Na minha adolescência por algumas vezes tomei café da manhã servido por Henrique Santillo. Eu o conheci aos 14 anos de idade quando trabalhava no jornal O Popular.
Sempre que eu o encontrava no portão de sua casa para a entrega das primeiras notícias matinais, antes do sol brotar, ele me conduzia com um fino trato até a sua cozinha.
Falante compulsivo, doutor Henrique discutia política não apenas do alto dos palanques ou das tribunas, mas em todo e qualquer lugar que encontrasse gente disposta a ouvi-lo: pobres e ricos; brancos e negros, jovens e idosos e, até, meninos!
Eram tempos do Regime Militar no Brasil (1964-1985), ou da chamada “ditadura dos generais” com os seus temidos AIs – Atos Institucionais, que tudo podiam.
E numa dessas esperadas coincidências para o café, o então deputado estadual (1975-1979), que foi vereador (1965-1969); prefeito (1969-1972), e que se tornaria senador da República (1979-1987); governador de Goiás (1987-1991); ministro de Estado da Saúde (1993-1995); secretário de Saúde de Goiás (1999); conselheiro do Tribunal de Contas do Estado (1999-2002) e presidente do TCE-GO (2002), me disse, com a sua marcante naturalidade, como se tudo eu entendesse:
“Vandinho, assim como até médico se cansa de uma doença prolongada, certo é, também, que o povo vai se fadigar desses que querem se perpetuar no poder”.
O homem que representou Anápolis; o seu Estado e o Brasil com austeridade nas mais altas cúpulas do poder, que desembarcou nesta cidade ainda pirralho vindo de Ribeirão Preto (SP) acompanhado dos pais e dos irmãos Romualdo e Adhemar Santillo, e que nunca mais das “Antas” se ausentou, sabia como ninguém o que estava me falando, pois era médico, dos bons, e político como poucos deste país.
Já, eu, na inocência da meninice, por mais que prestasse atenção e quisesse entender, nada, ou pouca coisa de sua fala naquele dia compreendi.
Mas, numa prova de que o tempo é o senhor da razão, passadas mais de três décadas e meia daquela citação, quando agora testemunho o despertar de um novo fenômeno político que se verifica por todo o país, entendo, e muito bem, o que ele, talvez, estaria profetizando.
De onde e como doutor Henrique, o mais anapolino de todos os que vieram de fora e aqui de vez se aportaram, se inspirou para a sua fala profética, eu não sei! – Vander Lúcio Barbosa, 2015)
(Henrique Antônio Santillo -Ribeirão Preto, 23 de agosto de 1937 + Anápolis, 25 de junho de 2002)
By Vander Lúcio Barbosa

Henrique Santillo foi também “médico humanitário, amigo sincero e homem público da mais alta estirpe”. Reprodução



