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Afeganistão x Paquistão:

Quando a geopolítica começa a parecer Homeland

A recente escalada militar entre Afeganistão e Paquistão ultrapassou o estágio de incidentes fronteiriços e entrou oficialmente no campo da “guerra aberta”.

Conforme declarado pelo próprio ministro da Defesa paquistanês após ataques aéreos contra Cabul, Kandahar e outras posições estratégicas do regime talibã.

O episódio pode parecer roteiro de série — algo digno de Carrie Mathison e Saul Berenson,  mas, desta vez, o risco estratégico é real e potencialmente sistêmico.

O que está acontecendo agora

O conflito atual nasce de um ciclo clássico de retaliação transfronteiriça:

  • O Paquistão acusa o Afeganistão de abrigar o Tehreek-e-Taliban Pakistan (TTP), grupo responsável por ataques terroristas em território paquistanês;
  • Cabul nega apoio direto, mas respondeu militarmente a bombardeios anteriores;
  • Islamabad lançou então a operação militar Ghazab Lil Haqq (“Fúria Justa”), atingindo inclusive áreas próximas ao núcleo político do Talibã.

Ambos os lados relatam centenas de mortos, embora os números permaneçam impossíveis de verificar independentemente.

O ponto crítico: não se trata mais de milícias — mas de forças estatais combatendo diretamente.

O fator que muda tudo: armas nucleares

Diferentemente do Afeganistão, o Paquistão é potência nuclear desde 1998.

Isso transforma um conflito regional em risco global imediato.

Qualquer deterioração prolongada pode gerar três efeitos em cascata:

1. Oportunidade estratégica para a Índia
A rivalidade Índia–Paquistão permanece uma das mais perigosas do planeta.
A região da Caxemira, disputada desde 1947, possui valor estratégico vital porque controla importantes nascentes de água doce utilizadas pela Índia. Um Paquistão militarmente pressionado no oeste poderia abrir espaço para pressões indianas no leste.

Resultado possível: ➡️ crise bilateral nuclear simultânea.

 

2. Internacionalização do conflito

Grandes potências já observam o cenário: Rússia busca manter influência na Ásia Central;

China possui investimentos estratégicos no Paquistão (Corredor Econômico China-Paquistão);
Irã e países do Golfo temem instabilidade regional;

Os EUA acompanham diplomaticamente o conflito, mantendo diálogo com Islamabad.

Historicamente, conflitos naquela fronteira raramente permanecem locais.

 

3. O retorno do “Grande Jogo”

A atual fronteira Afeganistão–Paquistão deriva da Linha Durand, criada no século XIX como zona tampão entre impérios britânico e russo — o antigo Great Game.

Paradoxalmente, o mesmo espaço volta a assumir função semelhante:
zona de fricção entre potências nucleares, interesses energéticos e rotas estratégicas euro-asiáticas.

A ironia estratégica é que o Paquistão foi durante décadas um dos principais apoiadores indiretos do Talibã.

Hoje enfrenta justamente grupos insurgentes ideologicamente derivados desse mesmo ambiente.

É o clássico fenômeno geopolítico do “blowback”,  quando instrumentos de política externa retornam como ameaça interna.

Cenário prospectivo

Três caminhos são plausíveis no curto prazo:

Escalada limitada

  • Ataques aéreos e artilharia permanecem localizados.
  • Regionalização (cenário preocupante)
  • Índia eleva pressão na Caxemira.

Crise estratégica ampliada (cenário crítico)

 

Envolvimento indireto de Rússia, China ou EUA.

  • A impressão de que “a vida está imitando a arte” não é exagero.
  • A diferença é que, ao contrário das séries de inteligência, como em Homeland (da Carrie Matinson e do Saul Berenson) não existe roteiro controlado quando duas regiões insurgentes se encontram com arsenais nucleares ao redor.
  • O atual confronto Afeganistão–Paquistão pode ser apenas mais uma crise fronteiriça,  ou o primeiro movimento de uma nova instabilidade estratégica no coração da Ásia.

E, historicamente, é exatamente assim que grandes crises começam.

 

Por:  Gildo Ribeiro
Redação 7Minutos — Brasília

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O Paquistão acusa o Afeganistão de abrigar o Tehreek-e-Taliban Pakistan (TTP), grupo responsável por ataques terroristas em território paquistanês

 

Islamabad lançou então a operação militar Ghazab Lil Haqq (“Fúria Justa”), atingindo inclusive áreas próximas ao núcleo político do Talibã.

A atual fronteira Afeganistão–Paquistão deriva da Linha Durand, criada no século XIX como zona tampão entre impérios britânico e russo — o antigo Great Game.
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  • Gildo Ribeiro

    Gildo Ribeiro é editor do Grupo 7 de Comunicação, liderado pelo Portal 7 Minutos, uma plataforma de notícias online.

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