CARNE sem BOI?
JBS avança na PROTEÍNA CULTIVADA e abre um DEBATE que o BRASIL precisa FAZER
Nutricionista LUA FERRARI chama atenção para os investimentos da gigante brasileira em carne cultivada; documentos da própria JBS confirmam pesquisas, centro de biotecnologia em Florianópolis e aposta milionária na tecnologia
Parece ficção científica, mas não é.
Uma das maiores empresas de proteína animal do planeta está investindo em uma tecnologia capaz de produzir tecido de origem animal sem que seja necessário criar e abater um boi inteiro para obtê-lo.
A JBS está apostando na chamada carne cultivada, produzida a partir da multiplicação de células animais em ambiente controlado.
O assunto ganhou repercussão após a nutricionista Lua Ferrari, criadora do método Ketabolismo e defensora das dietas low-carb, cetogênica e carnívora, publicar um vídeo com uma provocação direta:
A JBS está fazendo carne sem boi — e eu sei como isso termina.
A frase é provocativa.
Mas, por trás dela, existe uma transformação real acontecendo na indústria mundial de alimentos.
E o Brasil precisa conhecê-la antes de decidir se deseja colocá-la no prato.
NÃO É BOATO: A JBS ESTÁ INVESTINDO NESSA TECNOLOGIA
Os investimentos são públicos.
A própria JBS anunciou que iniciou sua entrada nesse mercado em 2021, quando adquiriu o controle da espanhola BioTech Foods, empresa especializada em proteína cultivada.
Posteriormente, a companhia anunciou investimentos para criar em Florianópolis, Santa Catarina, um grande centro brasileiro de pesquisa em biotecnologia de alimentos e proteína cultivada.
Em abril de 2026, a JBS inaugurou na capital catarinense a JBS Biotech, estrutura com mais de 4 mil metros quadrados e mais de 20 laboratórios especializados.
Portanto, não estamos falando apenas de uma hipótese para um futuro distante.
- Existe laboratório.
- Existe investimento.
- Existe tecnologia sendo desenvolvida.
- Existe estratégia empresarial.
Mas existe uma diferença fundamental que precisa ficar muito clara:
pesquisar e desenvolver carne cultivada não significa que esse produto esteja hoje sendo vendido livremente nos supermercados brasileiros.
Essa distinção é essencial para que um debate legítimo não seja transformado em desinformação.
AFINAL, COMO SE PRODUZ “CARNE SEM BOI”?
- O nome popular pode causar confusão.
- Carne cultivada não é simplesmente uma mistura vegetal tentando imitar carne.
- O princípio tecnológico é diferente.
Células provenientes de animais são selecionadas e cultivadas em condições controladas, recebendo nutrientes necessários para sua multiplicação.
Em grandes sistemas de cultivo celular — incluindo biorreatores — essas células podem proliferar e formar componentes utilizados na produção de alimentos.
Em outras palavras:
em vez de esperar o animal nascer, crescer e posteriormente ser abatido para retirar sua musculatura, a indústria pretende cultivar células capazes de originar tecido animal.
É uma mudança gigantesca na lógica de produção de proteínas.
O QUE A PRÓPRIA JBS PRETENDE?
Documentos e comunicados da empresa mostram que o objetivo das pesquisas é justamente tornar a produção de proteína cultivada mais eficiente, escalável e economicamente competitiva.
A companhia também informou anteriormente que produtos futuros poderiam aparecer na forma de alimentos preparados, incluindo hambúrgueres e almôndegas.
Isso revela uma questão muito maior do que simplesmente perguntar se alguém teria coragem de experimentar um hambúrguer produzido dessa maneira.
Estamos falando sobre como poderá funcionar parte da indústria mundial de alimentos nas próximas décadas.
LUA FERRARI LEVANTA O SINAL DE ALERTA
É exatamente nesse ponto que entra a crítica apresentada pela nutricionista Lua Ferrari.
Ela estabelece um paralelo histórico com outro produto que durante décadas ocupou espaço enorme nas mesas: a margarina.
É importante fazer uma ressalva científica:
- carne cultivada e margarina são produtos completamente diferentes.
A comparação não pode ser feita como se fossem nutricional ou tecnologicamente equivalentes.
O paralelo levantado por Ferrari é outro:
- tecnologias alimentares podem ser apresentadas como grandes avanços em determinado momento histórico e posteriormente serem revistas conforme surgem novos conhecimentos.
Existe um exemplo verdadeiro nessa história.
O Brasil proibiu, a partir de 2023, o uso de óleos e gorduras parcialmente hidrogenados, que eram a principal fonte industrial de gordura trans.
Isso não significa que “a margarina foi proibida”.
Margarinas continuam sendo comercializadas.
O que foi eliminado foi aquele ingrediente específico.
Essa diferença é fundamental.
E A CARNE CULTIVADA? JÁ SABEMOS TUDO SOBRE ELA?
Não.
E provavelmente este seja o ponto mais importante de toda a discussão.
A tecnologia é relativamente nova quando comparada aos séculos de consumo humano de carnes convencionais.
Uma revisão científica publicada em 2025 no The Journal of Nutrition destacou que ainda existem desafios relacionados à qualidade nutricional, segurança alimentar, características sensoriais, produção industrial e aceitação pelos consumidores.
Outra revisão científica publicada no final de 2025 apontou uma questão ainda mais relevante:
- não havia ensaios clínicos avaliando diretamente os efeitos do consumo de carne cultivada sobre a saúde humana.
Isso não significa que a carne cultivada faça mal.
- Também não significa que fará bem.
Significa algo muito mais simples:
- existem perguntas que a ciência ainda precisa responder.
- E reconhecer uma lacuna científica não é ser contra a ciência.
- É justamente exigir mais ciência.
NUTRICIONALMENTE SERÁ IGUAL AO BIFE?
- Essa também não é uma pergunta simples.
- A carne convencional oferece proteínas e diversos micronutrientes e compostos, incluindo ferro heme, vitamina B12, zinco, creatina, carnitina e taurina.
- A composição de um alimento cultivado dependerá das células utilizadas, do meio de cultivo, do processo industrial, de eventuais fortificações e da formulação do produto final.
- Uma revisão científica de 2025 sobre equivalência nutricional chama justamente a atenção para essas diferenças potenciais.
Portanto, dizer simplesmente que “é exatamente igual à carne” pode ser tão precipitado quanto afirmar que “faz mal”.
- Será necessário analisar produto por produto.
SEGURANÇA TAMBÉM ENVOLVE O PROCESSO INDUSTRIAL
- A FAO e a Organização Mundial da Saúde já estudam especificamente os aspectos de segurança dos alimentos produzidos por cultivo celular.
- E isso é importante porque qualquer sistema de produção de alimentos possui riscos próprios.
- Na pecuária tradicional existem riscos microbiológicos ligados aos animais, ao abate, ao processamento e à conservação.
- No cultivo celular surgem outros pontos de controle envolvendo cultura de células, equipamentos, ingredientes, ambiente industrial e possíveis contaminações durante o processo.
Portanto, não existe tecnologia alimentar que dispense fiscalização.
E A ANVISA?
- Antes que um novo alimento que necessite avaliação possa chegar legalmente ao consumidor brasileiro, existe um processo regulatório.
- A Anvisa mantém procedimentos específicos para avaliação de segurança de novos alimentos e novos ingredientes.
- Assim, laboratório funcionando não significa automaticamente produto autorizado para supermercado.
Pesquisa não é aprovação.
- Protótipo não é alimento liberado.
- Investimento empresarial não substitui avaliação sanitária.
E justamente por se tratar de uma tecnologia tão nova, a transparência regulatória deverá ser absoluta.
EXISTE AINDA UMA QUESTÃO ECONÔMICA ENORME
Há outro debate levantado por Ferrari que merece atenção:
- quem controlará a tecnologia de produção dos alimentos do futuro?
A pecuária brasileira envolve uma cadeia gigantesca.
- Produtores rurais,
- pecuaristas,
- veterinários,
- frigoríficos,
- transportadores,
- indústrias,
- distribuidores e
- milhões de trabalhadores dependem direta ou indiretamente dela.
Quando a produção alimentar passa a depender também de biotecnologia sofisticada,
- instalações industriais,
- propriedade intelectual,
- linhagens celulares e
- processos patenteados,
e ai aparece uma nova discussão:
- a produção de proteínas ficará mais descentralizada ou mais concentrada?
A própria BioTech Foods afirma trabalhar com tecnologia proprietária de cultivo.
- Isso não prova que haverá concentração alimentar.
- Mas mostra que a questão merece acompanhamento.
O BRASIL NÃO PRECISA TER MEDO DA TECNOLOGIA — PRECISA EXIGIR RESPOSTAS
- Transformar a discussão numa guerra entre “ciência” e “anticiência” seria um erro.
O consumidor brasileiro tem direito de perguntar.
- Qual será exatamente a composição desses produtos?
- Quais ingredientes serão utilizados?
- Como será feita a rotulagem?
- Existirão estudos de consumo prolongado?
- Como serão monitorados possíveis efeitos inesperados?
- Será possível distinguir imediatamente carne convencional de carne cultivada na embalagem?
- Quem controlará as patentes?
- Qual será o impacto para os pecuaristas brasileiros?
E principalmente:
- o consumidor poderá escolher livremente?
Essas perguntas não impedem o avanço científico.
- Elas ajudam a torná-lo responsável.
ENTRE O PASTO E O BIORREATOR, UMA REVOLUÇÃO ESTÁ COMEÇANDO
- Talvez a carne cultivada se transforme numa importante fonte complementar de proteína.
- Talvez permaneça durante muitos anos como um mercado de nicho.
- Talvez problemas de custo, escala ou aceitação dificultem sua expansão.
- Ainda não sabemos.
Mas uma coisa já podemos afirmar:
o assunto deixou de pertencer apenas à ficção científica.
Quando uma gigante mundial como a JBS investe milhões de dólares, compra participação em uma companhia europeia especializada e inaugura no Brasil uma estrutura avançada de biotecnologia, é porque existe uma aposta empresarial concreta no futuro dessa tecnologia.
Lua Ferrari colocou uma pergunta incômoda sobre a mesa.
Agora cabe à ciência, às autoridades sanitárias, à indústria e principalmente aos consumidores brasileiros exigir respostas.
- Porque inovação pode ser bem-vinda.
- Tecnologia pode ser extraordinária.
Mas quando o assunto é aquilo que milhões de pessoas colocarão diariamente dentro do próprio organismo, existe um princípio que jamais deveria sair de moda:
- primeiro transparência, depois evidências — e finalmente, liberdade para o consumidor decidir o que quer colocar no prato.
Da Fazenda ao Biorreator
Carne Sem Boi: Alerta Biotecnológico
Por Gildo Ribeiro
Redação Portal 7Minutos — Brasília
O Portal 7Minutos deseja a todos um bom dia pic.twitter.com/76cDh70cEI
— 7Minutos Notícias (@7minutos_news) December 15, 2025
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