Conteúdo Luiz Cavalcante
Entre a ilegalidade internacional e um visto americano, setores da política brasileira escolhem trair o Brasil
Antes de prosseguir, é necessário deixar absolutamente claro: repudiar a invasão dos EUA na Venezuela não significa apoiar Nicolás Maduro ou suas práticas nefastas.
Quem faz essa associação, ou é imbecil demais para compreender a diferença entre dois conceitos distintos, ou age na mais pura má fé, contando com a ignorância do povo para confundir os termos do debate.
Maduro é um ditador.
Fraudou eleições, violou direitos humanos, destruiu a economia de seu país.
Tudo isso é verdade.
E, ainda assim, muita gente prefere fingir que reconhecer esse fato significa automaticamente apoiar uma invasão estrangeira.
Como se a condenação de um regime justificasse a violação da soberania.
Como se a incompetência de um governo autorizasse outro a invadir seu território.
A realidade é mais incômoda que isso.
Ambas as coisas são verdadeiras simultaneamente.
É possível, e necessário, condenar as duas.
Condenar a invasão não é absolver Maduro.
É defender o direito internacional, a soberania das nações e a ordem que protege até mesmo países pequenos de potências imperiais.
Aqueles que tentam confundir esses conceitos estão jogando um jogo político sujo.
Merecem ser chamados ao que são:
desonestos intelectuais ou manipuladores de massas.
Enquanto o mundo assiste a um dos maiores crimes contra o direito internacional em décadas, há um grupo de políticos brasileiros que não conseguiu conter a euforia.
Não pela democracia.
Não pelos direitos humanos.
Mas pela simples oportunidade de ver um inimigo político derrotado pela força bruta de uma potência estrangeira.
Essa celebração descarada é a confissão que faltava.
O Crime Que Ninguém Quer Nomear
No dia 3 de janeiro de 2026, os Estados Unidos cometeram o que especialistas em direito internacional classificam sem hesitação como um crime de agressão.
Não é uma opinião.
É um diagnóstico jurídico.
Sylvia Steiner, ex-juíza do Tribunal Penal Internacional e única brasileira a ocupar esse cargo na instituição, foi categórica:
Não há absolutamente nenhuma justificativa para esse ataque sob todos os aspectos do direito internacional.
Ela prosseguiu:
Há mais de 100 anos, bem mais, o Direito Internacional proíbe a chamada guerra de agressão, que é a invasão de um estado por outro estado, um estado soberano invadindo de qualquer maneira outro estado.
É ilícito internacional e é crime internacional tipificado.
Mas enquanto juristas de renome internacional condenavam o ato, uma ala da política brasileira explodia em aplausos.
- Não porque a Venezuela tivesse atacado os EUA.
- Não porque houvesse legítima defesa.
- Não porque existisse aprovação do Conselho de Segurança da ONU.
- Simplesmente porque o inimigo estava caindo, e a fonte desse poder era Washington.
Quem acompanha política internacional há algum tempo reconhece esse padrão.
É sempre assim.
Quando uma ação militar beneficia politicamente certos grupos, a legalidade internacional vira um detalhe menor.
Uma formalidade chata.
Algo para juristas discutirem enquanto os vencedores celebram.
A Violação Descarada da Carta das Nações Unidas
O Artigo 2, Parágrafo 4 da Carta das Nações Unidas, da qual os EUA são signatários, é cristalino: proíbe países de ameaçarem ou usarem a força uns contra os outros.
Esse não é um detalhe burocrático.
É o fundamento da ordem internacional que emergiu das cinzas da Segunda Guerra Mundial.
Criada justamente para evitar que potências militares invadissem países menores quando bem entendessem.
Criada para impedir que voltássemos à barbárie.
E agora estamos voltando. Lentamente, mas com certeza.
Wagner Menezes, professor de direito internacional na USP, explicou o óbvio que parece ter escapado aos celebradores da invasão:
Nenhum Estado dentro do direito pode avocar para si a invasão de um território para prender um estrangeiro e julgá-lo fora de seu país.
Existe um instrumento legal para isso
. Chama-se extradição.
Os EUA escolheram ignorá-la.
Preferiram a força.
E fizeram isso sem o menor constrangimento.
E é aqui que a coisa fica séria.
Se os EUA podem invadir a Venezuela porque querem, por que não poderiam invadir o Brasil amanhã?
É nessas horas que a palavra soberania vira enfeite de palanque, repetida em discursos enquanto o país continua sentado na arquibancada da própria história.
A resposta era para ser óbvia.
Porque há regras internacionais.
Ou havia, até que alguns decidiram que essas regras não se aplicavam a eles.
O Sequestro de um Chefe de Estado: Uma Afronta à Soberania
O que Trump fez foi sequestrar um chefe de Estado.
Não é metáfora.
É exatamente o que ocorreu.
Sylvia Steiner foi direta:
Você não sequestra um chefe de Estado para que ele seja julgado por outro Estado.
Isso não existe.
Mas existe agora, aparentemente.
E há brasileiros aplaudindo.
Aqueles que celebram essa ação deveriam fazer uma pergunta simples a si mesmos: e se fosse o Brasil?
E se um presidente eleito, independentemente de suas falhas, fosse sequestrado por uma potência estrangeira?
Eles ainda aplaudiriam?
Ou finalmente compreenderiam que violaram o princípio fundamental que deveria proteger qualquer nação: a soberania?
Provavelmente continuariam aplaudindo. Desde que fosse um inimigo político.
Raquel Guerra, advogada e doutora em direito internacional pela Uerj, foi precisa:
No caso da Venezuela, quando se tem um governo considerado ilegítimo,
isso não permite que outro venha atacar, isso não permite que um Estado invada a soberania de outro.
Não há nenhuma duvida de que há uma violação ao direito internacional.
Não há dúvida.
Mas há celebração.
Há aplausos.
Há políticos brasileiros dispostos a normalizar a volta do imperialismo descarado.
A Confissão de Trump: O Petróleo, Não a Democracia
Aqui está o detalhe que deveria fazer qualquer político minimamente honesto engasgar.
Trump mencionou petróleo ao menos 7 vezes em sua fala justificando o ataque, enquanto ignorava completamente a democracia.
Isso não é uma coincidência. É uma confissão.
Raquel Guerra apontou o óbvio que os celebradores brasileiros parecem não querer enxergar:
É a primeira vez que se vê um presidente americano afirmando abertamente que o interesse é o petróleo e não a garantia dos direitos humanos ou de salvar a democracia do país atacado.
Quando a Rússia invadiu a Ucrânia, pelo menos tentou invocar o direito internacional.
Mesmo que de forma fraudulenta, mesmo que ridícula, tentou.
Trump nem isso fez.
Ele admitiu, na cara de todos, que a democracia é um pretexto.
O que importa é o poder e os recursos.
E aqueles políticos brasileiros que aplaudiram?
Eles entenderam a mensagem perfeitamente.
Se o Brasil tiver algo que os EUA queiram, e se houver um governo que desagrade Washington, a soberania não importará.
O que importará é quem tem os porta-aviões.
O Precedente Que Deveria Aterrorizar Qualquer Nação Soberana
Wagner Menezes alertou sobre o que deveria ser óbvio:
Aqueles que aplaudem essa ação deveriam repensar sua posição, porque daqui a pouco teriamos repressão no mesmo formato e isso acabar se espalhando pela América Latina.
Ele prosseguiu com uma advertência que ecoa como um grito de alerta:
Argumento de Trump para atacar a Venezuela é um discurso enviesado que cria um espaço de discurso perigoso para justificar intervenção em qualquer lugar do mundo.
E isso torna o mundo um ambiente mais anárquico e mais bárbaro, um mundo mais perigoso, onde a lei do mais forte pode prevalecer.
Mas os políticos de direita brasileiros não querem ouvir.
Estão muito ocupados celebrando.
Estão muito ocupados imaginando um cenário onde, se um dia chegarem ao poder e desagradarem Washington, terão proteção porque foram leais.
Essa é a ilusão que os consome
. A história mostra que não há lealdade com impérios.
Há apenas interesse.
O Enfraquecimento Proposital do Direito Internacional
Flávio Bastos, professor de Direito Internacional na Universidade Presbiteriana Mackenzie, foi contundente:
O sistema do Direito Internacional está muito enfraquecido, praticamente inefetivo.
Ele foi criado pelos próprios agressores de hoje, Rússia e EUA, após as atrocidades ocorridas na Segunda Guerra Mundial.
E eles próprios violam as regras que criaram.
Isso é crucial.
Os mesmos países que criaram o sistema internacional para evitar guerras de agressão agora o destroem quando lhes convém.
E há políticos brasileiros que não apenas aceitam, mas celebram.
Eles estão celebrando o próprio enfraquecimento das proteções que deveriam garantir a segurança de seus compatriotas.
Maristela Basso, professora de direito internacional da USP, resumiu a situação com uma precisão que dispensa comentários:
Agora é geopolitica e geoeconomia.
Elas substituem o que aprendemos no século 20 como direito internacional.
Direito internacional hoje é o direito das grandes potências e como elas se posicionam visando seus próprios interesses.
Traduzindo: voltamos à lei da selva. E há brasileiros aplaudindo.
A Volta ao Imperialismo Descarado
Sylvia Steiner alertou sobre o que está acontecendo:
Nós estamos vendo todo um corpo do Direito Internacional, uma série de convenções internacionais e a própria Carta da ONU de 1945 sendo simplesmente ignoradas.
Isso, para mim, pessoalmente, é algo bastante assustador porque parece, com o aparente paradoxo da expressão, um avanço do retrocesso.
Essa é a realidade.
Estamos testemunhando uma volta ao período anterior à Segunda Guerra Mundial, quando potências militares invadiam países menores sem qualquer justificativa legal.
Quando a força era a única linguagem que importava.
E há políticos brasileiros que não apenas aceitam, mas celebram.
Eles estão celebrando a volta do imperialismo descarado.
Sylvia Steiner prosseguiu:
Há uma volta ao período em que a força era a única linguagem conhecida pelos estados.
Esse movimento, segundo a especialista, veio paulatinamente sendo substituído pelo Direito Internacional para regular as relações e a convivência entre as nações.
É um retrocesso perigosíssimo.
Perigosíssimo.
Não é exagero.
É diagnóstico.
O Julgamento de Fachada: A Ilusão de Legitimidade
Aqueles que celebram a invasão apontam para o julgamento de Maduro nos EUA como prova de legitimidade.
Mas isso é uma ilusão.
Uma fachada.
Sylvia Steiner foi clara:
Diante do atual quadro, nós estamos normalizando a invasão de um país por outro.
É o que, na e xpressão em inglês, se chama de sham trial.
É um julgamento de fachada para tentar dar legitimidade a atos ilegais.
Do ponto de vista jurídico, evidentemente, isso não é possível.
Você não sequestra um chefe de Estado para que ele seja julgado por outro Estado.
Isso não existe.
Um julgamento de fachada.
Isso é o que Trump está oferecendo.
E há políticos brasileiros que acreditam que isso é justiça.
Eles estão dispostos a aceitar que qualquer potência estrangeira pode sequestrar um líder político, trazê-lo para seu território e julgá-lo em seus tribunais.
Desde que seja um inimigo político, claro.
A Confissão Implícita: Eles Apoiariam Uma Invasão do Brasil
Aqui está a verdade incômoda que ninguém quer dizer em voz alta: aqueles políticos que celebraram a invasão da Venezuela estão admitindo que apoiariam uma invasão do Brasil.
Não porque o Brasil seria um ditador.
Não porque haveria uma crise humanitária.
Mas porque seria politicamente conveniente.
Se um presidente brasileiro desagradasse Washington, e se houvesse uma ala política brasileira que pudesse se beneficiar com sua remoção, qual seria o impedimento?
- A lei internacional?
- Já foi violada.
- A soberania nacional?
- Já foi desrespeitada.
- O direito de um povo escolher seu próprio destino?
- Já foi ignorado.
Os políticos de direita que aplaudiram a invasão da Venezuela estão dizendo, sem palavras, que estão dispostos a vender o Brasil para manter o poder.
Estão dizendo que a soberania nacional é um preço aceitável para derrotar um inimigo político.
Estão dizendo que, se os EUA quisessem invadir o Brasil amanhã, eles aplaudiriam, desde que fosse para remover um adversário.
E isso deveria nos assustar.
O Silêncio Ensurdecedor de Quem Deveria Protestar
Enquanto o mundo assiste ao colapso da ordem internacional, há um silêncio ensurdecedor de quem deveria estar gritando.
Não há manifestações de rua.
Não há ocupações de embaixadas.
Não há nem barulho.
Há apenas celebração.
O presidente Lula foi um dos poucos que teve a coragem de chamar a invasão pelo que é:
Os bombardeios em território venezuelano e a captura do seu presidente ultrapassam uma linha inaceitável.
Esses atos representam uma afronta gravíssima à soberania da Venezuela e mais um precedente extremamente perigoso para toda a comunidade internacional.
Atacar países, em flagrante violação do direito internacional, é o primeiro passo para um mundo de violência, caos e instabilidade, onde a lei do mais forte prevalece sobre o multilateralismo.
A declaração foi correta.
Ainda assim, insuficiente diante da gravidade do precedente. Porque há pressão.
Há ameaças.
Há a possibilidade de retaliação econômica.
E há políticos brasileiros que estão dispostos a sacrificar a soberania nacional para evitar essas consequências.
O Cálculo Cínico: Poder Agora, Consequências Depois
O cálculo dos políticos de direita que celebraram a invasão é simples e cínico: ganhar poder agora, lidar com as consequências depois.
Se conseguirem usar a queda de Maduro para se reposicionar politicamente, para ganhar apoio de Washington, para fortalecer sua base, valerá a pena ter violado princípios fundamentais da soberania nacional.
Mas há um problema com esse cálculo.
Flávio Bastos alertou:
O ataque dos EUA à Venezuela é mais um sintoma da configuração de um cenário internacional bastante inseguro para os próximos anos. Se os protagonistas não querem aplicar as regras, você tem um sistema que não tem mais contenção.
Nós estamos partindo para um novo mundo.
Esse novo mundo não tem regras.
Nesse novo mundo, o Brasil não tem proteção.
Nesse novo mundo, qualquer potência estrangeira pode fazer o que quiser, desde que tenha força militar suficiente.
E aqueles políticos que celebraram a invasão da Venezuela estão ajudando a construir esse novo mundo.
Estão ajudando a destruir as proteções que deveriam garantir a segurança de seus próprios compatriotas.
A Ilusão da Lealdade Americana
Há uma ilusão que persegue a direita brasileira há décadas: a de que, se forem leais aos EUA, se apoiarem suas políticas, se celebrarem suas ações, serão protegidos.
- Serão parte do clube.
- Serão privilegiados.
- Mas a história mostra algo diferente.
- Potências imperiais não têm amigos.
- Têm apenas interesses.
E quando esses interesses mudam, os aliados são descartados sem hesitação.
Os políticos brasileiros que estão apostando sua credibilidade e a soberania de seu país nessa lealdade estão cometendo um erro estratégico monumental.
- Esse tipo de argumento não é novo.
- Já apareceu outras vezes na história.
- Sempre com o mesmo resultado: desastre.
O Voto Que Condenará a História
Quando a história julgar essa época, ela não será gentil com aqueles que celebraram a invasão da Venezuela.
Ela não será gentil com aqueles que escolheram o poder sobre a soberania.
Ela não será gentil com aqueles que aplaudiram a volta do imperialismo descarado.
No fim, é isso.
O resto é distração.
Não é sobre Maduro.
Não é sobre a democracia na Venezuela.
É sobre o direito de qualquer nação de existir sem ser invadida por uma potência estrangeira.
É sobre o direito de qualquer povo de escolher seu próprio destino, mesmo que escolha mal.
Wagner Menezes resumiu:
Argumento de Trump para atacar a Venezuela é um discurso enviesado que cria um espaço de discurso perigoso para justificar intervenção em qualquer lugar do mundo.
E isso torna o mundo um ambiente mais anárquico e mais bárbaro, um mundo mais perigoso, onde a lei do mais forte pode prevalecer.
O que hoje é celebrado como vitória política amanhã cobra um preço real.
Sempre cobra.
E há políticos brasileiros que parecem não compreender que estão assinando um cheque que o Brasil vai pagar.
A Confissão Final
Quando esses políticos de direita celebraram a invasão da Venezuela, eles fizeram mais do que apoiar uma ação militar.
Eles confessaram.
Confessaram que não defendem o Brasil.
Defendem apenas o poder.
E estão dispostos a vender a soberania nacional para manter o controle político.
Se os EUA quisessem invadir o Brasil amanhã, eles aplaudiriam.
Desde que fosse para derrotar um inimigo político.
A máscara caiu.
E o que se vê por trás dela é apenas oportunismo.
Cinismo.
Uma disposição assustadora de sacrificar o bem comum pelo ganho político imediato.
Talvez o mais perturbador seja perceber que isso não causou indignação suficiente.
Nem espanto.
Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Portal 7Minutos.
Por: Luiz Cláudio Cavalcante
Luiz Cavalcante é jornalista, escritor e servidor público, com mais de uma década de atuação na comunicação institucional e na produção de conteúdo jornalístico
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