Estadão Saúde
Como os idosos estão prolongando — e incrementando — sua vida sexual
Manter a mente aberta e entender os limites do corpo são alguns dos segredos da chamada longevidade sexual
Durante a maior parte dos seus oito anos de relacionamento, Joan Price e seu namorado, Mac Marshall, marcaram encontros sexuais semanais.
O casal — que não mora junto — se reveza na organização do encontro, caprichando nos preparativos.
Eles trazem alguns brinquedos sexuais ou lubrificantes (com ou sem sabor) para experimentar.
E se revezam no banho Marshall vai primeiro e depois espera Joan tocar uma campainha de metal para sinalizar que está pronta para ele.
Ela brinca dizendo que ele fica “como o cachorro de Pavlov”, salivando ao som do sinal.
Aos 82 anos, o casal tem o sexo mais “íntimo”, “dinâmico” e “divertido” que Joan já experimentou, conta ela.
Assim como os especialistas em longevidade se preocupam com a “expectativa de vida saudável“, ou seja, o número de anos que uma pessoa pode permanecer verdadeiramente saudável, alguns médicos e terapeutas sexuais têm estudado a “expectativa de vida sexual”, ou seja, por quanto tempo uma pessoa pode ter uma vida sexual plena.
É uma preocupação oportuna, visto que os primeiros baby boomers completarão 80 anos em 2026.
Nossa sexualidade é muito importante para nós,
diz Joan, educadora sexual especializada em adultos mais velhos e autora de Naked at Our Age (Nus na nossa idade).
Dizer que sexo é só para corpos jovens e sarados?
É ofensivo.
É degradante.
Como o sexo evolui com o tempo
O mito de que a vida sexual de uma pessoa diminui com a idade é muito difundido.
A narrativa que temos sobre os adultos mais velhos não terem relações sexuais é, na verdade, etarismo,
afirma Rosara Torrisi, assistente social e fundadora do Instituto de Terapia Sexual de Long Island.
Muitas pessoas começam a desfrutar muito mais da sua sexualidade na idade adulta,
acrescenta.
Existe essa ideia de que elas dizem:
Quer saber? Não vou ficar esperando. Vou dizer o que quero.
Uma das maiores pesquisas sobre a atividade sexual de adultos mais velhos nos Estados Unidos descobriu que mais da metade dos idosos de 65 a 74 anos e mais de um quarto daqueles de 75 a 85 anos relataram ser sexualmente ativos.
O estudo constatou, no entanto, que cerca de metade dos sexualmente ativos apresentava pelo menos um problema sexual incômodo, como baixo desejo sexual, dificuldade de lubrificação vaginal ou disfunção erétil e incapacidade de atingir o orgasmo.
Outras pesquisas descobriram que as pessoas fazem menos sexo à medida que envelhecem, em parte devido ao declínio da saúde física ou à morte do parceiro.
A boa notícia, segundo especialistas, é que hoje existem mais intervenções disponíveis.
Os médicos podem recomendar medicamentos ou dispositivos para ajudar a controlar a disfunção erétil, ou prescrever hormônios para ajudar a reduzir a dor ou o ressecamento vaginal durante o sexo.
Mudanças no estilo de vida também podem ajudar, como controlar o estresse, dormir o suficiente e praticar exercícios físicos (sim, você pode treinar para o sexo).
Quando atendo pacientes, converso com elas sobre como a função sexual é um fenômeno que envolve a relação entre mente e corpo,
diz Stacy Lindau, professora de ginecologia e obstetrícia da Universidade de Chicago e diretora do Programa de Medicina Sexual Integrativa.
Ela começa com perguntas como:
- Como está sua saúde física e seu humor — e a saúde física e o humor do seu parceiro(a)?
- Quais medicamentos você está tomando que podem afetar sua libido?
- E quanto ao seu relacionamento?
Stacy, uma das autoras da pesquisa sobre atividade sexual, incentiva as pessoas mais velhas a relatarem quaisquer preocupações sexuais aos seus profissionais de saúde, “porque, em quase todos os casos”, diz ela, “ainda não é tarde demais”.
Marshall, professor de antropologia aposentado, lamenta que muitas vezes a imagem pública do envelhecimento seja a de que somos todos decrépitos e simplesmente ficamos sentados esperando a morte.
Isso está muito longe da minha realidade agora.
Ser flexível — e perdoar
Terapeutas sexuais costumam dizer que um sexo satisfatório não deve ser definido pela frequência ou pelo fato de terminar em orgasmo. Essa é uma mensagem especialmente importante para adultos mais velhos assimilarem, afirmam eles.
Quando se tem 80 anos e artrite, a ideia de pular um em cima do outro nem sempre é viável,
diz Kate Thomas, diretora de serviços clínicos da Clínica de Sexo e Gênero da Escola de Medicina Johns Hopkins.
São os casais que estão dispostos a se adaptar a essas mudanças e ainda assim tornar a relação sexual divertida que conseguem ter um bom relacionamento sexual, acrescenta.
Kate passa muito tempo conversando com casais mais velhos sobre como ter “sexo sem ereção”, conta.
Pode ser preciso convencê-los, e alguns de seus pacientes sentem uma tristeza real por perderem essa opção.
Mas, no fim das contas, ela descobre que muitos deles ficam satisfeitos ao mudar o foco para atividades como masturbação (com parceiro ou sozinho), uso de brinquedos sexuais e lubrificante, sexo oral ou outras formas de contato sensual, como beijos ou massagens.
Sue, de 80 anos, que pediu para ser identificada apenas pelo primeiro nome para proteger sua privacidade, já fez cirurgia de substituição de articulação nos dois joelhos e nos ombros, mas isso não a impediu de ter relações sexuais consistentemente “inacreditáveis” com seu namorado de três décadas.
Grande parte disso se resume à disposição deles em se comunicar durante o sexo, sobre o que está funcionando, que tipo de toque desejam, onde poderiam colocar uma almofada para um pouco de apoio extra.
Enfermeira de UTI aposentada, Sue sabe que é importante que os idosos estejam cientes de seus limites físicos e se certifiquem de que têm autorização médica para fazer sexo, mas ela se recusa a desistir de sentir prazer.
Meu corpo é uma droga, afirma Sue.
Mas mesmo com as dores nas costas, nos joelhos e nos ombros, ainda consigo ter uma vida sexual incrível.
‘Por que não aprendi isso há 50 anos?’
Talvez o maior superpoder das pessoas com longevidade sexual seja a disposição para expandir seu repertório sexual — e para abandonar quaisquer definições rígidas sobre o que o sexo deve ser.
Lori Brotto, psicóloga e professora da Universidade da Colúmbia Britânica, afirma que os idosos têm liberdade para definir o que significa sexualidade saudável, independentemente de como experimentam prazer
. Sexo excelente, por exemplo, pode ser o de uma viúva de 70 e poucos anos usando um brinquedo sexual sozinha.
Não há limite de idade para a capacidade de aprender e descobrir,
afirma Lori.
Já vi mulheres chorando no meu consultório e dizendo:
Meu Deus, por que não aprendi isso há 50 anos?, acrescenta.
Para Joan e Marshall, pensar além do sexo com penetração tem sido fundamental, especialmente porque a vida lhes apresentou desafios.
Em abril passado, o casal sofreu um grave acidente de carro. Joan fraturou o pescoço em três lugares e sua recuperação tem sido lenta e excruciante.
Sem relação com o acidente, Marshall aguarda uma cirurgia de substituição da articulação do quadril.
Quando chega o dia do encontro sexual semanal, eles perguntam: “Hoje ainda está tudo bem para você?“.
Eles são compreensivos um com o outro quando, no calor do momento, seus corpos às vezes não cooperam.
Eu digo: ok, já chega para o meu pescoço,
conta Joan,
ou ok, vou tentar ficar em pé e você tenta deitar.
Fazemos isso com bom humor, não com um sentimento de desespero.
Descobrimos que outras formas de nos dar prazer mutuamente são muito melhores , e muito mais fáceis para os diversos problemas de saúde que enfrentamos,
reitera Marshall.
Joanie inventou uma nova expressão: O que dói e o que funciona hoje?’
Este texto foi traduzido com o auxílio de ferramentas de Inteligência Artificial e revisado por nossa equipe editorial.
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