A força invisível do agora
Quase ninguém repara no momento exato em que a vida acontece.
Ela não faz barulho. Não pede licença.
Não se anuncia como um grande acontecimento histórico, nem como uma vitória extraordinária.
A vida acontece no trajeto da zona norte até o centro de Porto Alegre, dentro de uma lotação meio cheia, com gente segurando café na mão e pensamentos que ninguém vê.
Foi ali, nesse percurso repetido por quase um mês, que comecei a perceber algo que antes me escapava: o mundo não é movido pelos discursos, nem pelos grandes cargos, nem pelos debates acalorados que dominam as manchetes.
O mundo é sustentado por uma força silenciosa, quase invisível o cumprimento cotidiano do dever.
A mesma gente, nos mesmos horários.
O homem que sempre senta à esquerda, olhando fixo pela janela como se buscasse respostas que não vêm.
A senhora que desce antes do hospital — e agora sei que vai para a hemodiálise.
O enfermeiro, ainda com o cansaço do plantão anterior estampado no rosto.
A moça da limpeza, que carrega no corpo o peso de um trabalho que poucos valorizam, mas do qual todos dependem.
Os garis, já com o dia começado muito antes da maioria, varrendo silenciosamente o que a cidade descarta.
Os pedreiros e trabalhadores da obra, erguendo concreto sob sol ou frio, construindo estruturas que nunca levarão seus nomes.
Os padeiros, que ainda na madrugada preparam o pão que sustenta o café da manhã de milhares — sem aplauso, sem reconhecimento, apenas constância.
E o motorista. Sempre ele. Conduzindo não só o veículo, mas uma pequena amostra do que mantém a cidade viva.
Ali dentro, ninguém discursa sobre política, poder ou economia.
Mas todos, sem exceção, sustentam essas estruturas sem sequer pensar nisso.
É uma engrenagem que funciona não por ideologia, mas por necessidade. Por responsabilidade. Por sobrevivência.
A cidade desperta aos poucos.
Lojas abrindo suas portas como quem levanta as pálpebras.
Funcionários apressados, quase correndo contra o relógio.
O cheiro de café e pão de queijo escapando das pequenas bancas pequenos templos do conforto cotidiano.
O agente de trânsito tentando impor ordem ao caos inevitável.
O brigadiano atento, equilibrando presença e rotina.
E as crianças.
Uniformizadas, ainda meio sonolentas, carregando mochilas maiores que seus próprios sonhos ou talvez exatamente do tamanho deles.
Tudo acontece ao mesmo tempo. E, ainda assim, nada parece extraordinário.
Mas é.
Há uma coreografia ali. Imperfeita, às vezes caótica, mas profundamente sincronizada. Cada pessoa cumpre seu papel sem saber exatamente o impacto disso no todo. E talvez seja melhor assim.
Porque, se todos parassem para pensar no peso real do que fazem, talvez ninguém saísse de casa.
Foi inevitável lembrar de Dias Perfeitos, de Wim Wenders.
Hirayama, limpando banheiros públicos em Tóquio, vivendo uma rotina que muitos considerariam pequena demais para ser significativa.
Mas ali estava tudo: música, silêncio, luz filtrada pelas árvores — o komorebi — e, acima de tudo, presença.
Aquele filme não fala sobre rotina. Fala sobre percepção.
E foi exatamente isso que mudou dentro de mim: não o trajeto, mas o olhar.
Passei a ver o que antes ignorava.
Os rostos.
Ansiedade em alguns.
Cansaço em muitos.
Desilusão em outros.
Mas também e isso é o que mais surpreende — ternura.
Pequenos gestos de gentileza. Um lugar cedido.
.Um “bom dia” que ainda resiste. Um olhar de compreensão entre desconhecidos.
E, ao mesmo tempo, a outra face da cidade.
Os que estão à margem.
Os moradores de rua, espalhados pelo centro como cicatrizes abertas de uma sociedade que prefere não se olhar no espelho.
Sempre me pergunto: em que ponto a vida se rompeu para eles?
Qual foi a sequência de escolhas, perdas ou ausências que os trouxe até ali?
Não há resposta simples.
Como escreveu Alexander Solzhenitsyn,
a linha que separa o bem do mal não passa entre Estados ou classes, mas corta o coração de cada ser humano.
E talvez seja isso que mais desconcerta.
Não existe uma divisão clara.
O mesmo homem que ajuda pode falhar.
O mesmo que erra pode amar.
A mesma sociedade que produz ordem também produz abandono.
Nada é puro. Nada é simples.
E, ainda assim, tudo continua.
A lotação segue seu trajeto.
A cidade respira.
As pessoas cumprem seus papéis.
E é nesse fluxo contínuo, quase imperceptível, que reside a verdadeira força que mantém tudo de pé.
Não é o extraordinário que sustenta o mundo é o ordinário.
O repetido.
O agora.
Fernando Pessoa, de alguma forma, já sabia disso quando transformava o banal em reflexão profunda.
Não porque o banal fosse especial em si, mas porque o olhar atento o tornava assim.
E talvez seja esse o ponto que a maioria perde.
A vida não está esperando um grande momento para começar.
Ela já começou.
Está acontecendo na pressa de quem não quer se atrasar, no silêncio de quem observa pela janela, na rotina de quem faz o que precisa ser feito, mesmo sem reconhecimento.
Está no agora.
E o agora, quase sempre, passa despercebido.
Mas é ele — e somente ele — que sustenta tudo.
RESPONSABILIDADE PELO CONTEÚDO
As idéias e opiniões expressas em cada matéria publicada nas colunas ou no conteudo de política, são de exclusiva responsabilidade do JORNALISTA, não refletindo, nescessariamente, as opiniões do editor e do Portal 7Minutos.
Cada opinião tem a responsabilidade jurídica por suas matérias assinadas.
O 7MINUTOS se responsabiliza apenas pelas matérias assinadas por ele.
Por: Rodrigo Schirmer Magalhães
Cientista político e Analista de Politica
O Portal 7Minutos deseja a todos um bom dia pic.twitter.com/76cDh70cEI
— 7Minutos Notícias (@7minutos_news) December 15, 2025
Siga o ‘ 7Minutos’ nas redes sociais
X (ex-Twitter)
Instagram
Facebook
Telegram
Truth Social
https://x.com/7minutos_news
https://www.instagram.com/gildoribeirooficial/
https://www.facebook.com/7minutosnoticias
https://web.telegram.org/a/#-4574469178
https://truthsocial.com/@7Minutos




