Taiwan ocupa uma posição singular
Semicondutores, Geopolítica e Risco Sistêmico:
Taiwan como Infraestrutura “Crítica Invisível” da Economia Global
A escalada de conflitos globais — do Mar Negro ao Oriente Médio, passando pelo Indo-Pacífico e alcançando também a América do Sul, onde a situação da Venezuela tem sido marcada por tensões geopolíticas relevantes, incluindo sanções econômicas, disputas diplomáticas e presença militar indireta de potências extrarregionais — tem um traço comum: ela pressiona aquilo que sustenta silenciosamente quase todas as economias modernas, o chamado core tecnológico, formado por semicondutores, chips, capacidade de pesquisa e desenvolvimento (P&D) e manufatura avançada.
Nesse tabuleiro, Taiwan ocupa uma posição singular: não se trata apenas de mais um polo industrial, mas de um ponto de concentração sistêmica, cuja relevância extrapola fronteiras nacionais e setores econômicos.
Estudos e análises de mercado indicam que Taiwan detém uma parcela preponderante da capacidade global de fabricação de semicondutores, com estimativas de que a ilha responda por cerca de 60% da capacidade total de fabricação global (foundry) em todos os nodes tecnológicos, consolidando-se como o principal polo internacional de produção de chips.
Essa concentração torna-se ainda mais aguda quando se observam os semicondutores tecnologicamente mais avançados, nos quais Taiwan detém mais de 90% da participação global, especialmente em processos de litografia de altíssima complexidade utilizados em componentes para inteligência artificial (IA), data centers e dispositivos móveis de última geração.
A Taiwan Semiconductor Manufacturing Company (TSMC), maior empresa de foundry do mundo, ilustra esse domínio ao capturar entre 64% e mais de 70% do mercado global de wafer foundry puro em anos recentes, reforçando sua posição central na cadeia produtiva internacional.
Essa assimetria estrutural configura um gargalo estratégico clássico: elevada concentração em segmentos de tecnologia avançada com baixíssima substituibilidade no curto e médio prazo, devido aos custos extraordinariamente elevados, à complexidade técnica e aos longos ciclos de investimento necessários para ampliar ou replicar essa capacidade em outras regiões.
A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) complementa esse diagnóstico ao demonstrar por que choques nesse segmento transbordam para múltiplos setores.
Os semicondutores são insumos amplamente utilizados nos setores de telecomunicações e eletrônicos. O valor agregado associado aos chips pode representar cerca de 8% da demanda final, proporção comparável — e, em alguns segmentos, superior — à de insumos energéticos.
Ademais, a organização destaca que a cadeia é geograficamente concentrada, com poucas economias respondendo pela maior parte do valor adicionado global.
Em termos práticos, quando o chip falha, não falha apenas um setor; falha a base que sustenta telecomunicações, data centers e IA, indústria automotiva, eletroeletrônicos, manufatura avançada (indústria 4.0), infraestrutura crítica e defesa.
Essa centralidade não é apenas produtiva; é também cognitiva e tecnológica. Relatórios recentes indicam que Taiwan consolidou-se como um hub estratégico de P&D e engenharia de hardware, abrigando centros avançados de pesquisa e desenvolvimento de grandes empresas globais, além de expansões recentes em data centers e laboratórios de engenharia. Essa densidade do ecossistema amplia a eficiência em tempos de normalidade, mas magnifica o impacto global de qualquer choque disruptivo.
O Banco Mundial, ao analisar cadeias globais de valor no setor eletrônico, ressalta que a arquitetura predominante — fragmentada, modular e altamente especializada — é particularmente eficiente sob condições de estabilidade, mas estruturalmente frágil diante de choques geopolíticos, sanitários ou logísticos.
A relocalização (reshoring) ou substituição rápida de fornecedores, especialmente em semicondutores, revela-se limitada não apenas por custos, mas por restrições técnicas, regulatórias e de tempo.
Diante desse contexto, a análise de cenários prospectivos não constitui exercício especulativo, mas instrumento essencial de governança de risco para organizações públicas e privadas intensivas em tecnologia.
No cenário leve, prevalece a tensão controlada: retórica política mais assertiva, demonstrações de força, exercícios militares e sanções seletivas.
O impacto principal é logístico e financeiro, não produtivo. Observam-se elevação de prêmios de seguro, cautela de compradores, recomposição de estoques, redirecionamento de cargas e maior volatilidade nos prazos de entrega.
Ainda assim, mesmo nesse cenário, a cadeia de semicondutores já se mostra vulnerável em razão de sua elevada concentração e dos altos custos fixos, conforme destacado pela OCDE.
Para telecomunicações e data centers, isso se traduz em atrasos na entrega de equipamentos, aumento de preços e alongamento dos ciclos de renovação tecnológica; no setor automotivo e eletroeletrônico, em ajustes de produção e repasse de custos.
No cenário intermediário, emerge uma dinâmica de bloqueio parcial ou “quarentena” econômica, com restrições mais severas aos fluxos marítimos e aéreos, sanções cruzadas e controles de exportação de tecnologias sensíveis.
Nesse contexto, a fricção transforma-se em escassez localizada: não apenas chips avançados, mas também componentes em geral, serviços de encapsulamento e testes, insumos químicos e gases industriais entram em regimes de alocação.
Empresas migram do paradigma just-in-time para o just-in-case. A literatura sobre semicondutores enfatiza que a fabricação de wafers é um processo longo, intensivo e com ciclos de semanas, o que limita a capacidade de resposta rápida.
O efeito prático é conhecido: atrasos em cascata, filas de produção, redesigns, recertificações regulatórias e pressão significativa sobre custos e cronogramas.
Nesse estágio, a pergunta central deixa de ser “quanto vai encarecer?” e passa a ser “haverá disponibilidade suficiente para manter operações críticas?”
No cenário drástico, ocorre uma paralisação significativa ou prolongada da produção em Taiwan, seja por conflito aberto, seja por interrupções logísticas duradouras.
Trata-se de um cenário de baixa probabilidade no curto prazo, mas de altíssimo impacto sistêmico.
Considerando a posição de Taiwan como principal polo global de capacidade produtiva e quase monopólio em chips avançados, uma ruptura prolongada implicaria um choque macroeconômico global, com efeitos profundos sobre produtividade, inovação, inflação e crescimento.
Estudos citados por organismos internacionais indicam que a realocação dessa capacidade demandaria anos, não meses, e envolveria custos extraordinários.
Nesse cenário, governos e grandes organizações tenderiam a priorizar setores estratégicos, redesenhar políticas industriais e operar, por um período prolongado, com menor eficiência tecnológica estrutural.
A própria OCDE tem enfatizado que mitigar vulnerabilidades não se resume a “produzir mais”, mas envolve diversificação geográfica, transparência, coordenação internacional e gestão de dependências ao longo de múltiplos elos da cadeia.
O ponto central, portanto, é inequívoco: os semicondutores tornaram-se uma infraestrutura invisível, tão essencial quanto energia, logística e sistemas financeiros para a economia contemporânea. Taiwan, por sua concentração produtiva e densidade de P&D, é hoje um dos principais pilares dessa infraestrutura.
Para gestores de tecnologia, conselhos de administração e formuladores de políticas públicas, a resposta racional não é o alarmismo, mas a gestão estratégica do risco: mapear dependências profundas, inclusive de fornecedores de segundo e terceiro níveis; definir estoques estratégicos de componentes críticos; diversificar fontes e rotas; exigir transparência em mudanças de componentes e, sobretudo, planejar a continuidade operacional em um ambiente no qual choques geopolíticos deixaram de ser exceção e passaram a integrar o contexto estrutural da economia global.
Autores Taiwan e a geopolítica dos semicondutores. Imagem IA 7Minutos
Carlos Marcelo C. Fernandes – Cel Int Aer R1
Dane Marcos Avanzi – Advogado
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