diz Luc Ferry
‘Os pais devem absolutamente limitar o uso das redes sociais pelos seus filhos’
Filósofo francês, que estará no Brasil em maio para o SP Innovation Week, critica o consumo acelerado e o vício nas plataformas digitais
Ele foi ministro da Educação da França, é um dos filósofos contemporâneos mais lidos da Europa e, desde a publicação do livro “Aprendendo a Viver”, tornou-se uma referência para quem busca na filosofia um guia para atravessar a existência de forma mais serena.
Em maio, Luc Ferry desembarca presencialmente no Brasil como um dos palestrantes do SP Innovation Week (SPIW).
O evento de inovação, tecnologia e negócios será realizado pelo Estadão em parceria com a Base Eventos, no Mercado Livre Arena Pacaembu e na Faap, e a venda de ingressos começa nesta segunda-feira, 23.
Em um dos 32 palcos do festival, que acontece entre os dias 13 e 15 de maio, Ferry vai discutir justamente aquilo que mais inquieta o ser humano contemporâneo: como viver em meio ao excesso de informações e à obsessão pela felicidade vendida como produto nas mídias sociais?
Em entrevista à Coluna, Ferry começa por desfazer um equívoco que, segundo ele, compromete o próprio entendimento do pensamento filosófico:
Vivemos hoje numa confusão inquietante que impede a compreensão da filosofia: aquela que consiste em misturar permanentemente valores espirituais e valores morais.
E esclarece:
A moral, em qualquer sentido que se entenda, é o respeito pelo outro, pelos direitos do homem, com, além disso, a benevolência, a generosidade.
Conduzir-se moralmente é respeitar o outro e querer-lhe ativamente o bem.
Mas, diz ele, ainda que vivêssemos numa sociedade perfeitamente justa, isso não nos livraria da angústia fundamental.
Se nós aplicássemos perfeitamente os valores morais, não haveria mais massacres, nem violações, nem roubos, nem assassinatos, nem injustiças. Seria uma revolução.
E, no entanto, isso não nos impediria nem de envelhecer, nem de morrer, nem de perder um ente querido, nem mesmo de, se for o caso, sermos infelizes no amor ou, simplesmente, de nos aborrecermos ao longo de uma vida cotidiana mergulhada na banalidade.
É aí que entra o que ele chama de espiritualidade, não necessariamente religiosa.
Há espiritualidades com deuses, que são as religiões, e espiritualidades sem Deus, que são as grandes filosofias.
Em um momento em que a saúde mental ocupa o centro das conversas, Ferry observa uma mudança profunda no Ocidente.
Na Europa, em 1950, 95% dos franceses eram católicos, crentes.
Já agora são 40% que dizem acreditar em Deus.
Então, a psicologia toma o lugar da religião, e a preocupação com a saúde mental ocupa o lugar das preocupações metafísicas.
Para ele, no entanto, a questão decisiva continua a mesma: a morte.
Citando Schopenhauer:
A morte é, propriamente falando, o gênio inspirador; sem ela, provavelmente não haveria filosofia.
A reflexão filosófica, Ferry pontua, nasce da consciência da finitude.
Vivemos pequenas mortes, perdas cotidianas que são formas de finitude que experimentamos.
A perda da juventude, filhos que crescem, amigos que se distanciam.
Desde A Epopeia de Gilgamesh, lembra, os humanos enfrentam a angústia:
Nem os animais nem os deuses colocam as mesmas questões que nós, pequenos humanos mortais…
Redes sociais
Sobre tentar se distrair da angústia por meio do uso excessivo das telas na era digital, Ferry não suaviza o tom.
As redes são uma armadilha que pode ser mortal. Encerram-nos nas nossas próprias certezas e são, além disso, viciantes.
E faz um alerta direto:
Os pais devem absolutamente limitar o uso das redes sociais pelos seus filhos; é vital!.
A crítica às plataformas digitais, porém, não é apenas moral ou pedagógica – insere-se numa reflexão mais ampla sobre as ilusões contemporâneas e a dificuldade de lidarmos conosco mesmos.
Desafios do dia a dia
Ao falar sobre “viver em harmonia consigo mesmo”, recusa qualquer idealização.
Sou um ser profundamente angustiado e muitas vezes estou em desacordo comigo mesmo. (risos)
Parece-me que um ser totalmente desprovido de angústia seria ou um grande doente ou um perfeito imbecil, pois, como dizia Immanuel Kant, ‘se a providência tivesse querido que fôssemos felizes, nunca nos teria dado a inteligência.
Em seu último livro, “O Frenesi da Felicidade”, Ferry critica a lógica do prazer imediato e recorre a uma imagem simples para explicar o presente.
O grande problema do mundo moderno é que, em comparação com os nossos avós, o capitalismo globalizado fez tudo para mergulhar os nossos filhos no princípio do prazer, segundo o qual queremos tudo, tudo imediatamente’
É infantil e perigoso. É preciso ensinar aos nossos filhos a resistir, mas é mais fácil dizer do que fazer, tal a força da lógica do consumo”.
A chamada “ciência da felicidade”, a psicologia positiva, também não escapa ao seu ceticismo.
Um pouco de bom senso deveria ser suficiente para compreender que se trata novamente de uma miragem, sendo a felicidade algo tão subjetivo que nenhuma definição científica é possível.
Para ele, a promessa de fórmulas prontas é ilusória.
No fundo, somos felizes quando a vida é simpática, quando nos oferece bons momentos.
Mas adverte, evocando Rousseau e Kant, que
a felicidade é apenas um ‘ideal da imaginação’, não uma realidade acessível aqui na Terra, muito menos um objeto de ciência.
E conclui com uma constatação quase clássica:
Para nós, os mortais, nada pode ser estável ou duradouro aqui na Terra, de modo que as nossas alegrias são necessariamente efêmeras e frágeis.
Mas Ferry não encerra a entrevista sem esperança.
Para ele, existe um “novo sagrado”, um valor que fundamenta uma nova ética:
O amor é uma forma de encontrar sentido na vida, a base do humanismo moderno, focado nas relações humanas e que transforma a maneira como vivemos, conclui.
Sobre o SP Innovation Week
Em uma área de 50 mil m², o festival terá 32 palcos simultâneos com mais de 1,5 mil palestrantes nacionais e internacionais, debatendo temas de tecnologia, negócios, empreendedorismo, luxo, impacto social, cultura e economia criativa.
A expectativa é receber mais de 90 mil visitantes, com cerca de 1 mil startups e 100 expositores envolvidos. A programação do megaevento será criada a partir de 15 trilhas de conhecimento, seguindo a variedade inerente à cidade de São Paulo.
Alguns nomes do time de palestrantes já estão confirmados para o festival, incluindo Luc Ferry, Douglas Rushkoff, indicado pelo MIT como um dos dez intelectuais mais influentes do mundo, o psicólogo americano e criador do conceito da inteligência emocional Daniel Goleman, a filósofa americana Rebecca Goldstein, o jornalista russo Dmitry Muratov — laureado com o Nobel da Paz em 2021 por sua defesa da liberdade de expressão —, o psicólogo e linguista canadense Steven Pinker e o premiado astrofísico brasileiro Marcelo Gleiser.
Serviço
São Paulo Innovation Week
- Local: Mercado Livre Arena Pacaembu e na Faap
- Dias: 13, 14 e 15 de maio.
- Ingressos: R$ 594 (De 23 de fevereiro até 1º de março preço com desconto do passaporte para os três dias do evento. Após essa data, a venda será realizada em lotes regulares).
Mais informações podem ser obtidas no site:
São Paulo Innovation Week
Por Alice Ferraz
O Portal 7Minutos deseja a todos um bom dia pic.twitter.com/76cDh70cEI
— 7Minutos Notícias (@7minutos_news) December 15, 2025
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