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" ser pai é uma construção diária."

DIA DOS PAIS: MUITO ALÉM DA PRESENÇA MASCULINA…

Para a psicanalista Dra. Ana Claudia Segantine, ser pai não se resume ao vínculo biológico: paternidade também significa presença afetiva, responsabilidade, limite, proteção e a capacidade de fazer uma criança sentir que sua vida importa

Por Ana Claudia Segantine

No segundo domingo de agosto, milhões de famílias brasileiras se reúnem para celebrar o Dia dos Pais.

Há abraços, presentes, fotografias, almoços em família e homenagens carregadas de afeto.

Mas existe uma pergunta que talvez seja ainda mais importante do que simplesmente perguntar “quem é o pai?”:

Quem realmente esteve presente?

E presença, aqui, significa muito mais do que ocupar uma cadeira à mesa, morar debaixo do mesmo teto ou aparecer nas fotografias da família.

Sob o olhar da Psicanálise, a paternidade possui uma dimensão muito mais profunda.

Ser pai é também ocupar um lugar afetivo e simbólico na formação de outro ser humano.

  • É proteger.
  • É estabelecer limites.
  • É ensinar.
  • É reconhecer.
  • É acolher.

É permitir que uma criança compreenda, através das atitudes de um adulto, uma das mensagens mais importantes que alguém pode receber durante a vida:

Eu estou aqui. Eu te amo. Você importa.

O PAI PARA ALÉM DA BIOLOGIA

Durante muito tempo, falar em paternidade significava quase automaticamente falar no homem que gerou biologicamente uma criança.

A Psicanálise, entretanto, ajuda a ampliar essa compreensão.

Existe o pai biológico, mas existe também aquilo que chamamos de função paterna.

Essa função participa da construção dos limites, das referências e da autonomia da criança.

É também uma das formas pelas quais ela começa a compreender que existe um mundo além de suas relações iniciais de cuidado.

A criança vai descobrindo que existem regras, outras pessoas, diferenças, responsabilidades, frustrações e limites.

E tudo isso faz parte de sua entrada na vida social.

Mas existe um aspecto fundamental: essa função não depende exclusivamente do pai biológico e nem necessariamente precisa ser desempenhada por um homem.

Ao longo da vida, uma criança pode encontrar referências fundamentais de proteção, autoridade, cuidado, segurança e transmissão de valores em diferentes pessoas.

Por isso, algumas vezes, a biologia determina quem gerou uma criança.

Mas é o vínculo que revela quem verdadeiramente participou de sua história.

ESTAR EM CASA NÃO SIGNIFICA ESTAR PRESENTE

Talvez uma das maiores confusões sobre a paternidade esteja justamente na palavra “presença”.

Existe uma enorme diferença entre estar fisicamente presente e estar emocionalmente disponível.

Um pai pode morar na mesma casa, encontrar o filho todos os dias e, ainda assim, ser emocionalmente distante.

Enquanto isso, uma pessoa sem qualquer vínculo biológico pode ocupar uma posição profundamente importante na formação daquela criança.

Porque a presença que permanece na memória não é contabilizada apenas pelas horas divididas no mesmo ambiente.

  • Ela é construída pela qualidade do vínculo.
  • É o adulto que escuta quando a criança precisa falar.
  • Que acolhe quando ela sente medo.
  • Que orienta quando ela está perdida.
  • Que estabelece limites sem humilhar.
  • Que corrige sem destruir.
  • Que reconhece a criança como um indivíduo.
  • Que sabe dizer “não” quando necessário.

Mas que também sabe abraçar e dizer:

Pode contar comigo.

É esse tipo de presença que deixa marcas.

TODO PAI CARREGA O MENINO QUE UM DIA FOI

  • Existe ainda uma dimensão da paternidade sobre a qual pouco se fala.
  • Quando nasce um filho, não nasce apenas uma criança.
  • Também nasce um pai.

E esse homem não começa sua história naquele momento.

Ele chega à paternidade carregando sua própria infância, suas experiências, suas lembranças, suas feridas e tudo aquilo que recebeu — ou deixou de receber — de seus próprios pais.

Por isso, tornar-se pai pode despertar perguntas profundas:

  • O que recebi do meu pai?
  • O que quero repetir?
  • O que jamais quero reproduzir?
  • Que lembrança desejo deixar para meus filhos?
  • Que tipo de pai quero ser?

Essas perguntas são importantes porque pais também transmitem histórias.

Consciente ou inconscientemente, transmitimos valores, crenças, maneiras de demonstrar afeto, expectativas, medos e até conflitos que ainda não conseguimos elaborar.

A Psicanálise chama a atenção justamente para esse ponto: aquilo que não conseguimos elaborar pode acabar sendo repetido.

Olhar para a própria história, portanto, não significa permanecer preso ao passado.

Pode significar exatamente o contrário:

  • compreender o passado para não precisar repeti-lo.

 

PARA ALGUNS, O DIA DOS PAIS TAMBÉM DÓI

  • Nem todas as pessoas viverão este domingo da mesma maneira.
  • Para muitas, o Dia dos Pais será uma celebração maravilhosa.
  • Para outras, será saudade.
  • Há aqueles que perderam o pai.
  • Existem os que nunca conheceram o pai biológico.
  • Há pessoas que cresceram enfrentando abandono, negligência ou violência.
  • Existem filhos que dariam tudo por mais uma conversa.
  • E existem aqueles para quem a ausência acabou sendo menos dolorosa do que a presença que tiveram.

Por isso, não devemos transformar o Dia dos Pais em uma obrigação coletiva de felicidade.

  • Cada família carrega sua própria história.
  • Cada filho guarda suas próprias lembranças.
  • Cada ausência possui seu próprio silêncio.

Há histórias que merecem ser celebradas. E há histórias que precisam ser acolhidas.

Respeitar isso também é uma forma de humanidade.

O HOMEM QUE CUIDA NÃO SE TORNA MENOS FORTE

Durante gerações, muitos homens foram ensinados que sua principal responsabilidade dentro da família era trabalhar, pagar as contas, sustentar a casa e exercer autoridade.

Demonstrar sentimentos poderia ser interpretado como fraqueza.

  • Abraçar demais poderia parecer excesso.
  • Chorar deveria ser evitado.
  • Dizer “eu te amo” nem sempre fazia parte do vocabulário masculino.
  • Felizmente, essa compreensão vem sendo transformada.

O pai contemporâneo pode continuar sendo provedor e protetor, mas também pode — e deve — participar da dimensão afetiva da criação dos filhos.

  • Pai também cuida.
  • Pai pode trocar fraldas.
  • Pode levar à escola.
  • Pode acompanhar uma consulta.
  • Pode sentar no chão para brincar.
  • Pode abraçar.
  • Pode falar sobre sentimentos.
  • Pode pedir desculpas quando errar.
  • Pode admitir que não sabe.
  • Pode procurar ajuda.
  • Pode aprender.
  • E pode compreender algo libertador:
  • um filho não precisa de um pai perfeito.
  • Precisa de um pai disposto a construir uma relação.

A PERGUNTA QUE TALVEZ DEVÊSSEMOS FAZER NESTE DOMINGO

Neste Dia dos Pais, talvez possamos ir além da pergunta tradicional:

  • “Quem é o pai?”
  • E fazer outra, muito mais profunda:
  • “Quem esteve — ou está — emocionalmente disponível para cuidar, proteger, orientar, estabelecer limites, reconhecer e amar?”

As famílias mudaram.

  • Existem diferentes configurações familiares, diferentes histórias e diferentes formas de construir vínculos.

Mas uma necessidade humana permanece atravessando gerações:

  • todos nós precisamos sentir que pertencemos a algum lugar e que somos importantes para alguém.
  • Uma criança necessita de adultos capazes de oferecer um ambiente afetivamente seguro para que ela possa crescer, experimentar o mundo, desenvolver autonomia e construir sua própria história.

Por isso, neste Dia dos Pais, a homenagem também pode alcançar aqueles que decidiram assumir responsabilidades e construir vínculos, independentemente da genética.

  • Porque gerar é um acontecimento biológico.
  • Ser pai é uma construção diária.
  • É estar quando seria mais fácil ir embora.
  • É ensinar quando seria mais simples ignorar.
  • É colocar limites sem deixar de amar.
  • É compreender que autoridade não significa violência.
  • É proteger sem impedir que o filho cresça.

É permitir que, um dia, aquela criança siga seu próprio caminho sabendo que existe um lugar para onde poderá voltar.

Talvez essa seja uma das maiores heranças que um pai pode deixar.

  • Não apenas patrimônio.
  • Não apenas sobrenome.
  • Não apenas fotografias.
  • Mas a lembrança de ter sido amado, respeitado e reconhecido.

Porque algumas das marcas mais profundas que carregamos pela vida não vêm necessariamente de quem nos deu a vida.

Vêm de quem, através da presença, do cuidado e do amor, nos ensinou que a nossa vida importa.

 

SOBRE A AUTORA

Dra. Ana Claudia de Laet Segantine é psicanalista e Mestra em Biociência. Atua nas áreas de Neurociência, TAB, TDAH, depressão, prevenção ao suicídio, dependência química, TAG e TEPT, desenvolvendo um trabalho baseado em acolhimento, informação, orientação e cuidado, sem preconceitos ou julgamentos.

TikTok: Ana Claudia de Laet Segantine
Instagram: @anaclaudiadelaetsegantine
Contato: (62) 98244-0724

 

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Ana Claudia de Laet Segantine é psicanalista e Mestra em Biociência.
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  • Gildo Ribeiro

    Gildo Ribeiro é editor do Grupo 7 de Comunicação, liderado pelo Portal 7 Minutos, uma plataforma de notícias online.

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