Prefere o espetáculo à estratégia
Enquanto o mundo se arma, o Brasil dança
A nova geopolítica é feita de IA, poder, indústria e antecipação.
O Brasil, porém, ainda prefere o espetáculo à estratégia.
O mundo mudou de marcha.
Não foi com discurso, nem com conferência solene.
Mudou silenciosamente, nos orçamentos, nos laboratórios, nos estaleiros, nos data centers e nos satélites que cruzam o céu sem pedir licença. Em 2024, os gastos militares globais ultrapassaram US$ 2,7 trilhões, o maior nível desde o fim da Guerra Fria. Mais de 100 países aumentaram simultaneamente seus investimentos em defesa, tecnologia, cibersegurança, espaço e inteligência artificial. Não é moda. É reposicionamento histórico.
A geopolítica voltou a ser o que sempre foi: disputa por poder real.
Enquanto isso, no Brasil, o debate público gira como um pião distraído. O ano legislativo mal começa — quando começa — e já se dissolve em feriados prolongados, recesso informal, pauta vazia e indignações efêmeras. Em muitas partes do país, o foco não é o mundo que muda, mas o carnaval que se aproxima. O Congresso espreguiça, o Executivo administra o cotidiano, e o noticiário se ocupa com espuma: o caso do cachorro Orelha, o banco Master, o escândalo da semana que será esquecido na próxima.
Lá fora, Estados planejam décadas.
Aqui, nós administramos dias.
E não é só uma diferença de agenda. É uma diferença de consciência histórica.
Halford Mackinder, um dos pais da geopolítica, dizia que quem controla os eixos estratégicos do mundo controla o destino das nações. Hoje, esses “eixos” não são apenas territórios: são chips, dados, energia, logística, IA e capacidade industrial. Por isso Estados Unidos e China não brigam apenas por mapas, mas por semicondutores de 3 nanômetros, por rotas marítimas, por satélites, por cadeias de suprimento e por domínio tecnológico.
A guerra moderna começa antes do primeiro tiro. Ela começa no servidor, no laboratório e no orçamento.
Os EUA gastam perto de US$ 900 bilhões por ano em defesa. A China já passa dos US$ 300 bilhões. A Europa, após a guerra da Ucrânia, rearmou-se como não fazia há décadas. A Alemanha rompeu seu tabu histórico e voltou a pensar em poder militar de longo prazo. A Polônia já destina mais de 4% do PIB à defesa. Não porque desejam guerra, mas porque entenderam que o século XXI não será estável por boa vontade.
O Brasil, porém, ainda age como se a história tivesse entrado em modo de espera.
Aqui, política virou entretenimento. A sociedade discute personagens, não projetos. Torcidas substituem análises. Emoções ocupam o espaço onde deveria haver estratégia. O país fala muito de moral, pouco de poder. De narrativa, pouco de capacidade.
Enquanto China e EUA disputam inteligência artificial aplicada à guerra e à economia, nós disputamos versões de Twitter.
Enquanto o mundo reorganiza cadeias produtivas, nós reorganizamos hashtags.
Enquanto potências integram universidade, indústria e Estado, nós integramos novela, BBB e feed de Instagram.
É como se o Brasil estivesse num salão de baile enquanto o prédio inteiro muda de estrutura.
E aqui entra a imagem que nos define: enquanto eles se armam, o Brasil dança.
Dança no carnaval. Dança na distração. Dança no espetáculo permanente.
Num país onde mais de 50% da população não tem acesso pleno a saneamento básico, onde a economia depende cada vez mais de auxílios, bolsas e transferências, onde a produtividade é baixa e a dependência tecnológica é alta, escolhemos viver como se o problema fosse só emocional, não estrutural.
O brasileiro aprendeu, historicamente, a fugir da realidade por três portas: o samba, o futebol e a novela. Hoje, acrescentamos o BBB. É o anestésico social perfeito: enquanto o mundo se reorganiza, nós comentamos paredão. Enquanto Estados disputam IA, nós discutimos casal. Enquanto países planejam 2050, nós planejamos o feriado.
Não é que essas coisas sejam más em si. O problema é quando viram substituto de consciência.
Carl Schmitt dizia que política é, no fundo, a capacidade de distinguir amigo e inimigo — não no sentido moral, mas estrutural: quem define seu destino e quem o condiciona. O Brasil, porém, prefere imaginar que vive num palco ético, não num sistema de forças. Aqui ainda se acredita que boas intenções compensam falta de poder, que neutralidade substitui estratégia, que discurso substitui capacidade material.
E não substitui.
Pior: falta, sim, inteligência estratégica no país. Não talento individual — isso temos —, mas formação de elites com visão de longo prazo. Falta cultura geopolítica, falta economia política real, falta compreensão tecnológica profunda. Formamos comunicadores, não planejadores. Militantes, não estrategistas. Comentadores, não construtores.
O resultado é um país que reage, mas não projeta.
Nicholas Spykman, outro clássico da geopolítica, dizia que o destino dos Estados é definido menos por ideais e mais por posição, capacidade e preparação. O Brasil tem posição privilegiada e recursos imensos, mas age como se isso fosse garantia automática de relevância. Não é. Sem indústria de alto nível, dependemos. Sem soberania tecnológica, importamos poder. Sem defesa cibernética, terceirizamos segurança. Sem projeto nacional, viramos corredor logístico dos outros.
O risco brasileiro não é invasão militar. É irrelevância funcional.
É ser grande no mapa, mas pequeno na decisão.
Grande no discurso, mas pequeno na produção.
Grande na emoção, mas pequeno na estratégia.
Enquanto o mundo entra numa era de competição permanente — econômica, tecnológica, informacional e militar — o Brasil ainda se comporta como se vivesse numa bolha tropical fora da história. Como se o século XXI fosse um reality show prolongado, não uma arena de forças.
Raymond Aron dizia que a paz só existe quando há equilíbrio, não quando há ingenuidade. O Brasil ainda aposta mais na ingenuidade do que no equilíbrio.
E por isso a metáfora permanece cruelmente correta:
enquanto o mundo se arma, o Brasil dança.
Não porque seja alegre, mas porque não percebe que o ritmo mudou. Continuamos tocando marchinha num ambiente que já exige partitura de guerra econômica, tecnológica e política.
A pergunta que fica não é se o Brasil participará do novo jogo global. Ele já participa, queira ou não. A pergunta é se entrará como jogador ou como cenário.
Porque na geopolítica não existe espaço vazio.
Quem não pensa o futuro, serve ao futuro de alguém.
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Por: Rodrigo Schirmer Magalhães
Cientista político e Analista de Politica
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