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DEPRESSÃO SEM TABUS:

O SILÊNCIO QUE ESTÁ ADOECENDO O BRASIL

Há dores que sangram por dentro. E talvez essa seja uma das maiores tragédias do nosso tempo

Enquanto muita gente chama de “frescura”, “fraqueza” ou “falta de fé”, milhões de brasileiros travam uma guerra invisível todos os dias — e muitos ainda perdem essa batalha sozinhos

 

Por Ana Claudia de Laet Segantine
Especial para o Portal 7Minutos

Há dores que sangram por dentro.

E talvez essa seja uma das maiores tragédias do nosso tempo: a sociedade aprendeu a respeitar a dor que aparece no exame, no raio-X, no curativo, na cicatriz visível.

Mas ainda insiste em ridicularizar, minimizar ou até negar a dor que corrói a mente, destrói o sono, rouba a energia, desmonta a autoestima e esvazia o sentido da vida.

Estamos falando da depressão.

E não: não é drama, não é preguiça, não é “fase”, não é falta do que fazer, não é fraqueza emocional e muito menos ausência de fé.

A depressão é uma doença real, grave, incapacitante e potencialmente fatal. E o mais revoltante é que, mesmo atingindo milhões de pessoas, ainda continua cercada por silêncio, preconceito e ignorância.

É justamente esse silêncio que precisa acabar.

O que muita gente ainda não entendeu: depressão mata

A depressão é um dos transtornos mentais mais prevalentes do mundo e está entre as principais causas de incapacidade ao longo da vida.

No Brasil, o próprio Ministério da Saúde informa que a prevalência ao longo da vida gira em torno de 15,5%, e a condição é fortemente associada ao risco de suicídio.

A OPAS/OMS também destaca que a depressão interfere profundamente na capacidade de trabalhar, estudar, dormir, se relacionar e até continuar vivendo com dignidade.

Ou seja: não estamos falando de algo raro. Estamos falando de um problema de saúde pública.

  • Estamos falando de mães que cuidam da casa sorrindo por fora e desabando por dentro.
  • De pais que continuam trabalhando no automático enquanto perdem a vontade de existir.
  • De jovens que seguem postando fotos, fazendo piadas e dizendo “tá tudo bem”, quando por dentro estão afundando em silêncio.

A depressão não tem uma cara só.

  • Ela não anda com crachá.
  • Ela não pede licença.

E é justamente por isso que tanta gente demora a perceber o tamanho do problema   inclusive quem está sofrendo.

A doença que muitos fingem não ver

A depressão ainda é tratada, em muitos lares, como um defeito de caráter.

Frases como:

  • “Você tem tudo e ainda está assim?”
  • “Isso é falta de Deus.”
  • “Sai dessa.”
  • “Vai trabalhar que passa.”
  • “Você precisa reagir.”

…não ajudam. Machucam.

Porque quem está deprimido, na maioria das vezes, já está lutando no limite da própria força. E ainda precisa carregar o peso da culpa, da vergonha e do julgamento.

  • É cruel.
  • É injusto.
  • E, em muitos casos, é perigoso.

A verdade que precisa ser dita sem rodeios é esta: a depressão não é uma escolha.

Ninguém escolhe perder o prazer pela vida.

Ninguém escolhe acordar cansado da própria existência. Ninguém escolhe sentir que virou um peso para quem ama.

Mas milhões de pessoas vivem isso diariamente  e muitas seguem sem diagnóstico, sem tratamento e sem acolhimento.

Nem sempre é tristeza: às vezes é vazio

Esse é um dos pontos mais importantes — e menos compreendidos.

Muita gente acha que depressão é apenas “ficar triste”.

Não é.

Em muitos casos, a pessoa nem consegue explicar o que sente.

O que existe é um vazio constante, uma falta de cor, uma exaustão emocional permanente, como se a vida perdesse o sabor, a lógica e o brilho.

Às vezes a depressão aparece como choro.

  • Outras vezes, como irritação.
  • Às vezes, como silêncio.
  • Outras, como isolamento.
  • E em muitos casos, ela aparece disfarçada de “normalidade”.

A pessoa continua indo ao trabalho, responde mensagens, sorri em fotos, comparece aos compromissos… mas por dentro está se apagando lentamente.

É por isso que tantos casos passam despercebidos.

Os sinais estão aí  e não podem ser ignorados

Os sintomas clássicos da depressão podem se manifestar de formas diferentes, com intensidades diferentes e em ritmos diferentes.

Mas alguns sinais costumam aparecer com frequência:

  • tristeza persistente ou sensação constante de vazio;
  • perda de prazer nas coisas que antes davam alegria;
  • apatia e desinteresse pela vida;
  • sensação de culpa ou inutilidade;
  • autodesvalorização;
  • cansaço extremo e falta de energia;
  • lentidão para pensar, decidir e se concentrar;
  • perda de memória e dificuldade de foco;
  • insônia ou sono excessivo;
  • alteração no apetite;
  • diminuição do interesse sexual;
  • dores físicas sem explicação clara, como aperto no peito, taquicardia, desconfortos digestivos, tensão corporal e outros sintomas somáticos;
  • sensação de ser um peso para os outros;
  • pensamentos recorrentes sobre morte ou desaparecimento.

E aqui está um ponto essencial: quando o sofrimento emocional começa a comprometer a rotina, a funcionalidade, os vínculos e a vontade de viver, isso precisa ser levado a sério.

  • Não amanhã.
  • Não “quando der”.
  • Agora.

Depressão não surge do nada

Outro erro comum é achar que a depressão sempre nasce de um “grande motivo”.

Nem sempre.

Às vezes ela vem após perdas, traumas, lutos, separações, conflitos familiares, desemprego, dificuldades financeiras, sobrecarga emocional ou doenças físicas.

Em outros casos, ela surge sem um evento único e aparente, porque envolve uma combinação complexa de fatores genéticos, biológicos, psicológicos e sociais.

O Ministério da Saúde e a OPAS/OMS apontam, entre os fatores de risco, predisposição genética, alterações neuroquímicas, estresse crônico, traumas, uso de álcool e outras drogas, ansiedade persistente, conflitos relacionais e doenças clínicas associadas.

Ou seja: não existe uma causa única.

E é justamente por isso que frases simplistas não resolvem uma condição complexa.

A depressão pode atingir alguém em crise.

Mas também pode atingir alguém que, por fora, “aparentemente tem tudo”.

Porque sofrimento psíquico não se mede por fachada.

A mentira mais perigosa: “isso passa sozinho”

Não, nem sempre passa.

E esse talvez seja um dos maiores erros cometidos por famílias, amigos e até pelo próprio paciente: esperar o fundo do poço para agir.

A depressão, quando não tratada, tende a se tornar mais intensa, mais incapacitante e mais destrutiva.

Pode afetar o desempenho profissional, a vida acadêmica, a convivência familiar, os relacionamentos afetivos, a saúde física e a percepção de futuro.

Ela rouba aos poucos.

  • Primeiro a motivação.
  • Depois o prazer.
  • Depois a energia.
  • Depois a esperança.
  • E, quando ninguém percebe, o risco cresce.

É por isso que informação salva.

Quanto mais cedo os sinais são reconhecidos, maiores as chances de intervenção, recuperação e reconstrução da qualidade de vida.

Tratamento existe e funciona

Essa também é uma verdade que precisa ser repetida com força: depressão tem tratamento.

E mais do que isso: tratamento funciona.

O cuidado adequado pode envolver acompanhamento psiquiátrico, psicoterapia, reorganização da rotina, suporte familiar, mudanças no estilo de vida e, em muitos casos, uso de medicação quando há indicação clínica.

Não existe vergonha nenhuma em tratar a mente.

Ninguém chama de fraqueza alguém que usa remédio para pressão, diabetes ou problema cardíaco.

Então por que ainda existe tanta resistência quando o órgão adoecido é o cérebro e o sofrimento é emocional?

A resposta é dura, mas simples: por preconceito.

  • E preconceito, neste caso, custa caro.
  • Às vezes custa anos de sofrimento.
  • Às vezes custa relacionamentos.
  • Às vezes custa vidas.

Fé ajuda. Amor ajuda.      Mas tratamento é indispensável

 

Esse é um ponto sensível, mas necessário.

Espiritualidade pode ser fonte de força, acolhimento e sentido.

Família pode ser apoio. Amor pode ser sustento. Conversa pode aliviar.

Tudo isso é importante.

  • Mas nenhuma dessas coisas deve substituir tratamento profissional quando a doença está instalada.
  • A depressão não se cura com frases prontas.
  • Não desaparece com cobrança.
  • Não vai embora por pressão moral.

E insistir nisso só faz a pessoa adoecida se sentir ainda mais fracassada por “não conseguir melhorar”.

  • O que ela precisa não é de julgamento.
  • É de escuta, seriedade, acolhimento e encaminhamento correto.
  • O que fazer quando alguém perto de você está dando sinais

Se você percebe que alguém está diferente, mais isolado, sem energia, sem brilho, sem esperança, não trate isso como “manha”.

Faça o básico que hoje anda raro: leve a sério.

Você não precisa ter todas as respostas.

Mas pode fazer algo muito importante:

  • escutar sem interromper;
  • evitar frases que diminuam a dor;
  • não transformar o sofrimento da pessoa em sermão;
  • encorajar a busca por ajuda profissional;
  • permanecer por perto;
  • observar mudanças bruscas de comportamento;
  • agir com responsabilidade diante de sinais de risco.

Muitas vezes, o que impede uma piora é justamente o fato de alguém ter percebido a tempo.

Chegou a hora de amadurecer como sociedade

A verdade é que o Brasil ainda fala pouco e mal sobre saúde mental.

  • Fala-se de corpo com naturalidade.
  • Fala-se de estética com obsessão.
  • Fala-se de produtividade como religião.
  • Mas ainda se fala de sofrimento psíquico como se fosse vergonha.

Isso precisa mudar.

Porque enquanto a sociedade debocha, romantiza ou minimiza, pessoas seguem adoecendo em silêncio.

E não há nada de moderno, inteligente ou “forte” em ignorar uma doença séria.

A verdadeira maturidade social começa quando paramos de rir da dor alheia e passamos a tratá-la com a responsabilidade que ela exige.

  • Sem tabu, sem vergonha, sem máscaras
  • A depressão precisa deixar de ser assunto proibido.

 

Precisa sair do quarto escuro.

Precisa ser encarada como o que realmente é: uma condição de saúde que merece atenção, cuidado e tratamento, não desprezo.

  • Falar sobre isso não incentiva fraqueza.
  • Falar sobre isso salva.
  • Informar salva.
  • Escutar salva.
  • Tratar salva.

E talvez esteja justamente aí a missão mais urgente do nosso tempo: ensinar as pessoas a reconhecer que sofrer em silêncio não é sinal de força  é sinal de que alguém precisa de ajuda.

Porque ninguém deveria ter que implorar para que sua dor invisível seja considerada real.

E ninguém deveria morrer por medo, vergonha ou preconceito de pedir socorro.

A SOCIEDADE AINDA TEM MUITO PRECONCEITO E FALTA DE CONHECIMENTO

 

QUEM ESCREVE

Ana Claudia de Laet Segantine é psicanalista e Mestra em Biociência. Atua principalmente nas áreas de Neurociência, TAB, TDAH, Depressão, Suicídio, Dependência Química, TAG e TEPT.

Seu trabalho é voltado ao acolhimento, orientação e cuidado sem preconceitos.

TikTok: @anaclaudiadelaetsegantine
Contato: (62) 98244-0724

 

 

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A doença que muitos fingem não ver.     A depressão ainda é tratada, em muitos lares, como um defeito de caráter.
Os sintomas clássicos da depressão podem se manifestar de formas diferentes, com intensidades diferentes e em ritmos diferentes.
Ana Claudia de Laet Segantine é psicanalista e Mestra em Biociência.   È  TAMBÉM COLABORADORA DO PORTAL 7MINUTOS
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  • Gildo Ribeiro

    Gildo Ribeiro é editor do Grupo 7 de Comunicação, liderado pelo Portal 7 Minutos, uma plataforma de notícias online.

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