a crise venezuelana
Venezuela, Guerra Híbrida e Negociação Assimétrica
A Reatualização da Doutrina Monroe no Século XXI

Neste artigo examinamos a crise venezuelana como um caso paradigmático de guerra híbrida e de reatualização funcional da Doutrina Monroe.
Sustenta-se que a negociação, longe de representar conciliação, constitui instrumento central de coerção estratégica, operando de forma assimétrica e intrassistêmica.,
Analisa-se o leque real de opções disponíveis aos Estados Unidos, bem como os principais atores internos e externos envolvidos, distinguindo-se entre interlocutores decisórios, atores funcionais e agentes legitimadores.
Conclui-se que a Venezuela se converteu em laboratório de gestão indireta de transições políticas em contexto multipolar.
1. Introdução
A política internacional contemporânea caracteriza-se pela redução relativa do emprego direto da força militar e pela expansão de instrumentos indiretos de coerção.
Sanções econômicas, isolamento diplomático, judicialização transnacional, operações de informação e pressão seletiva sobre elites passaram a compor o núcleo das estratégias das grandes potências.
Nesse ambiente, a América Latina reassume centralidade estratégica para os Estados Unidos.
Não como teatro de ocupação, mas como espaço de negação geopolítica à presença de potências extra-hemisféricas.
A Venezuela emerge, nesse contexto, como um dos casos mais relevantes para compreender a aplicação prática da guerra híbrida e da nova Doutrina Monroe.
2. Guerra híbrida como lógica dominante
A guerra híbrida pode ser definida como o emprego coordenado de instrumentos militares latentes e não militares ativos, visando moldar decisões políticas do adversário sem confronto direto.
Seu objetivo não é a destruição do Estado-alvo, mas a manipulação de seus equilíbrios internos.
No caso venezuelano, essa lógica manifesta-se por meio de:
- sanções econômicas prolongadas e calibradas;
- restrições financeiras e de mobilidade individualizadas;
- pressão jurídica internacional (lawfare);
- isolamento diplomático seletivo;
- estímulo indireto à fragmentação intrarregime.
A negociação, nesse modelo, não interrompe a coerção.
Ela a reorganiza, transformando punições em instrumentos condicionais de barganha.
3. A nova Doutrina Monroe: continuidade estratégica, mutação operacional
A Doutrina Monroe, proclamada em 1823, afirmava a oposição dos Estados Unidos à interferência externa no hemisfério ocidental.
Embora suas formas tenham mudado, sua essência persiste.
No século XXI, a doutrina não se expressa por intervenções armadas, mas por três eixos operacionais:
- Negação de presença estratégica de potências extra-hemisféricas;
- Uso intensivo de instrumentos econômicos, financeiros e jurídicos;
Gestão indireta de rearranjos políticos internos.
A Venezuela é particularmente sensível nesse quadro, tanto por sua posição geográfica quanto por seus vínculos externos.
A política norte-americana para o país deve ser entendida menos como promoção idealizada da democracia e mais como contenção geopolítica funcional.
4. Negociação como instrumento de coerção
Em contextos de guerra híbrida, a negociação é estruturalmente assimétrica. Um lado controla:
acesso ao sistema financeiro internacional;
- reconhecimento diplomático;
- alívio ou intensificação de sanções.
O outro negocia sob ameaça permanente de isolamento, colapso econômico ou judicialização pessoal.
Assim, a negociação passa a ser continuação da coerção por outros meios, não sua negação.
Os Estados Unidos, nesse cenário, não buscam parceiros ideais, mas interlocutores capazes de entregar resultados parciais, verificáveis e reversíveis.
5. Opções reais de negociação dos EUA
O leque de opções disponíveis a Washington é estreito e hierarquizado:
5.1 Interlocução com o polo tecnocrático-institucional
Trata-se da opção preferencial. Esse polo controla a máquina do Estado, a diplomacia e a legalidade formal, sendo altamente sensível à coerção externa. Permite transições graduais, ainda que imperfeitas.
5.2 Canais com o polo militar
Mantidos de forma indireta e desconfiada. O objetivo principal é neutralizar vetos, evitar rupturas violentas e aumentar a insegurança estratégica dos demais polos, não delegar liderança política.
5.3 Exclusão do polo ideológico-radical
Atores excessivamente ideologizados e alinhados a potências rivais são deliberadamente excluídos como parceiros centrais, sendo tratados como risco a ser contido.
5.4 Inclusão instrumental da oposição
A oposição não decide, mas legitima. Atua como componente institucional, eleitoral e narrativa em fases posteriores do processo.
6. Atores centrais do tabuleiro venezuelano
Delcy Rodríguez
Interlocutora executiva e institucional. Controla a burocracia estatal e os canais diplomáticos. É o ator negociável por excelência na lógica da coerção híbrida.
Jorge Rodríguez
Arquiteto político e operador constitucional. Atua como estrategista e alternativa sucessória, garantindo continuidade e adaptação do regime.
Vladimir Padrino López
Representa o polo militar. Essencial para estabilidade coercitiva, mas considerado parceiro contingencial e não confiável para liderar transições.
Diosdado Cabello
Expressa o polo ideológico-radical. Alto custo reputacional e baixa previsibilidade. Não negociável como ator central.
Nicolás Maduro
Antigo centro de gravidade do regime. Sua neutralização política, real ou simbólica, permite a fragmentação explorável do sistema de poder.
Tareck El Aissami
Tentativa fracassada de projeção como alternativa negociável, descartada por alinhamentos externos considerados inaceitáveis.
7. Atores externos e mediadores
Donald Trump
Decisor político máximo. Opera a coerção estratégica e define os limites da negociação a partir de posição de força.
Marco Rubio
Articulador político da política hemisférica. Figura-chave na reatualização prática da Doutrina Monroe.
Catar
Mediador indireto e canal diplomático discreto, reduzindo custos políticos diretos.
8. A oposição: limites e utilidade estratégica
A oposição venezuelana não controla meios coercitivos nem a máquina estatal. Por isso, não é ator decisório central. Contudo, é indispensável para:
- legitimação internacional mínima;
- engenharia eleitoral e institucional;
- composição de governos de convivência em fases posteriores.
Na lógica da guerra híbrida, a oposição é ator legitimador, não condutor do processo.
9. Riscos e limites da estratégia
A negociação assimétrica pode gerar:
- autoritarismo adaptativo;
- reformas superficiais;
- frustração democrática.
Ainda assim, para Washington, esses riscos são considerados administráveis quando comparados à alternativa de intervenção militar direta ou à consolidação de presença estratégica rival no hemisfério.
10. Conclusão
A Venezuela exemplifica a forma contemporânea de exercício do poder geopolítico. A guerra híbrida substitui a invasão, a negociação substitui o ultimato e a Doutrina Monroe reaparece sem ser proclamada.
A transição política, se ocorrer, será intrassistêmica, gradual e funcional aos equilíbrios hemisféricos.
Nesse contexto, negociar não é recuar. É governar o conflito.
Por Cel Marcelo Fernandes
Coronel Intendente da Reserva da Aeronáutica; Administrador de Empresas; Especialista em Orçamento, Planejamento e Gestão Pública; Especialista em Logística Empresarial.
Hoje é tambem colunista do Portal 7Minutos
Referências Bibliográficas
HOFFMAN, Frank G. Conflict in the 21st Century: The Rise of Hybrid Wars. Potomac Institute, 2007.
KORYBKO, Andrew. Hybrid Wars. Moscow: PFUR, 2015.
MEARSHEIMER, John J. The Tragedy of Great Power Politics. New York: W. W. Norton, 2001.
NYE, Joseph S. Soft Power. New York: PublicAffairs, 2004.
PECEQUILO, Cristina Soreanu. A Política Externa dos Estados Unidos. Porto Alegre: UFRGS, 2011.
SMITH, Peter H. Talons of the Eagle. Oxford: Oxford University Press, 2013.
WALT, Stephen M. The Hell of Good Intentions. New York: Farrar, Straus and Giroux, 2018.
Siga o ‘ 7Minutos’ nas redes sociais
X (ex-Twitter)
Instagram
Facebook
Truth Social




