By Jerônimo Teixeira

Machado de Assis é, sim, obrigatório

Felipe Neto subestima a inteligência de seus seguidores quando diz que maior escritor brasileiro 'não é para adolescentes'

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21 de fevereiro de 2021

Felipe Neto Foto: Leonardo Aversa/Agência O Globo

Só cheguei perto de um livro de Machado de Assis na escola uma única vez, e não por recomendação de um professor. Li A Mão e a Luva para um trabalho de Língua Portuguesa no sexto ou sétimo ano do primeiro grau (que hoje se chama ensino fundamental).

Foi numa escola pública

em Estância Velha, cidade a 50 quilômetros de Porto Alegre. A professora pedia uma ficha de leitura por mês (ou por bimestre, não lembro bem), e deixava o livro à escolha do aluno.

Confesso:

li A Mão e a Luva por preguiça. Era a narrativa mais curta incluída na coleção de obras de Machado de Assis que meu pai comprara para mim, junto com um dicionário do Jânio Quadros (sim, o presidente da renúncia misteriosa fazia bico como lexicógrafo), em um programa de livros a preços módicos para funcionários públicos estaduais do Rio Grande do Sul. Eram cinco ou seis livros muito feios, mal compostos, ilustrados com desenhos bregas de mocinhas novecentistas segurando cartas de amor em suas mãos deformadas e desproporcionais.

Guardei apenas um volume dessa coleção, por razões afetivas. Trata-se, afinal, do primeiro grande livro que li na vida.

 

Não, não foi A Mão e a Luva.

As reminiscências acima vêm a propósito da “treta literária” que Felipe Neto lançou no Twitter. O youtuber afirmou que Machado de Assis não deve ser leitura obrigatória (ou, nos seus termos, “forçada”) no ensino médio. De quebra, incluiu Álvares de Azevedo – morto aos 20 anos! – entre os autores que “NÃO SÃO PARA ADOLESCENTES” (ele escreveu assim mesmo, em caixa alta).

 

Desconfio

que as indignações se tornaram mais candentes porque a proposta de excluir o maior escritor do país do currículo escolar veio de um fenômeno do YouTube. Felipe Neto não é uma figura dos meios intelectuais, acadêmicos e jornalísticos, circuitos tradicionais de onde vêm os profissionais da opinião (inclusive o autor do presente texto). Isso suscita resistência, quando não ressentimento.

Para ser honesto, eu mesmo tenho minhas resistências e ressentimentos. Tento acompanhar os youtubers que meus filhos veem, mas a pessoa conversando com a webcam acaba sempre me irritando. Mesmo assim, farei um esforço para apontar onde, no meu limitado julgamento, Felipe Neto erra na sua provocação sobre o ensino de literatura nas escolas, e onde ele pelo menos aponta problemas sérios.

Antes disso, mais um passeio pela minha errática formação literária.

Fui um leitor precoce, mas desorientado. Em Estância Velha, frequentei bastante a biblioteca pública vizinha à da escola, retirando alguns bons romances e muitos best-sellers duvidosos – comoO Fã-Clube, do hoje esquecido Irving Wallace, que buscávamos, eu e meus colegas, só pelas cenas de sexo. (Aliás, foi a expectativa equivocada de encontrar um texto licencioso que me conduziu a Machado de Assis – mas contarei isso na próxima coluna. )

 

Passei, nessa fase,

por Memórias de um Sargento de Milícias (que me divertiu, embora eu não entendesse bem o universo social do Brasil de Dom João VI), por um livro de Chico Xavier que um vizinho espírita emprestou, por Seara Vermelha (o único romance de Jorge Amado que tínhamos em casa, e nem de longe o melhor do autor) e por alguns títulos da Série Amarela, o selo pulp fiction da editora Globo de Porto Alegre (lembro de um título muito evocativo, A Morte Vem de Hong Kong – mas a memória não conservou nenhum detalhe do enredo, e tive de ir ao Google para buscar o nome do autor, James Hadley Chase).

Fui então um leitor

mais ávido do que sou hoje, quando minhas retinas tão fatigadas já contam 52 anos de atividade. Mas gostaria de ter tido alguém que me indicasse trilhas mais proveitosas no bosque da literatura.

Teria me beneficiado de um bom professor que me dissesse o que ler.

 

Em uma entrevista

que fiz com John Green, em 2017, perguntei como ele esperava que os adolescentes navegassem pelas referências a Shakespeare em seus romances. Green lançara havia pouco Tartarugas até Lá Embaixo, cujos jovens personagens vez que outra conversam sobre A Tempestade, e o título de seu maior sucesso, A Culpa É das Estrelas, vem de um verso de Júlio César.

Sua resposta desarmou minhas expectativas. O adolescente americano, disse Green, está em geral mais próximo de Shakespeare do que o adulto. Afinal, é no ensino médio que se leem as obras do bardo. O autor de Cidades de Papel falava da leitura obrigatória de Shakespeare não como uma imposição arbitrária do sistema escolar, mas como um privilégio dos estudantes, uma vantagem que eles levavam sobre os pais e tios que há anos não tiram a poeira de seus exemplares de Romeu e Julieta.

Green

costuma dizer que só se tornou um fenômeno da literatura juvenil, com milhões de exemplares vendidos no mundo, porque não despreza a inteligência dos adolescentes. É natural que ele acredite na capacidade da garotada para apreciar Shakespeare. Enquanto isso, Felipe Neto, que também fala com milhões de jovens, decreta no Twitter que Machado de Assis e Álvares de Azevedo não são para o bico do adolescente brasileiro. (Repare, a propósito, que a distância entre o inglês corrente nos Estados Unidos e a língua de Shakespeare é consideravelmente maior que a distância entre o português dos brasileiros de hoje e a prosa de Machado.)

Sem desconhecer

as diferenças culturais e sociais entre Estados Unidos e Brasil, acredito que o recado de Green vale para nosso país. Os jovens brasileiros, pobres ou ricos, são tão ou mais capazes de ler Machado de Assis quanto os americanos de ler Shakespeare.

Aqueles que argumentam

em contrário costumam se enredar em certos clichês preguiçosos sobre o ensino da literatura. Primeiro, há a ênfase exagerada no “prazer da leitura”, slogan pobre quando se quer vender a leitura para jovens que têm à disposição prazeres mais fáceis e imediatos. A literatura pode ser prazerosa, claro, mas é também exigente e difícil – e para que serve a escola, se não para auxiliar o aluno a enfrentar dificuldades? Trata-se não de obrigar ou forçar o aluno a ler Dom Casmurro, mas de desafiá-lo a ler Machado, a enfrentar as barreiras iniciais da linguagem do século retrasado para afinal encontrar um prazer mais compensador que aqueles oferecidos pelo streaming.

Também se fala demais

no abismo que separaria o universo ficcional machadiano da vida dos estudantes no século XXI. Por óbvio, o professor tem de ser sensível ao mundo social e cultural de seus alunos, e trabalhar a partir dele – mas isso não significa limitar-se a ele. Idealmente, a educação deve levar o estudante para além de sua realidade, para fazê-lo ver o mundo de perspectivas que não são as de sua turma de amigos, de seu meio social, de seu tempo. A literatura de ficção é um veículo maravilhoso para oferecer esses deslocamentos imaginários. Pense, por exemplo, na experiência radical que Graciliano Ramos nos oferece em Vidas Secas: ver a caatinga pelos olhos de uma cachorra agonizante.

 

Finalmente,

resta o ponto central do tuíte que provocou essa conversa: a noção de que impor ao adolescente uma leitura difícil pode ter a força de um trauma, afastando o aluno em definitivo da leitura. Felipe Neto diz que seu Twitter coletou vários testemunhos nesse sentido, e que “o mar de jovens que odeia literatura” será, pelo menos em parte, resultado do modo como as escolas ensinam literatura.

Será que é isso mesmo – uma leitura aborrecida na escola terá o poder de exterminar o gosto pelos livros?

Já ouvi pelo menos

um testemunho um tanto diferente: um amigo mineiro odiou Sagarana quando leu o livro na escola e em idade adulta apaixonou-se pela obra de Guimarães Rosa. O exemplo singular não quer dizer nada, sei bem. Mas as fossas abissais cheias de ódio às letras em que o Twitter de Felipe Neto anda mergulhado são menos significativas do que ele pensa. Pois será sempre difícil determinar por que alguém detesta literatura. Sim, pode ser culpa do livro chato imposto na escola, mas pode ser também porque um professor de literatura inexperiente ou inepto não soube guiar e motivar seus alunos.

 

Ou pode ser ainda

por razões que não têm nada a ver com o ensino. Pois sempre existirão pessoas que, simplesmente por disposição pessoal, não gostam de ler, que não são dotadas de sensibilidade para a arte das palavras ou não tiveram ânimo para cultivar essa sensibilidade.

E se literatura é um direito, como afirmou o crítico Antonio Candido, é preciso que aqueles que abdicam desse direito possam fazê-lo com pleno conhecimento do que estão perdendo – que tenham sido apresentados ao que melhor se produziu na poesia e na ficção em língua portuguesa antes de dizer “esse negócio de literatura não é pra mim”, como tantos dizem sobre a matemática, a química, a física que foram “forçados” a aprender nos duros bancos escolares.

No fim das contas,

acabar com a leitura obrigatória de Machado de Assis apenas aumentaria o número de brasileiros que nunca leram o maior escritor do país.

Este texto já vai longo e ainda não deu a Felipe Neto seu quinhão de razão: as leituras obrigatórias não são o problema do ensino de literatura, mas há um problema. Por isso recorro ao expediente dos antigos folhetinistas e deixo esse assunto para nosso próximo e vibrante episódio – no qual nosso herói finalmente revelará como um tio santarrão o conduziu a Machado de Assis. Aguardem.

By JERÔNIMO TEIXEIRA em 28/01/2021 – 15:49

Link original da matéria:

https://oglobo.globo.com/epoca/jeronimo-teixeira/coluna-machado-de-assis-sim-obrigatorio-24859116

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