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A Queda é Cenário,

O Poder é Estrutura. Da Venezuela ao mundo multipolar: como regimes caem e impérios permanecem

A pergunta “Trump vai parar?” já nasce equivocada porque pressupõe impulso onde existe método.

Potências não reagem: planejam.

Não improvisam: executam ciclos históricos já testados.

A eventual prisão ou queda de Nicolás Maduro  tratada aqui como cenário funcional, não como evento isolado  não inaugura uma nova era moral na política internacional.

Apenas aciona mais um capítulo de um manual antigo, repetido com variações desde a Guerra Fria.

O erro central do debate público é personalizar demais o poder.

Ditaduras não se sustentam por homens, mas por estruturas.

Derrubar o rosto do regime sem desmontar o sistema que o sustenta é, muitas vezes, apenas trocar o gerente mantendo o mesmo negócio.

Maduro não governava sozinho: milícias, narcotráfico e poder difuso

Maduro não se manteve no poder apenas por apoio popular (quase não tinha), ideologia ou aparato estatal formal.

Seu governo se sustentou por uma teia híbrida:

Forças Armadas fragmentadas, serviços de inteligência, apoio externo e, sobretudo, milícias armadas ligadas ao narcotráfico, à mineração ilegal e a economias paralelas.

O poder não estava concentrado apenas no Palácio de Miraflores, mas distribuído em redes armadas que operavam como garantidoras da ordem do regime.

Esse modelo não é novo.

Ele segue a lógica do que Charles Tilly definiu como “war-making and state-making as organized crime”: o Estado passa a operar como gestor de mercados ilícitos, distribuindo proteção, permissões e violência seletiva.

O narcotráfico não é um desvio do regime  é parte funcional da engrenagem que sustenta o controle territorial e político.

Quando esse tipo de sistema se consolida, o poder deixa de ser vertical e passa a ser reticular.

Derrubar o vértice não dissolve a rede.

Pelo contrário: pode fragmentá-la em múltiplos centros armados, mais instáveis e menos controláveis.

  • O Afeganistão ensinou isso.
  • A Líbia confirmou.
  • O Iraque institucionalizou.

Por isso, a queda do “rosto” do regime venezuelano, se não vier acompanhada da destruição ou captura da estrutura econômica, armada e criminal que o sustenta, pode produzir instabilidade crônica, não libertação.

Troca-se o símbolo, preserva-se o mecanismo.

A estratégia americana:

  • antiga,
  • testada e
  • cíclica

Nada disso é improviso.

A estratégia americana de intervenção indireta, seletiva e moralmente justificada é histórica.

O método antecede governos, partidos e discursos.

No Irã, em 1953, derrubou-se Mossadegh sob o discurso de estabilidade; o objetivo real era o controle do petróleo.

Na Guatemala, em 1954, a retórica era anticomunista; o interesse era econômico.

Em El Salvador, Honduras e Nicarágua, o combate ao “autoritarismo” e à “ameaça vermelha” serviu para moldar zonas de influência.

No Iraque, o pretexto foram armas inexistentes; o resultado foi a reorganização energética e militar do Oriente Médio.

Na Líbia, retirou-se Kadhafi sem desmontar o Estado, e o país virou um mosaico de milícias.

Na Síria, a fragmentação foi deliberadamente mantida.

No Afeganistão, derrubou-se o regime, mas preservou-se a lógica estrutural do conflito.

O padrão se repete com precisão cirúrgica: constrói-se um vilão moral, isola-se diplomaticamente, ataca-se o rosto do regime, reorganiza-se a economia e a política conforme interesses estratégicos e, ao final, o discurso sobre soberania retorna  seletivamente  quando o objetivo já foi alcançado.

Como ensinou Zbigniew Brzezinski, o essencial não é ocupar territórios, mas controlar os pontos de articulação do sistema.

Recursos, não retórica: o centro do tabuleiro

A Venezuela é estratégica não por sua ideologia, mas por sua matéria-prima.

Petróleo, ouro, prata e terras raras do Arco do Orinoco a colocam no centro da disputa global por energia e minerais críticos.

Controlar ou neutralizar esse polo significa reorganizar o mercado energético internacional, reduzir a influência russa, enfraquecer a projeção chinesa no hemisfério e isolar o Irã.

Petróleo é poder porque estrutura alianças, define inflação global e sustenta regimes.

Ao ampliar a oferta e controlar fluxos, os Estados Unidos não apenas barateiam energia: desmontam dependências geopolíticas rivais e reconfiguram o equilíbrio de forças.

A soberania, nesse contexto, é tolerada enquanto não atrapalha. Quando atrapalha, transforma-se em obstáculo técnico a ser removido.

Soberania e direito internacional: instrumentos, não princípios

O discurso sobre soberania e direito internacional funciona, na prática, como retórica seletiva.

Não é universal, nem neutro.

É invocado quando protege interesses e descartado quando os ameaça.

Como já observava E.H. Carr, a moral internacional quase sempre reflete a moral dos vencedores.

O direito internacional pune seletivamente os fracos porque não dispõe de meios reais de coerção contra os fortes.

Quem controla moeda, crédito, energia e força militar não responde ao sistema — é o próprio sistema.

O discurso moral  democracia, direitos humanos, combate ao narcotráfico  cumpre uma função psicológica e sociológica central: legitimar a ação perante as massas, internas e externas.

Ele não existe para proteger povos, mas para proteger narrativas.

Ao transformar interesses estratégicos em causas morais, o poder neutraliza resistências, simplifica o debate público e desloca a análise do campo estrutural para o emocional.

A história dos impérios revela esse mecanismo com clareza desconcertante. Roma falava em civilizar.

A Inglaterra falava em progresso.

Os Estados Unidos falam em liberdade.

Muda o rótulo, o discurso se atualiza, mas o negócio permanece o mesmo: controle de territórios, recursos, rotas e populações sob a estética da virtude.

Essa lógica não é desvio do sistema internacional é seu funcionamento normal.

O moralismo não limita o poder; ele o viabiliza.

A moral legitima narrativas. A força decide resultados.

Colômbia, Cuba e o efeito dominó regional

O próximo movimento lógico é a Colômbia.

A eventual queda ou derrota política de Gustavo Petro não seria fenômeno isolado, mas parte de um realinhamento continental mais amplo.

Sem a Venezuela, Cuba perde sustentação econômica e energética.

O regime cubano torna-se estruturalmente inviável.

Não se trata de libertação. Trata-se de asfixia sistêmica.

México, Taiwan e Europa: a aceleração do mundo multipolar

A mesma lógica se aplica ao México.

O discurso do combate aos cartéis justifica pressão política e militar; o interesse real envolve prata, cadeias produtivas, segurança continental e controle estratégico.

A retórica do crime funciona como licença operacional.

Esse movimento acelera reações em cadeia.

A China percebe que a janela para Taiwan não é infinita.

A Rússia entende que sua influência energética na Europa está sob ataque estrutural.

O mundo entra numa fase de multipolaridade explícita, com zonas de influência delimitadas e menos hipocrisia liberal.

Como diria Carl Schmitt, soberano é quem decide quando a regra não vale  e o mundo vive um estado de exceção prolongado.

Brasil: dividido, dependente e funcional

O Brasil não é alvo por ideologia, mas por escala estratégica.

Amazônia, água, biodiversidade, pré-sal, nióbio, terras raras e agronegócio fazem do país um ativo geopolítico de primeira grandeza.

Grande demais para invasão direta, é mantido fragmentado, financeiramente dependente e politicamente confuso.

A invasão moderna não usa tanques.

Usa lawfare, sistema financeiro, mídia, algoritmos, ONGs e financiamento seletivo.

Quando se percebe, a soberania já foi — sem disparos.

Não há redenção, apenas disputa

Condenar Maduro é correto.

Acreditar que sua queda ocorre por virtude é ingenuidade.

Dois males coexistem: um regime autoritário e uma intervenção interessada.

A história não é feita por ideias, mas por homens armados de meios de ação. Ideais pacificam consciências; estruturas movem o mundo.

Quando o rosto cai e a engrenagem permanece, a opressão apenas muda de linguagem.

O caso venezuelano não fala sobre democracia.
Fala sobre controle, recursos e poder.

O resto é diplomacia estética  para manter a aparência de civilização num sistema que nunca deixou de ser regido pela força.

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Por: Rodrigo Schirmer Magalhães
Cientista político e Analista de Politica

 

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  • Gildo Ribeiro

    Gildo Ribeiro é editor do Grupo 7 de Comunicação, liderado pelo Portal 7 Minutos, uma plataforma de notícias online.

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