Crítica de cinema – Edson Nunes
O CHORO DOS ANJOS
Às vezes, escrever sobre um filme é uma tarefa dantesca. Sobretudo quando existe amizade entre o crítico e o cineasta.
A análise deixa de ser apenas técnica para adentrar um território mais delicado, onde honestidade e afeto precisam coexistir sem que um anule o outro.
Em “O Choro dos Anjos”, recém-saído do forno (e com pré-estreia exibida ontem no Cine Sibasolly, em Anápolis), o diretor Absair Weston entrega uma ficção inspirada em fatos reais que expõe duas faces bastante evidentes de seu cinema: a de um realizador experiente no universo dos curtas-metragens independentes, disposto a arriscar quando a estética exige ousadia, e a de um diretor que ainda enfrenta limitações técnicas muitas vezes impostas pelos próprios desafios de se produzir cinema fora dos grandes centros, especialmente em Anápolis.
Há em “O Choro dos Anjos” uma inquietação que atravessa toda a narrativa.
Weston parece menos interessado em oferecer um filme tecnicamente polido e mais preocupado em provocar sensações, desconfortos e silêncios, embora tenha uma fotografia sensível e muito bem realizada
Em muitos momentos, isso funciona de maneira potente.
Em outros, a precariedade da produção acaba se impondo sobre a experiência estética.
Ainda assim, talvez seja justamente nesse choque entre ambição artística e limitação estrutural que o filme encontre sua identidade mais sincera.
Porque, no fundo, é assim que o cinema ainda sobrevive não apenas em Anápolis, mas Brasil adentro: experimente, erre, acerte, caia, levante, mas não deixe de fazer.
“O Choro dos Anjos” está longe de ser um filme ruim.
O que ele tem de melhor?
Incomodar justamente porque toca numa ferida social raramente observada com humanidade pelo audiovisual local:
- o apagamento de uma classe desprivilegiada e o silenciamento que a acompanha.
O filme cresce especialmente em seus minutos finais, quando encontra uma estética mais segura, quase hipnótica, capaz de tirar o fôlego em determinados enquadramentos e atmosferas, e ainda com efeitos especiais tensos e belos.
Weston sempre demonstra coragem ao apostar em elencos híbridos, mesclando atores experientes com pessoas comuns que enxergam no cinema a possibilidade de iniciarem uma trajetória artística.
É uma prática arriscada, sobretudo para produções independentes, mas que confere autenticidade, frescor e um caráter profundamente inclusivo às suas obras.
O diretor parece não ter medo desse risco e talvez aí resida um de seus maiores méritos.
Ao mesmo tempo em que abre espaço para a formação e descoberta de novos talentos, também se permite (e é permitido) a liberdade de dirigir atores já consolidados, como Liomar Veloso e Alex Amaral, criando um contraste interessante entre espontaneidade e experiência em cena.
Liomar Veloso praticamente carrega o filme nas costas ao dar vida a um palhaço negro, pobre e envelhecido, demitido de um pequeno circo e lançado numa busca incessante por trabalho e dignidade.
Sua interpretação sustenta boa parte da carga emocional do curta, transitando entre a contenção e o desespero silencioso.
Nos minutos finais, porém, Liomar mergulha numa composição mais teatralizada, escolha que poderia soar excessiva em outro contexto, mas que aqui encontra coerência estética dentro da proposta do filme.
E isso está longe de ser um defeito.
Grandes cineastas da história do cinema recorreram à teatralidade como recurso de intensificação dramática.
Em “O Choro dos Anjos”, esse exagero (não sei se calculado) funciona mais como efeito do que como falha.
Um destaque especial também merece a atuação de Gildo Ribeiro, ainda novato no cinema embora já tenha participado de outras produções do mesmo diretor.
Gildo entrega uma mise-en-scène surpreendente.
Sem pronunciar uma única palavra, aparecendo por poucos minutos já na reta final do curta, consegue deixar uma marca difícil de apagar da memória do espectador.
Há atores que passam um filme inteiro tentando serem notados.
Gildo surge quase em silêncio e domina a cena.
É evidente que recebeu do diretor um verdadeiro presente dramatúrgico, mas também é evidente que soube honrá-lo com presença, expressão e humanidade.
Talvez por isso seu personagem se torne uma das figuras mais emblemáticas do curta, especialmente pela sua idade (um setentão) que e pelo simbolismo silencioso que representa dentro da narrativa.
É impossível assistir à obra sem considerar o contexto em que ela foi produzida, mesmo que amparada pela Lei Aldir Blanc do estado de Goiás, com recursos modestos.
Fazer cinema fora dos grandes centros brasileiros ainda é, em muitos aspectos, um ato de resistência.
Em Anápolis,
onde faltam recursos, políticas culturais permanentes e até mão de obra técnica especializada,
cada curta independente carrega consigo uma batalha invisível que o público raramente percebe na tela.
E talvez uma das maiores virtudes do filme de Weston seja justamente essa: transformar precariedade em insistência artística.
Por – Edson Nunes
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— 7Minutos Notícias (@7minutos_news) December 15, 2025
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