Opinião Estadão Vergonha
STF – democracia e golpe
É muito sério o que está acontecendo no Brasil. Fala-se muito em tentativa de golpe. Ele não estará em plena execução?
Bons propósitos não justificam o recurso a meios ilegais ou antiéticos.
É a isso que, infelizmente, estamos assistindo no Brasil.
A cada dia surgem novos sinais de abusos em nome da defesa da democracia.
Não se protege a Constituição violando-a nem se fortalece o Estado de Direito sem o devido processo legal.
Não julgo intenções, mas analiso fatos.
O ativismo intenso de um ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), respaldado pelo silêncio cúmplice ou a omissão irresponsável de seus pares, tem gerado, aqui e lá fora, a percepção de forte insegurança jurídica, politização do Judiciário e crescente comprometimento da própria democracia.
Os desvios, creio, começaram já vão lá cinco anos.
A Corte passou a conduzir inquéritos secretos e excessivamente elásticos para apurar fake news.
Nas mesmas condições, como bem lembrou editorial do jornal O Estado de S. Paulo,
instaurou inquéritos contra milícias digitais e as manifestações de vandalismo do 8 de Janeiro.
Sob a justificativa da excepcionalidade, hermenêuticas extensivas e fundamentações heterodoxas motivaram censuras, bloqueio de contas, quebras de sigilos bancários
e telemáticos, multas exorbitantes e indiciamentos e prisões preventivas no atacado.
Mas a coisa não para por aí.
A cada dia, talvez para manter a corda permanentemente esticada, temos uma novidade pouco amigável com a democracia.
Recente decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) de determinar, por meio de uma resolução, que as plataformas digitais poderão ser punidas caso não tirem do ar conteúdos considerados prejudiciais à lisura das próximas eleições representa mais um ataque frontal ao Marco Civil da Internet e à liberdade de expressão.
De costas para a Constituição, em mais um movimento autoritário, o TSE avança na censura prévia.
O Marco Civil da Internet está em vigor há dez anos e prevê a responsabilização dos provedores somente mediante ordem judicial específica, ou seja, quando um juiz determina a remoção de um conteúdo e a plataforma não cumpre a decisão.
O TSE, mais uma vez, invade competência exclusiva do Congresso Nacional para legislar sobre temas como fake news, discurso de ódio, etc.
O ministro aposentado do STF e ex-presidente do TSE Marco Aurélio Mello vem alertando, em sucessivas entrevistas à imprensa, sobre a necessidade de a Corte Eleitoral se ater neste ano à sua função básica, de mera coordenadora da disputa eleitoral.
Para ele, as resoluções emitidas pelo TSE para regulamentar as eleições de 2024 implicarão retrocessos à democracia, pois seus regramentos estariam sendo ditados sem respeitar os limites do Judiciário definidos pela Constituição.
E os artífices do modelo autoritário fecham o cerco a qualquer crítica ou comentário que, mesmo indiretamente, possa atingir seu poder abusivo e inconstitucional.
Como também lembrou o editorial do jornal O Estado de S. Paulo,
antes mesmo da apuração de um bate-boca envolvendo o ministro Alexandre de Moraes e seus familiares em Roma,
o então ministro da Justiça, Flávio Dino, hoje ministro do STF, declarou que o assédio poderia ser tipificado como crime contra o Estado Democrático de Direito.
O presidente Lula sentenciou que o suspeito era um ‘animal selvagem’ e prometeu ‘extirpar’ essa ‘gente que renasceu no neofascismo’.
O STF assumiu a jurisdição de um caso típico de primeira instância e despachou mandados de busca e apreensão na investigação da Polícia Federal por suposta tentativa de
abolição violenta do Estado Democrático de Direito.
Um óbvio absurdo – que ameaça se normalizar, concluiu o editorial.
Outro exemplo, amigo leitor: em ofício datado de 27 de março, o ministro Gilmar Mendes, do STF,
pede que a Polícia Federal investigue um cidadão brasileiro que teria dito algumas palavras desagradáveis no Aeroporto de Lisboa, onde o ministro fazia uma conexão durante uma viagem entre Brasília e Berlim.
O que teria dito de tão grave esse indivíduo?
Segundo relato do próprio ministro, as terríveis palavras que ele não suportou ouvir foram:
Gilmar, você já sabe, mas não custa relembrar.
Só dizer que você e o STF são uma vergonha para o Brasil e para todo o povo de bem.
Só isso, tá?
Infelizmente, um país lindo como o nosso está sendo destruído por pessoas como você.
Por fim, o inacreditável: o homem ainda publicou nas mídias sociais o vídeo do ocorrido.
Qualquer crítica é encarada como um atentado à democracia.
Não vimos isso nem nos piores momentos da ditadura militar.
O poderoso Humberto de Alencar Castelo Branco, primeiro presidente do regime militar, foi carimbado na imprensa com um comentário nada lisonjeador:
Mais feio por dentro do que por fora.
Uma alusão indelicada à feiura presidencial. O que aconteceu?
Nada. Pois bem, hoje pode acontecer. E tudo em nome da defesa da democracia.
É muito sério o que está acontecendo no Brasil.
Com um Congresso leniente, não obstante algumas exceções de parlamentares combativos, parte da imprensa surpreendentemente silenciosa, uma sociedade amedrontada e um Judiciário politizado e fascinado com o poder, caminhamos para um sistema claramente autoritário.
Fala-se muito em tentativa de golpe.
Ele não estará em plena execução?
Por Carlos Alberto Di Franco
O jornalista Carlos Alberto Di Franco escreve quinzenalmente na seção Espaço Aberto – Estadão
O jornalista Carlos Alberto Di Franco escreve quinzenalmente na seção Espaço Aberto - Estadão[/caption]
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Fala-se muito em tentativa de golpe. Ele não estará em plena execução?[/caption]



