CONTEÚDO RODRIGO MAGALHÃES
Antes do Último Instante
Hoje, enquanto enfrentava mais um daqueles engarrafamentos que parecem consumir silenciosamente pedaços da nossa existência, meu pensamento fugiu do volante
Entre buzinas, semáforos e a lenta procissão de carros, lembrei-me de um filme que havia assistido há algum tempo:
A Chegada.
É curioso como certas obras permanecem adormecidas dentro de nós. Não voltam porque queremos. Voltam porque alguma circunstância cotidiana as desperta. E, naquele instante banal, preso entre o tempo do relógio e o tempo da vida, percebi que talvez eu nunca tivesse realmente entendido aquele filme.
À primeira vista, A Chegada (Arrival, 2016), dirigido por Denis Villeneuve e baseado no conto Story of Your Life, de Ted Chiang, parece apenas uma sofisticada ficção científica sobre a chegada de naves alienígenas à Terra. Linguistas são convocados para estabelecer comunicação com visitantes cuja linguagem desafia toda a lógica humana.
Mas, à medida que a história avança, o espectador descobre que a verdadeira questão nunca foi sobre extraterrestres.
Era sobre nós.
Sobre o tempo.
Sobre as escolhas.
Sobre aquilo que chamamos de destino.
E, sobretudo, sobre uma pergunta que talvez seja uma das mais desconcertantes que a filosofia já formulou:
Se você soubesse de tudo o que irá acontecer, ainda assim escolheria viver?
Talvez essa pergunta seja apenas uma nova roupagem para uma provocação muito mais antiga.
Friedrich Nietzsche imaginou um demônio que surgiria diante de você para anunciar uma sentença eterna: sua vida, exatamente como foi vivida, com cada humilhação, cada conquista, cada perda irreparável e cada instante de felicidade, teria de ser repetida infinitamente, sem qualquer possibilidade de alteração.
Nada poderia ser retirado.
Nada poderia ser acrescentado.
Você cairia em desespero?
Ou receberia essa notícia como uma bênção?
Poucas ideias são tão perturbadoras quanto o eterno retorno. Não porque nos condene ao sofrimento, mas porque elimina a ilusão que nos acompanha diariamente: a de que a felicidade está escondida em outra versão de nós mesmos, em outro caminho, em outra escolha que deixamos de fazer.
Vivemos alimentando fantasmas.
O que teria acontecido se…
Talvez nenhuma pergunta acompanhe tanto o ser humano quanto essa. Ela habita as madrugadas, os reencontros, as despedidas e os silêncios. É a pergunta das vidas que não vivemos, dos amores que não aconteceram, das profissões abandonadas, dos caminhos que ficaram para trás na primeira esquina importante da existência.
Álvaro de Campos, um dos heterônimos de Fernando Pessoa, capturou esse sentimento de maneira quase insuportavelmente bela no poema Na Noite Terrível. Ali, não é apenas a dor do passado que aparece, mas a consciência das inúmeras vidas possíveis que morreram antes mesmo de nascer. Há uma melancolia profunda ao perceber que cada escolha salva uma história, mas condena infinitas outras ao esquecimento. Somos feitos não apenas daquilo que vivemos, mas também daquilo que jamais viveremos.
Mas e se não existisse esse “se”?
E se a única vida possível fosse exatamente esta?
A Chegada parece traduzir essa hipótese em imagens. A protagonista atravessa o tempo não como uma linha reta, mas como um círculo. O futuro deixa de ser um território desconhecido para transformar-se numa lembrança antecipada. Ela sabe. Conhece o amor que encontrará. Conhece a perda que inevitavelmente virá. Conhece a dor que a aguardará com a precisão de um relógio.
Mesmo assim, escolhe.
Não porque ignore o sofrimento.
Mas porque compreende que apagar a dor significaria apagar também tudo aquilo que tornou o amor possível.
Essa talvez seja uma das maiores heresias contra a mentalidade contemporânea. Vivemos obcecados em eliminar qualquer forma de sofrimento. Buscamos anestesia para a alma, distrações para o vazio e respostas imediatas para perguntas que talvez nunca tenham sido feitas para serem respondidas.
Entretanto, Viktor Frankl, sobrevivente dos campos de concentração, escreveu que quem possui um “porquê” suporta quase qualquer “como”. Não porque o sofrimento deixe de doer, mas porque ele deixa de ser absurdo.
Ainda assim, permanece uma inquietação.
Será que existe realmente um propósito inscrito na existência?
Ou somos nós que escrevemos significado sobre um universo indiferente?
Albert Camus recusava respostas fáceis. Diante do absurdo, não propunha fuga nem resignação, mas uma revolta silenciosa. O homem consciente continua vivendo mesmo sabendo que nenhuma explicação definitiva o espera no final da estrada. Como Sísifo empurrando eternamente sua pedra, encontra justamente nesse gesto a sua liberdade.
Nietzsche iria além.
Não basta suportar a vida.
É preciso amá-la.
Amor Fati.
Amar o destino.
Não apenas as vitórias.
Também as cicatrizes.
Também as despedidas.
Também aquilo que jamais compreenderemos.
Há uma diferença profunda entre resignação e aceitação. A resignação curva a cabeça diante da fatalidade. A aceitação olha nos olhos do inevitável e responde: “Sim.”
Talvez seja esse o verdadeiro heroísmo humano.
Não vencer a morte.
Mas continuar escolhendo a vida.
Søren Kierkegaard dizia que viver é dar um salto. Não um salto sustentado por certezas, mas pela coragem de caminhar apesar delas. Afinal, ninguém atravessa a existência carregando garantias. Caminhamos sobre possibilidades, nunca sobre evidências.
E talvez seja justamente essa ignorância que torne possível a esperança.
Mas A Chegada inverte completamente essa lógica.
E se a esperança sobrevivesse mesmo depois do conhecimento?
E se você soubesse exatamente onde cada lágrima cairá?
Cada decepção.
Cada perda.
Cada funeral.
Cada despedida.
Você ainda pisaria no primeiro degrau?
Talvez essa seja a pergunta que realmente permanece quando os créditos sobem.
Não se trata de descobrir se existe destino, livre-arbítrio ou uma arquitetura invisível conduzindo nossas escolhas.
Talvez nunca saibamos.
A questão é outra.
Se amanhã alguém lhe revelasse toda a sua biografia, do primeiro choro ao último suspiro, você pediria para mudar alguma página?
Ou teria coragem suficiente para lê-la até o fim exatamente como ela foi escrita?
Porque, no fundo, talvez o sentido da vida nunca tenha estado em escapar da dor.
Talvez ele resida na estranha capacidade humana de transformar feridas em memória, memória em identidade e identidade em algo digno de ser vivido.
Há perguntas que existem apenas para impedir que adormeçamos.
Esta é uma delas.
Se você soubesse de cada queda que ainda o espera, de cada amor que um dia se transformará em saudade, de cada alegria que inevitavelmente terminará, você ainda escolheria levantar da cama amanhã?
Talvez a resposta nunca importe tanto quanto a coragem de continuar fazendo a pergunta. Afinal, é possível que a existência não seja um enigma destinado a ser resolvido, mas um mistério destinado a ser atravessado.
Talvez nunca descubramos se existe um destino escrito, uma ordem invisível conduzindo nossos passos ou se somos apenas viajantes improvisando sentido em um universo indiferente. Talvez essa nem seja a pergunta mais importante.
A verdadeira questão é outra.
Se você soubesse, desde o primeiro instante, de cada alegria que experimentaria, de cada amor que encontraria, de cada perda que o devastaria, de cada lágrima que inevitavelmente cairia… você ainda assim escolheria viver?
Porque talvez o maior ato de coragem não seja descobrir o futuro.
Talvez seja, mesmo sem poder mudá-lo, continuar dizendo “sim” à vida.
Um “sim” às vitórias e aos fracassos. Às chegadas e às despedidas. Aos encontros e às ausências. Um “sim” ao destino, não porque ele seja perfeito, mas porque é o único capaz de nos transformar naquilo que somos.
Talvez seja exatamente isso que Nietzsche quis dizer com Amor Fati: não desejar uma vida diferente, mas amar profundamente aquela que nos foi dada.
E talvez seja justamente isso que A Chegada tenta nos dizer em silêncio: a vida não vale porque desconhecemos o seu fim. Ela vale porque, mesmo conhecendo a dor que nos espera, ainda encontramos razões para percorrê-la até o último instante.
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Por: Rodrigo Schirmer Magalhães
Cientista político e Analista de Politica
O Portal 7Minutos deseja a todos um bom dia pic.twitter.com/76cDh70cEI
— 7Minutos Notícias (@7minutos_news) December 15, 2025
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