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A política externa dos EUA

IRAQUE, IRÃ E O RISCO DO ATOLEIRO ESTRATÉGICO

LIÇÕES HISTÓRICAS PARA A POLÍTICA EXTERNA DOS ESTADOS UNIDOS

O presente artigo analisa a política externa dos Estados Unidos no Oriente Médio a partir da experiência do Iraque no período pós-Guerra do Golfo de 1991, conforme discutido em artigo recente da revista Foreign Affairs.

O objetivo é examinar os limites da estratégia baseada na combinação de contenção militar, sanções econômicas e mudança de regime sem ocupação direta.

A análise evidencia os principais problemas enfrentados pelas administrações norte-americanas, como a ausência de uma saída diplomática credível, o desgaste da legitimidade internacional e a crescente dependência de instrumentos coercitivos.

A partir dessa base histórica, o artigo discute o risco de reprodução desse modelo no contexto contemporâneo envolvendo o Irã, destacando a possibilidade de configuração de um “atoleiro estratégico” análogo, em lógica, às experiências do Vietnã e do Afeganistão.

Conclui-se que a ausência de uma estratégia política clara e alcançável pode comprometer a eficácia do poder militar, conduzindo a conflitos prolongados e de difícil resolução.

Palavras-chave:

  • Política externa;
  • Estados Unidos;
  • Iraque;
  • Irã;
  • contenção;
  • mudança de regime;
  • geopolítica.

 

ABSTRACT

This article analyzes United States foreign policy in the Middle East based on the post-1991 Gulf War experience in Iraq, as discussed in a recent Foreign Affairs article.

The objective is to examine the limits of a strategy combining military containment, economic sanctions, and regime change without direct occupation.

The analysis highlights key challenges faced by U.S. administrations, including the absence of a credible diplomatic exit, erosion of international legitimacy, and increasing reliance on coercive instruments. Building on this historical framework, the article discusses the risk of replicating this model in the contemporary context involving Iran, emphasizing the potential emergence of a strategic quagmire analogous, in logic, to the Vietnam and Afghanistan experiences. It concludes that the absence of a clear and achievable political strategy undermines the effectiveness of military power and may lead to prolonged and unresolved conflicts.

Keywords: Foreign policy; United States; Iraq; Iran; containment; regime change; geopolitics.

1 INTRODUÇÃO

Com base na análise desenvolvida por Chardell e Helfont (2026), publicada na revista Foreign Affairs, observa-se que a política externa dos Estados Unidos no Oriente Médio, após a Guerra do Golfo de 1991, foi marcada por uma contradição fundamental entre objetivos estratégicos e meios empregados.

Segundo os autores, Washington buscou simultaneamente conter o Iraque, evitar uma ocupação prolongada e promover a mudança de regime — um conjunto de objetivos que se mostrou incompatível na prática.

Essa estratégia gerou um impasse prolongado, caracterizado por sanções econômicas, presença militar contínua e uso recorrente da força, sem que houvesse uma solução política duradoura. O presente artigo analisa esse processo histórico e discute seus desdobramentos, especialmente no que se refere ao risco de sua reprodução no contexto contemporâneo envolvendo o Irã.

 

2 A CONTRADIÇÃO ESTRATÉGICA DO PÓS-1991

Após a vitória militar na Guerra do Golfo, os Estados Unidos optaram por não derrubar o regime de Saddam Hussein. Essa decisão criou um dilema estratégico: o Iraque deveria ser contido, mas sem que os custos de uma ocupação fossem assumidos.

Conforme destacado por Chardell e Helfont (2026), essa escolha levou à construção de um modelo de contenção sustentado por presença militar permanente no Golfo, incluindo bases no Bahrein, Catar, Arábia Saudita e Kuwait. Embora eficaz no plano operacional, essa estratégia não resolveu o problema político central: a permanência de um regime considerado inaceitável por Washington.

 

3 SANÇÕES, LEGITIMIDADE E DESGASTE INTERNACIONAL

Outro aspecto fundamental foi o uso intensivo de sanções econômicas. Como apontam os autores, tais sanções impactaram severamente a população civil iraquiana, sem comprometer significativamente o núcleo do regime.

Esse cenário gerou crescente desconforto internacional. Países aliados passaram a se distanciar da política americana, recusando apoio a operações militares ou abandonando mecanismos multilaterais.

Esse processo evidencia um problema recorrente: quando os instrumentos de coerção produzem efeitos humanitários adversos, a legitimidade da estratégia tende a se deteriorar.

 

4 A AUSÊNCIA DE UMA SAÍDA DIPLOMÁTICA

Um dos pontos centrais do texto analisado é a inexistência de uma “porta de saída” credível para o Iraque. A declaração de Albright (1997) demonstra que o cumprimento das obrigações internacionais não seria suficiente para o levantamento das sanções, indicando que o objetivo americano era, de fato, a mudança de regime.

A institucionalização dessa política por meio do Iraq Liberation Act de 1998 consolidou um impasse estratégico. Sem garantias de sobrevivência política, o regime iraquiano não possuía incentivos para cooperar plenamente. Essa dinâmica inviabilizou soluções diplomáticas e perpetuou o conflito em estado latente.

 

5 A MILITARIZAÇÃO DO IMPASSE

A ausência de solução política levou à intensificação do uso da força como instrumento de gestão do conflito. A Operação Desert Fox, em 1998, exemplifica esse padrão: uma ação militar significativa, mas incapaz de alterar a estrutura do problema.

Segundo Ball (1998), tais operações demonstram a transição de uma estratégia de resolução para uma estratégia de contenção ativa, na qual o objetivo passa a ser administrar o conflito, e não solucioná-lo.

 

6 O RISCO DO “NOVO VIETNÔ OU “NOVO AFEGANISTÃO”

A análise histórica permite identificar um padrão recorrente na atuação dos Estados Unidos: a incapacidade de converter superioridade militar em estabilidade política. Esse padrão foi evidente no Vietnã, no Afeganistão e, de forma distinta, no Iraque pós-1991.

O conceito de “atoleiro estratégico” emerge nesse contexto. Trata-se de uma situação em que a potência militar mantém capacidade de intervenção e controle parcial, mas não consegue alcançar um desfecho político satisfatório.

Conforme alertam Chardell e Helfont (2026), a aplicação dessa lógica ao caso iraniano pode produzir efeitos semelhantes, incluindo instabilidade interna, repressão e crise humanitária.

O risco não é necessariamente uma repetição literal dos conflitos passados, mas a reprodução de sua lógica estrutural.

 

7 IRÃ E OS LIMITES DA COERÇÃO

O Irã apresenta características que tornam esse risco ainda mais relevante. Trata-se de um Estado com maior coesão institucional e capacidade de projeção regional, o que dificulta estratégias baseadas exclusivamente em pressão externa.

A insistência em mudança de regime, sem uma via diplomática clara, tende a reproduzir o padrão observado no Iraque: prolongamento do conflito, aumento dos custos e redução da legitimidade internacional.

8 CONCLUSÃO

A experiência do Iraque no período pós-1991 evidencia os limites de uma estratégia baseada na combinação de contenção, coerção e mudança de regime sem definição clara de objetivos alcançáveis.

A principal lição histórica é que o poder militar, isoladamente, não garante resultados políticos duradouros. Sua eficácia depende da existência de uma estratégia coerente, que inclua mecanismos de saída e possibilidades reais de normalização.

No contexto contemporâneo, a eventual repetição desse modelo em relação ao Irã pode conduzir a um novo tipo de atoleiro estratégico, caracterizado não pela derrota militar, mas pela incapacidade de encerrar o conflito em termos políticos sustentáveis.

REFERÊNCIAS

ALBRIGHT, Madeleine. Statement on Iraq. Washington, D.C.: U.S. Department of State, 1997.

BALL, Gregory. Operation Desert Fox. Washington, D.C.: Air Force Historical Support Division, 1998.

CHARDELL, Daniel; HELFONT, Samuel. How a cease-fire can lead to disaster: the First Gulf War’s lessons for what to do—and not do—in Iran. New York: Foreign Affairs, 2026.

UNITED STATES. Iraq Liberation Act of 1998. Public Law 105-338. Washington, D.C., 1998.

Por: Carlos Marcelo Cardoso Fernandes – Cel Int Aer R1

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Essa estratégia gerou um impasse prolongado, caracterizado por sanções econômicas, presença militar contínua e uso recorrente da força, sem que houvesse uma solução política duradoura.
A principal lição histórica é que o poder militar, isoladamente, não garante resultados políticos duradouros.
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  • Marcelo Fernandes

    Coronel Intendente da Reserva da Aeronáutica; Administrador de Empresas; Especialista em Orçamento, Planejamento e Gestão Pública; Especialista em Logística Empresarial. Hoje é tambem uma grande autoridade no assundo de Drones e suas legislações do bom uso.

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