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A história do Brasil passa por aqui, by Jairo Alves Leite

Há 65 anos, Juscelino Kubitschek assinava a “Mensagem de Anápolis”, um projeto de lei que deu início à construção de Brasília e mudou a história recente do país.

Nesta quarta-feira, 21 de abril, Brasília completará 61 anos de fundação. Mas o início da
epopeia que foi a construção de capital nacional em pleno cerrado teve início em Anápolis,
quatro anos antes, na madrugada do dia 18 de abril de 1956, na sala de uma casa que servia de
residência para o casal que cuidava do aeroporto da cidade.

No dia 31 de janeiro de 1956, o médico mineiro Juscelino Kubitschek de Oliveira, aos 54 anos,
tomava posse como o 21º presidente da República do Brasil e prometia cumprir o plano de metas
anunciado durante a campanha. Ao fim do governo tinha cumprido as 30 metas, mais a meta
síntese que ele estabelecera: construir a nova capital da Nação.

Foi assim que, naquele 18 de abril, o presidente da República embarcou num avião da FAB, no
Rio de Janeiro, para uma viagem a Manaus. JK havia planejado pousar em Goiânia para assinar e
festejar a mensagem ao Congresso do projeto de lei sobre a mudança da capital federal. O
criador da capital queria fazer um ato público, a ter lugar na principal praça da capital do
estado, durante o qual assinaria a mensagem que seria enviada ao Congresso Nacional.

Antes da descida, o avião presidencial deparou com uma imensa aglomeração à espera da chegada
da comitiva. À frente, porém, uma nuvem branca, cerrada e densa, estacionou exatamente em
cima da pista. A solução foi se encaminhar a Anápolis, onde o avião posou antes das cinco
horas da manhã.

Depois de aterrissar, a delegação se encaminhou para a casa que servia de residência ao casal
que cuidava do aeroporto, onde foi oferecido um desjejum à comitiva. Ali foram vistos por
populares, que se apressaram em chamar o prefeito, Carlos de Pina, que não chegaria a tempo
de presenciar o ato histórico.

Pouco depois que JK desembarcou, chegava ao aeroporto os vereadores Érides Guimarães e Amador
Abdala, eles seriam os únicos políticos da cidade a assinar o importante documento.
Presidente do PTB no município, Érides convenceu o presidente de que, estando mais perto, e
praticamente na mesma altitude do lugar onde seria construída a nova Capital Federal, era em
Anápolis que o documento teria de ser assinado.

JK sacou da caneta e assinou ali mesmo a mensagem para o Congresso sobre a transferência da
Capital do Rio para Brasília e ainda marcou a data de inauguração. Antes de assinar, cortou
com um risco a palavra Goiânia e escreveu Anápolis. Assim começava a aventura da nova
capital, com a Mensagem de Anápolis.

Assim, a Mensagem nº 156 – que dispunha sobre a mudança da Capital Federal – foi enviada ao
Congresso Nacional, onde tramitou sob a forma do Projeto de Lei nº 1.234, de 1956, aprovado,
na Câmara, em 23 de agosto de 1956 e transformado na Lei nº 2.874, de 1956, sancionada em 19
de setembro do mesmo ano.

O Memorial Casa de JK

Em 2001, o então prefeito de Anápolis, Ernani de Paula, fez da casa o Memorial Casa de JK.
Érides Guimarães passou a ser o curador e diretor da casa.

Ali, o amigo de JK recebia os
visitantes, contava e recontava a história. Com mais de 80 anos, Érides não faltava um só dia
ao trabalho; como um verdadeiro guardião, dizia que era importante estar lá e que lhe fazia
muito bem. Cuidou do Memorial Casa de JK até na véspera de sua morte, no dia 18 de setembro
de 2010.

O local está fechado há oito anos e sofre com graves problemas de estrutura, manutenção e
gestão. O prédio foi tombado em 2003 pela Prefeitura, mas atualmente não é administrado por
ninguém.

A construção fica em um terreno da União, cedido para Goiás.

É preciso pressa,
porque o tempo é cruel. Nos seis cômodos e três banheiros da casa da década de 1950 estão
peças que remontam à história da criação da nova capital e do fatídico dia da assinatura.

Esquecido, o pequeno acervo aos poucos se perde.

DM ANÁPOLIS ENTREVISTA

O historiador Jairo Alves Leite, presidente do Conselho Municipal do Patrimônio Histórico e
Estação Ferroviária de Anápolis falou ao DM Anápolis sobre a importância da data e sobre o
memorial Casa de JK.

Qual o contexto histórico em que Anápolis se insere na criação de Brasília?

Juscelino Kubistchek, ainda candidato a presidente da República, iniciou por Goiás a sua
campanha em de abril de 1955 pela cidade de Jataí. No centro da cidade cerca de 12 mil
pessoas aguardavam, ansiosas, pelo candidato. Na hora comício teve uma forte tromba d´água e
interrompeu o evento.

Na correria, alguém sugere um galpão de uma oficina mecânica ali
perto. O espaço é pequeno, as pessoas se espremem e, na carroceria de um caminhão Juscelino
improvisa; fala de desenvolvimento, fim da miséria, empregos, democracia, cumprimento fiel
das leis e da Constituição.

Empolgado, JK instiga as pessoas a fazerem perguntas. Aí, no meio
do público, Antônio Soares Neto o “Toniquinho da Farmácia”, que conhecia a fundo a
Constituição Federal, fez a pergunta:

“Se eleito for, o senhor vai mudar a capital para o
interior do país, conforme está previsto no artigo 4º das Disposições Transitórias da
Constituição?”

Juscelino não hesitou mais do que alguns segundos para responder:

“Acabo de
prometer que cumprirei, na íntegra, a Constituição, e não vejo razão para ignorar esse
dispositivo. Durante o meu quinquênio, farei a mudança da sede do governo e construirei a
nova capital”

Já no próximo discurso, feito em Anápolis, dois dias depois, JK anunciaria uma mudança
importante no seu plano de governo. Manteria as trinta metas iniciais apresentada, mas
acrescentou como Meta-Síntese, a mais importante de seu governo, a construção da nova Capital
do país.

Eleito, e antes mesmo de tomar posse, Juscelino reafirmava o seu propósito, fazendo
reiteradas declarações acerca da necessidade de mudar a Capital Federal para Goiás. Seu e o
desejo era de despachar o mais rápido possível a partir do Planalto Central.

Enquanto fazia
declarações, tomava providências objetivas para que a ideia se concretizasse.

Como se deu a assinatura da mensagem ao Congresso Nacional em Anápolis?

JK quis aproveitar uma viagem que faria ao Amazonas, para assinar, em Goiânia, a importante
Mensagem ao Congresso Nacional, acompanhada de um Projeto de Lei, que disporia de medidas
preliminares, consideradas necessárias para a interiorização da Capital Federal.

O Presidente
deveria assinar a citada mensagem na capital do Estado de Goiás, na madrugada do dia 18 de
abril de 1956, data em que seria recebido pelo governador José Ludovico de Almeida, políticos
e pelo povo.

Porém, devido à cerração, o avião presidencial não pôde pousar em Goiânia, redirecionando sua
rota para Anápolis.

Na véspera do dia 18, já se sabia que JK desceria em Goiânia e não
passaria em Anápolis, motivo pelo qual os anapolinos não foram, em massa, recepcionar o
presidente da República no aeroporto local.

Curiosamente, apenas os políticos Érides
Guimarães, Amador Abdala e mais algumas poucas pessoas, haviam comparecido ao local, sob a
vaga esperança de que o avião pousasse em Anápolis. Érides Guimarães sempre dizia que naquele
dia estava pressentindo que a aeronave pousaria no aeroporto de Anápolis.

O fato aconteceu, e
o avião presidencial aterrissou às 5h30 da manhã de 18 de abril de 1956.

Érides então convenceu o presidente de que Anápolis estava a 1.110 metros, em relação ao
nível do mar, que é mais próximo da altitude de 1.172 metros correspondente ao ponto onde
seria construída a nova Capital Federal, ao passo que Goiânia estava pouco mais de 700 metros
acima do nível do mar.

O que representa, para Anápolis, este acontecimento?

Todo este contexto histórico, que começa por conta de um nevoeiro, reveste Anápolis de uma
grande importância e que beneficiou a cidade em vários aspectos. A cidade já havia
contribuído muito na década de 30 para a construção de Goiânia.

Por exemplo, a estação
ferroviária de Anápolis, inaugurada em 1935, foi um importante posto para abastecer os
canteiros de obra de Goiânia.

Anápolis teve uma relação importante com o governo de JK, e a partir daí a cidade vai
adquirindo este espaço, pois no final da década de 70 a cidade passa a ter um distrito
agroindustrial, que hoje é o nosso grande vetor de desenvolvimento econômico.

Na década de 70
Anápolis passa a ter grande importância estratégica nacional com a instalação da Base Aérea.
Por isso, esses acontecimentos contribuíram para o crescimento permanente de Anápolis sob
vários aspectos.

O Memorial Casa de JK está fechado desde 2013 e sendo destruído pelo tempo. O que pode ser
feito a respeito?

A Casa de JK tem importância fundamental na nossa história e na de Brasília. A casa está
fechada, o tempo tem danificado ainda mais o local. Parte do acervo foi recolhido pela
família do ex-diretor Érides Guimarães.

O governo estadual atual foi acionado pelos ministérios públicos Estadual e Federal, que, por
sua vez, procurou o município para fazer uma parceria, mas que não se viabilizou e, tanto o
Estado, quanto o município, não se interessaram em fazer algo efetivo a respeito do Memorial.

Ficou decidido, em comum acordo com o Ministério Público e a Goinfra (que administra o local
onde fica o Memorial), o repasse da administração e manutenção do local a uma entidade sem
fins lucrativos ligada ao setor cultural.

Definida a entidade, será celebrado um convênio
para que o Memorial Casa de JK possa voltar a funcionar e ser preservado como merece e
precisa.

[caption id="attachment_97536" align="alignnone" width="1024"] JK, no Aeroporto Municipal de Anápolis durante sua campanha para a presidência em 1955. Reprodução[/caption]
[caption id="attachment_97537" align="alignnone" width="1024"] Jairo Alves Leite, presidente do Conselho Municipal do Patrimônio Histórico e Estação Ferroviária de Anápolis (Foto: Gildo Ribeiro - Portal 7)[/caption] [caption id="attachment_97538" align="alignnone" width="1024"] Memorial Casa de Jk, local onde foi assinada a Mensagem ao Congresso Nacional e que deu início à construção de Brasilia[/caption] [caption id="attachment_97539" align="alignnone" width="1024"] Memorial Casa JK reúne itens marcantes da história do país (Foto: Reprodução/TV Anhanguera)[/caption]
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  • Gildo Ribeiro

    Gildo Ribeiro é editor do Grupo 7 de Comunicação, liderado pelo Portal 7 Minutos, uma plataforma de notícias online.

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