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CONTEÚDO RODRIGO MAGALHÃES

A República dos Mechutes

Há um traço curioso da vida brasileira que se revela nos gestos mais corriqueiros.

Reclama-se do Estado, mas busca-se um padrinho para resolver o que deveria funcionar por direito.

Condena-se a corrupção dos grandes escândalos, mas naturalizam-se pequenas transgressões cotidianas: o favor conseguido pela amizade, a regra contornada pela conveniência, a vantagem obtida porque “sempre foi assim”.

Exige-se honestidade absoluta dos governantes, mas tolera-se o privilégio quando ele beneficia os nossos. Critica-se o fisiologismo em Brasília enquanto se cultiva, na vida privada, a lógica do compadrio, da indicação e da reciprocidade interessada. Há, em tudo isso, uma espécie de pacto silencioso entre a indignação moral e a acomodação prática.

Talvez nenhuma característica seja tão brasileira quanto a crença de que a mudança virá sempre de cima. Espera-se do presidente, do governador, do prefeito ou do deputado uma espécie de redenção civil capaz de corrigir décadas de hábitos, vícios culturais e deformações históricas. A política converte-se em espetáculo, enquanto a sociedade permanece como plateia.

Foi precisamente contra essa ilusão que advertiu Ortega y Gasset. Para ele, a política é um fenômeno tardio da história, uma consequência das forças intelectuais, morais e culturais que já amadureceram silenciosamente no interior da sociedade.

Quando uma ideia alcança os parlamentos, os partidos e as campanhas eleitorais, ela já percorreu um longo caminho nas universidades, nos jornais, nos círculos intelectuais, nas famílias e nos costumes.

A política, dizia Ortega, não conduz a história; apenas manifesta aquilo que já se consolidou no espírito de uma época.

No Brasil, porém, persiste a expectativa inversa: acredita-se que a troca de governantes possa substituir a formação de cidadãos. E talvez seja por isso que tantas de nossas crises pareçam eternamente reencenadas, mudando apenas os personagens.

Essa percepção não foi exclusiva de Ortega. Oliveira Vianna observava que a fragilidade das instituições brasileiras estava ligada à ausência de uma sólida cultura cívica, substituída frequentemente por relações pessoais, familiares e clientelistas. O Estado moderno foi implantado sobre estruturas sociais ainda marcadas pelo personalismo.

Décadas antes, Joaquim Nabuco afirmava que a escravidão havia deixado uma herança moral profunda, produzindo uma sociedade habituada à dependência, à tutela e à passividade diante do poder. Não se tratava apenas de uma instituição econômica, mas de uma mentalidade que moldava comportamentos.

Já Sérgio Buarque de Holanda, em Raízes do Brasil, descreveu a figura do “homem cordial”, cuja cordialidade não significa gentileza, mas a predominância dos vínculos afetivos sobre os critérios impessoais que sustentam uma ordem republicana madura. O cidadão frequentemente cede lugar ao amigo, ao compadre, ao aliado político, ao membro do mesmo grupo.

Por sua vez, Raymundo Faoro, em Os Donos do Poder, identificou a persistência de um estamento burocrático que historicamente monopolizou o aparelho estatal, fazendo do poder um patrimônio de grupos organizados mais do que uma expressão da sociedade civil.

E talvez nenhum pensador brasileiro tenha sido tão contundente quanto Roberto Campos, ao ironizar a tendência nacional de esperar soluções providenciais do Estado, como se decretos pudessem substituir hábitos, virtudes e responsabilidades individuais. Mudam-se governos, reformam-se constituições, multiplicam-se promessas de reconstrução nacional, mas permanecem intactos os costumes que sustentam as velhas estruturas.

A consequência é paradoxal: deposita-se enorme fé no voto, mas pouco investimento naquilo que dá sentido ao voto — a formação intelectual, a educação política, o debate de ideias, a construção de referências morais e culturais. Espera-se colher frutos sem cultivar o terreno.

Ortega recordava que toda transformação histórica começa numa minoria criadora.

Uma pequena parcela de indivíduos que pensa antes que os demais ajam, que formula conceitos antes que as massas os convertam em movimentos, partidos ou programas de governo. Sem essa minoria intelectual, a ação política torna-se apenas energia dispersa, força sem direção, entusiasmo sem horizonte.

Talvez por isso uma das imagens mais precisas do Brasil tenha surgido não de um tratado acadêmico, mas da pena do cartunista gaúcho Santiago, criador dos célebres Mechutes.

Eram personagens desenhados com um alvo nas nádegas, condenados a receber sucessivos chutes dos governantes, das crises econômicas, dos impostos, da inflação e das promessas não cumpridas.

O humor escondia uma constatação amarga: independentemente dos discursos, das bandeiras e das alternâncias de poder, havia sempre alguém destinado a pagar a conta.

Os Mechutes simbolizavam o cidadão comum, o trabalhador, o contribuinte, a classe média espremida entre o peso do Estado e a ineficiência das instituições. Mudavam-se os governos, alteravam-se os slogans, renovavam-se as esperanças eleitorais, mas o destino parecia permanecer o mesmo: levar o chute seguinte e acreditar que, desta vez, seria diferente.

Talvez o drama brasileiro não seja propriamente eleitoral.

Não seja sequer institucional. Seja, antes de tudo, cultural. Um país onde se discutem nomes com intensidade e ideias com superficialidade; onde se depositam expectativas messiânicas em líderes, mas se negligencia a formação das elites intelectuais e morais que antecedem toda mudança duradoura.

Porque, no fim das contas, uma sociedade não escolhe apenas seus representantes. Ela revela, através deles, aquilo que se tornou capaz de imaginar, compreender e desejar.

E, antes de perguntar quem governará o Brasil amanhã, talvez a pergunta mais incômoda seja outra: que tipo de espírito coletivo estamos formando hoje?

Afinal, como sugeria Ortega y Gasset, quando a política aparece, a verdadeira batalha histórica já foi vencida — ou perdida — muito tempo antes. E enquanto ela não for travada no campo das ideias, os Mechutes continuarão recebendo os mesmos chutes, apenas vindos de botas diferentes.

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Por: Rodrigo Schirmer Magalhães
Cientista político e Analista de Politica

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  • Gildo Ribeiro

    Gildo Ribeiro é editor do Grupo 7 de Comunicação, liderado pelo Portal 7 Minutos, uma plataforma de notícias online.

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