A chamada Marcha da Liberdade
A Marcha, o Mito e o Poder: quando o Brasil transforma passos em destino
Toda marcha grande começa pequena. Antes de virar símbolo, é só gente.
Antes de ser manchete, é quase invisível.
A chamada Marcha da Liberdade não nasceu como epopeia: nasceu como gesto.
Um deputado, Nikolas Ferreira, alguns poucos aliados, meia dúzia de rostos conhecidos e outros anônimos, caminhando não com a certeza do triunfo, mas com a intuição de que algo precisava ser encenado.
Não havia multidões. Não havia aparato histórico. Havia corpo, passo, risco e exposição.
Havia mais dúvida que estratégia. Mais vontade que cálculo.
É nesse ponto que os movimentos começam a ser humanos antes de serem políticos.
Nikolas não saiu como mito saiu como homem.
Saiu com amigos, com equipe reduzida, com a sensação de quem testa o chão antes de atravessar o rio.
Nenhuma revolução nasce pronta; ela começa como ensaio.
Como escreveu Camus,
o homem é a única criatura que se recusa a ser o que é.
Marchar, no fundo, é isso: recusar a imobilidade.
O que parecia apenas uma caminhada virou cena.
O que era deslocamento virou linguagem.
O que era pequeno começou a pedir interpretação.
Porque, no instante em que alguém decide andar publicamente contra algo, ele deixa de ser só indivíduo e começa a virar personagem.
E é aí que o gesto simples entra no território do símbolo.
A política, antes de ser projeto, é sempre gesto.
. Antes de ser plano, é símbolo. Antes de ser razão, é imaginação.
O homem não se move apenas por argumentos, move-se por narrativas, por cenas, por imagens que tocam aquilo que Carl Jung chamou de inconsciente coletivo: o território invisível onde mitos, arquétipos e expectativas moldam a forma como enxergamos o mundo.,
É nesse terreno que nasce o sentido profundo da Marcha da Liberdade que começa a ganhar corpo no Brasil.
À primeira vista, uma marcha é apenas deslocamento.
Pessoas andando, cartazes, palavras de ordem.
Mas, filosoficamente, ela é outra coisa: é performance social.
É teatro político.
É aquilo que Guy Debord chamaria de “sociedade do espetáculo”, não no sentido vulgar, mas no sentido simbólico — onde a ação não serve só para pressionar o poder, mas para organizar emoções, criar personagens e produzir percepção.
A marcha não fala apenas ao Estado; ela fala ao imaginário.
Por isso, todo movimento que vai às ruas, mesmo sem estratégia clara, já está fazendo algo decisivo: ensinando o povo a sentir antes de pensar.
A história mostra que marchas raramente produzem resultados imediatos, mas quase sempre produzem efeitos duradouros.
Em 1930, Gandhi caminhou até o mar na Marcha do Sal.
O gesto parecia pequeno: recolher sal proibido pelo Império Britânico. Politicamente, não derrubou o colonialismo no dia seguinte. Mas simbolicamente, inaugurou a imagem do indiano comum enfrentando o império com o próprio corpo. A independência começou ali no plano do mito antes de nascer no plano jurídico.
Nos Estados Unidos, Martin Luther King liderou marchas que não aboliram o racismo por decreto instantâneo, mas criaram o que Hannah Arendt chamaria de espaço público da ação, onde o cidadão deixa de ser estatística e vira presença.
O direito civil veio depois do símbolo.
Na Alemanha, as marchas de Leipzig em 1989 não derrubaram o Muro na primeira noite, mas ensinaram milhões a perder o medo.
Primeiro o corpo se move…. Depois o sistema treme.
No Brasil, não foi diferente.
As Diretas Já começaram como ritual coletivo antes de virarem força institucional.
Em 2013, as jornadas de junho também não resolveram o país, mas mudaram sua gramática emocional: o brasileiro descobriu que podia ocupar a rua como linguagem política.
Marchas são sementes. Algumas morrem. Outras crescem devagar.
Mas todas mexem no solo psicológico da sociedade.
O Brasil, mais que outros países, não cultua projetos — cultua personagens.
Nossa política é menos contratual e mais dramática.
O brasileiro responde àquilo que Joseph Campbell chamou de Jornada do Herói: alguém sai do anonimato, enfrenta o sistema, sofre, cai, retorna transformado.
Desde Canudos, com Antônio Conselheiro, passando por Getúlio Vargas, Jânio Quadros, Lula e Bolsonaro, o país fabrica líderes como se fossem protagonistas de romance.
Mesmo na cultura popular isso se repete: do Capitão Nascimento, em Tropa de Elite, ao João Grilo de Ariano Suassuna, o herói brasileiro não é o técnico — é o improvável, o emocional, o messiânico.
Aqui, política não nasce no papel: nasce no drama.
Por isso o brasileiro não reage só a ideias — reage a gestos simbólicos.
Prisões viram martírio. Exílios viram epopeia. Marchas viram capítulos épicos.
Como diria Nietzsche, não são os fatos que nos movem, mas as interpretações que fazemos deles.
A Marcha da Liberdade entra exatamente nesse campo: não como plano de governo, mas como rito de passagem coletivo.
A Marcha da Liberdade não é apenas protesto: é encenação da jornada do herói.
O povo não vê apenas pessoas andando; vê alguém enfrentando o sistema, suportando ataques, resistindo e retornando “purificado”.
Isso gera identificação emocional. A razão observa. O imaginário se apaixona.
Quando ações assim são quase santificadas, o debate vira fé.
O líder vira símbolo. O símbolo vira mito.
E o mito começa a organizar a percepção da realidade. Jung explicava que, quando o arquétipo domina, a consciência individual se curva ao roteiro coletivo.
No Brasil, primeiro acreditamos — depois pensamos.
Por isso marchas moldam mais consciências que programas de governo.
O que se percebe por trás da Marcha da Liberdade não é só mobilização: é substituição simbólica dentro da direita brasileira.
O bolsonarismo cumpriu sua função histórica:
rompeu a ordem emocional do sistema, criou antagonismo, despertou paixões.
Mas todo símbolo político tem prazo.
Agora emerge outra persona: Nikolas Ferreira.
Não é só um deputado. É uma estética política. Jovem, comunicador, performático, moralmente polarizador.
Ele não representa ainda um projeto consolidado, mas ocupa um espaço psicológico: o do novo herói narrativo.
O bolsonarismo era o pai rebelde; o “nikolismo” se vende como o filho audacioso.
O povo não troca de ideia, troca de personagem.
Como escreveu Vilfredo Pareto, as elites mudam menos por razão e mais por circulação simbólica: o público precisa sentir que há alguém novo na cena, mesmo que a estrutura permaneça a mesma.
A Marcha da Liberdade funciona, então, como batismo simbólico dessa transição.
Mas quem entra na jornada do herói precisa aprender cedo uma verdade incômoda: o jogo do poder não ama ninguém, ele usa.
A nova direita empolgou multidões, levantou nomes como Bolsonaro, Nikolas e outros.
Mas quando o tabuleiro balança, os mesmos que aplaudem hoje descartam amanhã.
Olavo de Carvalho já alertava: popularidade é anestesia, não é força.
Ela embriaga o líder e adormece sua prudência.
Maquiavel foi ainda mais claro em O Príncipe: ser amado é instável; ter poder real é estrutural.
Amor depende do humor das massas. Poder depende de posição, alianças, instituições e controle do tempo.
O herói de verdade não vive de curtidas nem de gritos de apoio.
Vive de consciência, estratégia e coragem para atravessar o deserto quando os seguidores somem.
Porque, no fim, quem confunde aplauso com poder descobre, tarde demais, que fama não sustenta revolução, só vaidade.
A marcha serve para inflar emoções. E isso não é pequeno. Emoção é combustível. Fé e paixão movem mais que estatísticas.
Mas emoção sem estrutura vira fogueira: aquece rápido e apaga cedo.
Como dizia Ortega y Gasset, a massa não quer entender, quer sentir.
O problema não é sentir, é parar aí.
A Marcha da Liberdade mexe nas estruturas simbólicas do país.
Isso já é algo.
Mas eficácia política não nasce só da mística: nasce da combinação entre narrativa, organização e leitura fria do tabuleiro.
No final, vale recorrer à alegoria.
Em Game of Thrones, há uma cena célebre entre Cersei Lannister e Petyr Baelish.
Mindinho diz:
Conhecimento é poder.
Cersei responde mandando seus guardas o prenderem pelo pescoço.
Depois os manda soltá-lo.
E então diz: Poder é poder.
- Ali está a aula que toda marcha deveria lembrar.
- Não é discurso, não é carisma, não é performance.
- É capacidade real de decidir o jogo quando o espetáculo acaba.
Na ficção e na política, é igual.
- Marchas inflamam.
- Narrativas arrebatam.
- Emoções organizam multidões.
Mas, quando o barulho some, o que resta é quem controla posições, alianças, instituições e tempo histórico.
A Marcha da Liberdade pode ser o início de algo maior, ou apenas mais um capítulo emocional da política brasileira.
Ela já cumpriu uma função: mexer no imaginário, trocar símbolos, reacender paixões.
Mas quem entra na jornada do herói precisa saber:
- o aplauso é vento.
- O mito é chama.
- O poder, porém, é estrutura.
E estrutura não nasce na rua, nasce quando o herói aprende a caminhar sozinho, mesmo quando a multidão já foi embora.
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Por: Rodrigo Schirmer Magalhães
Cientista político e Analista de Politica
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