RESERVAS SOB VIGILÂNCIA
Europa mexe no ouro guardado nos EUA e acende alerta sobre confiança no sistema financeiro
Holanda e França reduziram recentemente a exposição de suas reservas em Nova York; Alemanha e Itália enfrentam pressão para rever onde mantêm seus lingotes
O ouro voltou ao centro da disputa silenciosa pelo poder mundial.
Em meio a guerras, sanções econômicas e dúvidas sobre a estabilidade das alianças internacionais, bancos centrais europeus estão revendo uma questão que durante décadas parecia resolvida:
é seguro deixar parte da riqueza estratégica de um país guardada no exterior?
O assunto ganhou força após reportagem exibida pelo g1 informar que países europeus estão retirando ou reorganizando reservas mantidas nos Estados Unidos.
A apuração do Portal 7Minutos em fontes americanas e europeias confirma que há, de fato, uma mudança relevante mas os movimentos não ocorreram todos ao mesmo tempo e não significam uma fuga geral do sistema financeiro americano.
Holanda transfere 86 toneladas para Londres
O caso mais recente é o da Holanda.
Entre março e agosto de 2026, o banco central holandês, o De Nederlandsche Bank, transferiu 86 toneladas de ouro antes alocadas em Nova York e Ottawa para Londres.
A mudança alterou a distribuição das 612,4 toneladas pertencentes ao país.
A participação guardada em Nova York caiu de 31,3% para 18,5%; no Canadá, de 19,7% para 18,5%.
Londres passou a concentrar 32,1%, enquanto aproximadamente 30,9% permanecem em território holandês.
Nem todo esse ouro cruzou fisicamente o Atlântico.
Cerca de 27 toneladas foram movimentadas em lingotes, enquanto aproximadamente 59 toneladas foram vendidas na América do Norte e recompradas em Londres.
Segundo a justificativa oficial, o objetivo foi diversificar riscos, melhorar a preparação para crises e manter o metal próximo de um dos mercados mais líquidos do mundo.
França zera estoque em Nova York, mas nega motivação política
A França também encerrou a parcela de suas reservas que permanecia em Nova York.
Entre julho de 2025 e janeiro de 2026, o Banco da França converteu 129 toneladas, equivalentes a cerca de 5% de seu estoque, em barras compatíveis com os padrões atuais de negociação e passou a mantê-las em Paris.
O banco central francês afirmou que a operação teve finalidade técnica e comercial, e não política.
A quantidade total de ouro francês não foi reduzida:
- o país continuou com aproximadamente 2.437 toneladas, uma das maiores reservas do planeta.
A distinção é importante.
A França não vendeu o ouro para gastar o dinheiro.
Ela vendeu barras mantidas nos Estados Unidos e adquiriu volume equivalente na Europa, atualizando o padrão do ativo e mudando sua localização.
Alemanha: as 300 toneladas voltaram anos atrás
O vídeo também menciona que a Alemanha retirou 300 toneladas de Nova York.
O dado é verdadeiro, mas não se refere a uma operação realizada em 2026.
O programa alemão foi anunciado em 2013 e concluído antecipadamente em 2017.
Naquele período, o Bundesbank trouxe 300 toneladas dos Estados Unidos e 374 toneladas de Paris para Frankfurt.
Hoje, cerca de metade do ouro alemão permanece no próprio país, mas aproximadamente 37% ainda está depositado em Nova York e pouco mais de 12% em Londres.
Em 2026, economistas e políticos alemães voltaram a defender uma nova repatriação diante das tensões transatlânticas.
Até agora, porém, o Bundesbank não anunciou nova retirada e sustenta que os depósitos nos Estados Unidos continuam seguros.
Itália mantém quase metade do ouro nos EUA
A Itália possui cerca de 2.452 toneladas, a terceira maior reserva nacional do mundo.
Aproximadamente 43% estão nos Estados Unidos, 44% permanecem na Itália e o restante está distribuído entre Reino Unido e Suíça.
Há pressão política para trazer uma parcela maior dos lingotes de volta.
O Banco da Itália, entretanto, defende a diversificação geográfica:
- manter ouro em diferentes centros financeiros reduz riscos operacionais e permite negociar ou usar o ativo como garantia com maior rapidez.
Portanto, até o momento, não há confirmação de uma operação italiana de retirada em massa dos Estados Unidos.
O que está por trás dessa mudança
Durante e depois da Segunda Guerra Mundial, Nova York tornou-se um dos grandes cofres do planeta.
Guardar ouro nos Estados Unidos era visto como proteção contra invasões na Europa e também como vantagem comercial, porque os lingotes poderiam ser negociados rapidamente no principal centro financeiro mundial.
Esse cálculo começou a mudar após o congelamento de ativos russos no exterior, a ampliação das sanções financeiras e o aumento da rivalidade entre grandes potências.
Governos passaram a perceber que possuir uma reserva não é exatamente o mesmo que ter acesso imediato a ela.
O Federal Reserve de Nova York continua sendo um dos mais importantes depositários de ouro estrangeiro do mundo.
Isso não significa que o ouro de outros países pertença aos Estados Unidos:
- os lingotes ficam sob custódia e continuam sendo propriedade de seus respectivos titulares.
Fort Knox, citado frequentemente nessas discussões, guarda principalmente ouro do próprio Tesouro americano.
As reservas estrangeiras ficam sobretudo no cofre subterrâneo do Federal Reserve de Nova York.
Não é debandada — mas é um sinal político
Os fatos não permitem afirmar que a Europa esteja promovendo uma retirada coletiva e imediata de todo o ouro dos Estados Unidos.
Holanda e França realizaram mudanças recentes; a Alemanha fez sua grande repatriação há quase uma década; e a Itália ainda não tomou decisão semelhante.
Mesmo assim, o sinal é forte.
O ouro não rende juros, mas funciona como ativo de confiança extrema.
Quando bancos centrais mudam a localização de dezenas de toneladas, estão também redesenhando se
u mapa de segurança.
O movimento revela que a confiança nos Estados Unidos não desapareceu, mas deixou de ser automática.
Em um mundo marcado por bloqueios financeiros, disputas comerciais e alianças mais instáveis, governos querem garantir que, no momento de maior necessidade, sua reserva esteja disponível — e sob jurisdição considerada previsível.
O debate, portanto, vai muito além do preço do metal.
A pergunta que agora circula entre capitais europeias é direta: de quem é o controle real de uma riqueza estratégica quando ela está guardada em território estrangeiro?
Fontes consultadas: De Nederlandsche Bank; Banque de France; Deutsche Bundesbank; Banca d’Italia; Federal Reserve Bank of New York; Bank of England; Associated Press; Financial Times; The Times; World Gold Council; e vídeo do g1 indicado pelo leitor.
Por Gildo Ribeiro
Redação Portal 7Minutos — Brasília
— 7Minutos Notícias (@7minutos_news) November 22, 2023
Eu estou ouvindo Rádio 7 pelo RadiosNet. #OuvirRadio
O Portal 7Minutos deseja a todos um bom dia pic.twitter.com/76cDh70cEI
— 7Minutos Notícias (@7minutos_news) December 15, 2025
Siga o ‘ 7Minutos’ nas redes sociais
X (ex-Twitter)
Instagram
Facebook
Getter
Truth Social




