Quando a elegância desaparece das ruas – Parte II
Depois de publicar minha reflexão sobre o desaparecimento da elegância das ruas, permaneci observando aquilo que me cerca. Percebi que talvez a questão seja ainda mais profunda do que a própria moda.
A roupa continua sendo uma linguagem.
Mas ela também é memória.
Durante muito tempo, ouvimos que as novas gerações haviam perdido o interesse pela história. Hoje, já não tenho tanta certeza disso. Talvez o problema nunca tenha sido a falta de interesse pela história, mas a falta de contato com a própria história.
Entre as décadas de 1980 e o início dos anos 2000, consolidou-se uma cultura completamente voltada para o novo. O novo apartamento. O novo carro. A nova coleção. O novo lançamento. A novidade tornou-se um valor em si mesma.
As casas ficaram menores.
As mudanças de endereço tornaram-se mais frequentes.
O consumo acelerou.
E, pouco a pouco, fomos abrindo espaço para o novo descartando aquilo que carregava nossa memória.
- Louças herdadas.
- Cristaleiras.
- Mesas de jantar.
- Máquinas de costura.
- Álbuns de fotografias.
- Cartas.
- Enxovais.
- Vestidos.
- Casacos.
Objetos que haviam atravessado décadas simplesmente desapareceram das casas brasileiras porque passaram a ser vistos como velhos, ultrapassados ou sem utilidade.
Mas objetos nunca são apenas objetos.
Eles silenciosamente contam quem fomos.
O sociólogo francês Pierre Bourdieu mostrou que aquilo que herdamos — gostos, hábitos, maneiras de viver e referências culturais — forma um patrimônio invisível que influencia profundamente nossa visão de mundo.
Não herdamos apenas bens materiais. Herdamos maneiras de olhar para a beleza, para o cuidado, para a elegância e para o próprio significado das coisas.
Quando esse patrimônio desaparece, perde-se também parte da narrativa familiar.
Talvez seja justamente por isso que hoje estejamos assistindo a um movimento aparentemente contraditório.
Nunca se produziu tanto.
E, ao mesmo tempo, nunca tantas pessoas demonstraram interesse por aquilo que já existia.
Vejo jovens entrando em brechós não apenas em busca de preços mais acessíveis, mas procurando peças que tenham história.
- Vejo móveis antigos sendo restaurados.
- Porcelanas voltando às mesas.
- Máquinas de costura transformadas em objetos de afeto.
- Fotografias impressas recuperando valor em uma época em que quase todas as imagens vivem aprisionadas dentro de um celular.
- Receitas de avós sendo copiadas novamente.
- Famílias procurando descobrir a origem dos sobrenomes, das fotografias e das cartas esquecidas em gavetas.
- Talvez isso não seja nostalgia.
- Talvez seja uma necessidade humana.
O historiador Jacques Le Goff lembrava que a memória não é apenas uma coleção de lembranças. Ela constitui a própria identidade das pessoas e das sociedades. Sem memória, perdemos a continuidade daquilo que somos.
A moda também sofre quando essa continuidade desaparece.
Sempre digo às minhas clientes que uma roupa nunca veste apenas um corpo.
- Ela veste uma história.
- Um vestido pode atravessar gerações.
- Um broche pode carregar a lembrança de uma avó.
- Um relógio pode marcar muito mais do que horas.
Uma peça ajustada pelas mãos de uma mãe ou de uma costureira conserva uma intimidade que nenhuma produção em massa consegue reproduzir.
Quando perdemos os objetos que contam nossa história, corremos o risco de acreditar que começamos do zero.
Mas ninguém começa do zero.
- Somos feitos das mãos que costuraram antes das nossas.
- Das mesas onde nossa família se reuniu.
- Das fotografias que registraram quem veio antes.
- Das roupas que foram ajustadas, reaproveitadas e passadas adiante como um gesto silencioso de cuidado.
Talvez o crescente interesse pelo passado não seja um desejo de voltar no tempo.
Talvez seja uma tentativa de recuperar uma identidade que ficou esquecida pelo caminho.
Isso também ajuda a explicar um fenômeno curioso da moda contemporânea.
Brechós deixaram de ser apenas lugares onde se compram roupas usadas.
- Transformaram-se em espaços onde muitas pessoas procuram autenticidade.
- Não procuram apenas uma peça diferente.
- Procuram uma narrativa.
- Uma continuidade.
Uma sensação de pertencimento que dificilmente pode ser encontrada nas vitrines da moda descartável.
Em um mundo onde tudo parece provisório, aquilo que resiste ao tempo ganha um valor novo.
- As marcas do uso deixam de ser defeitos.
- Transformam-se em testemunhos.
Talvez estejamos, lentamente, reaprendendo algo que nossos avós jamais esqueceram: cuidar de um objeto também é cuidar da memória que ele transporta.
E talvez a elegância comece exatamente aí.
- Não no preço da roupa.
- Nem na etiqueta.
- Nem na tendência da estação.
Mas na consciência de que aquilo que escolhemos vestir também comunica de onde viemos, aquilo que valorizamos e, sobretudo, quem desejamos continuar sendo.
Porque existem roupas que apenas cobrem o corpo.
E existem roupas que carregam gerações.
Por Tânia Regina Schirmer
Consultora de Moda e Estilo
Design de moda
O Portal 7Minutos deseja a todos um bom dia pic.twitter.com/76cDh70cEI
— 7Minutos Notícias (@7minutos_news) December 15, 2025
Siga o ‘ 7Minutos’ nas redes sociais



