notícias : Política» Notícias

Conteúdo Luiz Cláudio Cavalcante

Não será preciso um golpe para sequestrar a eleição

O risco que ronda a eleição brasileira não precisa vestir farda nem subir em tanque para se impor

Ele pode chegar por meios mais discretos, mais sofisticados e talvez mais eficazes:

  • pressão econômica,
  • intimidação política,
  • blindagem institucional no exterior,
  • articulação internacional da extrema direita e
  • guerra digital.

Em um país polarizado e diante de uma disputa apertada, isso pode ser suficiente para empurrar o resultado.

Ainda existe no Brasil uma confiança um pouco ingênua na ideia de que a democracia só corre perigo quando o ataque vem com estardalhaço.

Como se a violência política precisasse entrar em cena de coturno, escoltada por símbolos fáceis de reconhecer.

Não é assim.

Já faz tempo que o mundo mostra outra coisa.

A degradação institucional pode avançar sem a encenação clássica da ruptura, sem barulho suficiente para interromper o sono de quem prefere não ver.

Por isso me parece estreita essa leitura que reduz o problema brasileiro ao medo de um golpe na sua forma mais bruta.

Há outro tipo de cerco, menos vistoso, mais sinuoso, perfeitamente adaptado ao tempo presente.

Ele passa por pressão externa, intimidação econômica, fabricação de narrativas úteis, contaminação do ambiente público.

Não precisa derrubar a porta.

Às vezes basta mexer na estrutura, desorientar a conversa e deixar metade do país discutindo a fumaça errada.

O poder estrangeiro que paira sobre esse debate também mudou de figura.

Ou, pelo menos, perdeu parte dos constrangimentos que antes o continham.

Parece mais duro, mais desembaraçado, mais inclinado a testar o limite das instituições que deveria respeitar.

Quando o sistema político vai sendo esvaziado por dentro, quando o Judiciário vira alvo recorrente de deslegitimação, quando a autonomia federativa começa a ser tratada como obstáculo, o problema deixa de ser apenas o estilo de um governo.

O que aparece é outra ambição.

Também não há motivo para espanto tardio.

O discurso já vinha carregado de traços autoritários, de obsessão identitária, de exclusão recoberta pela fantasia de pureza nacional.

Havia ali uma ideia de pertencimento legítimo e, junto dela, uma fila de tudo aquilo que deveria ser mantido do lado de fora.

Esse tipo de linguagem não entra em circulação só para animar campanha.

  • Ela prepara o terreno.
  • Endurece o ouvido.
  • Faz a brutalidade soar aceitável.

O ponto mais desconfortável talvez seja este: a erosão democrática não depende, necessariamente, do colapso total da aparência democrática.

Um país pode manter eleição, rito, tribunal, solenidade, e ainda assim ir apodrecendo aos poucos.

  • A casca aguenta por algum tempo.
  • O interior cede antes.

Isso costuma confundir muita gente, porque a vida institucional não desaba de uma vez.

  • Vai perdendo consistência.
  • Quando se percebe, já perdeu bastante.

Já não faz sentido olhar para a extrema direita como coleção de surtos nacionais

  • . Ela circula.

Exporta linguagem, importa técnica, testa tecnologia, compartilha repertório, cria alianças funcionais.

  • É uma rede.
  • E isso muda o problema de escala.
  • Muda a velocidade do aprendizado.
  • Muda até a coragem com que certos atores se movem.

A direita radical brasileira não observa esse processo à distância.

  • Está inserida nele.
  • Aprende, adapta, troca sinais, busca legitimação nesse circuito mais amplo.

Enquanto isso, o campo democrático segue reagindo com atraso, preso muitas vezes a uma linguagem protocolar, como se ainda bastasse nomear o absurdo para neutralizá-lo.

  • Não basta.
  • Em geral, nunca bastou.

O Brasil entra nesse mapa de interesses de um modo particular.

Não parece o tipo de país sobre o qual recai, de saída, uma intervenção ostensiva, humilhante, dessas que se anunciam sem pudor.

É justamente aí que a pressão tende a se sofisticar.

Em democracias que ainda conservam algum lastro institucional, o movimento costuma vir por outras portas.

Fala a língua da segurança, do comércio, da estabilidade, da cooperação.

Parece técnico.

E às vezes é nisso que reside sua eficácia.

Quando essa pressão ganha forma concreta, ela se aproxima rápido da vida política.

Pode aparecer como constrangimento financeiro, sanção bancária, crise comercial induzida, associação maliciosa entre o campo democrático e o crime organizado, ou operação digital desenhada para turvar o debate e corroer confiança pública.

Nada disso precisa produzir um terremoto para dar resultado.

Num ambiente já saturado por medo, raiva e fadiga, um deslocamento calculado pode pesar muito.

A dimensão digital torna tudo pior.

Não apenas pela circulação massiva de mentira, embora isso já fosse suficiente para alarmar qualquer democracia minimamente lúcida.

O problema é mais fundo.

Trata-se da capacidade de enquadrar a realidade antes mesmo que a discussão comece.

Quando plataformas, redes de influência e interesses políticos passam a se reforçar mutuamente, não está em jogo só o boato em si.

Está em jogo a fabricação do clima em que as pessoas vão interpretar o mundo.

Há ainda o trabalho interno de corrosão.

Setores da direita radical brasileira insistem há tempos em vender a imagem de um país deformado institucionalmente, como se aqui já não existissem rito, legalidade, processo, responsabilização.

Essa caricatura cumpre função política.

Não serve apenas para mobilizar a própria base.

Serve para preparar o terreno de pressões externas que, em circunstâncias normais, seriam tratadas como ingerência inaceitável.

O debate sobre soberania deixou de ser uma solenidade oca, ou não deveria continuar sendo.

O problema é que boa parte do campo democrático ainda fala do tema de um jeito pouco respirável.

O eleitor comum ouve e não consegue ligar aquilo à própria vida.

Não vê salário, energia, preço, trabalho, território, futuro.

Sem essa tradução, a palavra fica de pé, mas perde o corpo.

Só que o mundo real não trabalha com esse luxo.

Recursos estratégicos, energia, infraestrutura crítica, capacidade tecnológica, posição internacional do país, tudo isso entra no cálculo quando grandes potências decidem pressionar e medir vantagem

. Não se trata só de ideologia.

Há interesse material, e ele é bem menos abstrato do que boa parte do debate brasileiro gosta de admitir.

A reta final do governo, nesse quadro, fica espremida.

Há a eleição, claro.

Mas há também uma disputa maior, menos visível e mais áspera, correndo por baixo da superfície.

Preservar a legitimidade do sistema eleitoral é indispensável.

Manter o reconhecimento externo do país também.

Ainda assim, isso resolve só uma parte do problema.

O restante exige negociação dura, linguagem política clara e alguma capacidade de defesa do interesse nacional sem pose ornamental.

Não me parece que o Brasil esteja na antessala de uma ruptura caricata.

Digo isso sem tranquilidade nenhuma.

O perigo, muitas vezes, não está no que explode à vista de todos.

Está no que infiltra, desgasta, desloca, corrói margem de reação.

O país pode atravessar a próxima eleição sem o espetáculo do golpe e, ainda assim, sair dela mais frágil. Isso não deveria soar exagerado.

Deveria soar apenas sério.

E há um detalhe que pesa no fim.

Projetos autoritários aprendem.

Quando fracassam, nem sempre desaparecem.

Às vezes recuam, observam melhor, corrigem método, ajustam linguagem, escolhem com mais cuidado as brechas.

O retorno pode ser menos impulsivo, menos ruidoso, menos tosco.

Talvez seja isso que torna tudo mais delicado agora.

O risco não está só na repetição do passado.

Está no passado voltando com alguma experiência acumulada.

Por: Luiz Cláudio Cavalcante
Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Portal 7Minutos

Link original da matéria:
ARENA de NOTÍCIAS

 

Junte-se aos grupos de WhatsApp do Portal 7MINUTOS e fique por dentro das principais notícias de ANÁPOLIS, do BRASIL e do MUNDO siga aqui.

 

Siga o ‘ 7Minutos’ nas redes sociais

X (ex-Twitter)
Instagram
Facebook
Truth Social 

  • Fonte da informação:
  • Leia na fonte original da informação
  • Gildo Ribeiro

    Gildo Ribeiro é editor do Grupo 7 de Comunicação, liderado pelo Portal 7 Minutos, uma plataforma de notícias online.

    Artigos relacionados

    Verifique também
    Fechar
    Botão Voltar ao topo