Tânia Regina Schirmer Moda Estilo
Quando a elegância desaparece das ruas
Há alguns dias, caminhando pelas ruas em uma manhã fria de inverno, percebi algo que já vinha me inquietando há muito tempo.
O inverno sempre foi, historicamente, a estação da elegância.
Casacos bem estruturados, tecidos nobres, botas, cachecóis, sobreposições harmoniosas, cores sóbrias, atenção aos detalhes.
Era a época em que a roupa parecia dialogar com a arquitetura das cidades, com o clima e até com o comportamento das pessoas.
Hoje, porém, basta olhar ao redor.
Pessoas usando qualquer combinação possível, roupas sem caimento, tecidos descartáveis, peças que parecem ter sido feitas para durar poucos meses, calçados que priorizam apenas o conforto imediato, sem qualquer preocupação estética.
Tudo parece improvisado.
Não existe unidade, proporção, harmonia ou acabamento.
A impressão é curiosa: nunca tivemos tanta tecnologia para produzir roupas, tantos recursos industriais, inteligência artificial, máquinas de precisão e acesso imediato às tendências globais, mas, paradoxalmente, nunca nos vestimos de maneira tão pobre do ponto de vista estético.
Essa constatação não nasce de um olhar nostálgico.
Nasce de décadas trabalhando com moda, estilo e comportamento. Fui uma das primeiras consultoras de moda e estilo do Rio Grande do Sul, tive loja de roupas e acompanhei de perto as profundas transformações desse universo. Estudei sua história, suas escolas, seus ciclos e aprendi que a moda sempre foi muito mais do que roupas.
Ela é uma linguagem.
E toda linguagem revela algo sobre a sociedade que a produz.
Quando observamos fotografias das décadas de 1920, 1930, 1940 e 1950, encontramos uma sociedade infinitamente mais limitada em tecnologia, renda e possibilidades de consumo.
Ainda assim, encontramos homens e mulheres que, mesmo pertencendo às classes trabalhadoras, demonstravam enorme cuidado com a própria apresentação.
Não era apenas uma questão financeira.
Era cultural.
Existia uma compreensão coletiva de que vestir-se era uma forma de respeito por si mesmo e pelos outros.
O sociólogo Georg Simmel afirmava que a moda sempre viveu da tensão entre pertencimento e individualidade.
Vestimo-nos para sermos reconhecidos por um grupo, mas também para expressarmos nossa identidade.
O problema contemporâneo talvez seja justamente o enfraquecimento dessas duas dimensões.
Não pertencemos verdadeiramente a lugar algum e, ao mesmo tempo, já não sabemos quem somos.
Essa desorientação produz um vestir igualmente desorientado.
Outro pensador fundamental, Gilles Lipovetsky, observou que vivemos a era do hiperconsumo.
Nunca se comprou tanta roupa e nunca as roupas duraram tão pouco.
A lógica deixou de ser qualidade para tornar-se velocidade.
O importante já não é construir um guarda-roupa coerente, mas consumir continuamente novidades que envelhecem em poucas semanas.
A roupa deixou de acompanhar o tempo das pessoas.
Passou a acompanhar o tempo dos algoritmos.
Talvez por isso a moda tenha perdido profundidade. Antes havia costureiras, alfaiates, bordadeiras, artesãos, profissionais que dedicavam horas para produzir uma única peça. Havia respeito pelo tecido, pelo corte, pelo acabamento e pela durabilidade. Hoje, muitas peças nascem praticamente descartáveis.
A quantidade venceu a qualidade.
Mas acredito que exista algo ainda mais profundo.
O problema não está apenas na indústria da moda.
Está na condição humana contemporânea.
O filósofo José Ortega y Gasset escreveu que o homem moderno passou a viver sem referências superiores.
Rompeu com tradições, abandonou autoridades morais e passou a acreditar que bastava seguir seus impulsos imediatos.
Quando tudo vale, nada possui verdadeiro valor.
Essa ausência de referências inevitavelmente chega ao vestuário.
Não sabemos mais o que significa elegância porque deixamos de discutir o significado da própria beleza.
Não sabemos o que significa refinamento porque confundimos autenticidade com improviso.
Não sabemos distinguir simplicidade de desleixo.
O psicólogo Carl Gustav Jung dizia que a desordem exterior frequentemente revela conflitos interiores.
Não afirmava isso como regra absoluta, mas chamava atenção para a relação simbólica entre o mundo interno e aquilo que projetamos externamente.
Talvez nossas roupas contem uma história que ainda não tivemos coragem de admitir.
Vivemos uma época marcada pela ansiedade, pela aceleração permanente, pela comparação constante nas redes sociais e pelo excesso de informação. Nunca tivemos tantos influenciadores e, paradoxalmente, tão poucas referências.
Influenciadores seguem tendências.
Referências constroem civilizações.
São coisas completamente diferentes.
Nossos modelos públicos mudam de opinião conforme a conveniência, trocam valores pela audiência e confundem visibilidade com grandeza.
Como esperar que uma sociedade desenvolva senso estético refinado quando suas referências culturais são tão instáveis?
A roupa acaba refletindo essa instabilidade.
- Perde identidade.
- Perde permanência.
- Perde significado.
Costuma-se dizer que a moda apenas acompanha as mudanças da sociedade.
Discordo parcialmente.
Ela também denuncia essas mudanças.
Uma sociedade organizada tende a produzir arquitetura organizada, linguagem organizada, arte organizada e também uma moda organizada.
Uma sociedade fragmentada produz exatamente o contrário.
Por isso acredito que a perda da elegância não seja apenas um fenômeno estético.
Ela é um sintoma cultural.
Talvez a roupa seja apenas a superfície visível de uma crise muito mais profunda: a dificuldade contemporânea de encontrar sentido, ordem, permanência e beleza.
Não defendo um retorno literal às décadas de 1920 ou 1950.
Cada época possui seus desafios, seus costumes e suas formas de expressão. A moda precisa evoluir, incorporar novas tecnologias, novos tecidos e novas possibilidades.
O que me preocupa é termos evoluído tanto na técnica e, ao mesmo tempo, regredido tanto na sensibilidade.
- Elegância nunca foi sinônimo de luxo.
- Sempre foi sinônimo de cuidado.
- Cuidado com o corpo.
- Com a imagem.
- Com o ambiente.
- Com as pessoas.
- E, sobretudo, consigo mesmo.
Talvez seja justamente isso que esteja faltando.
Mais do que roupas melhores, precisamos reencontrar um olhar mais atento para a beleza, para a ordem e para o significado das pequenas escolhas cotidianas.
Porque, no fim das contas, vestir-se nunca foi apenas cobrir o corpo.
Sempre foi uma maneira silenciosa de revelar a própria alma.
Tânia Regina Schirmer
Consultora de Moda e Estilo
Design de moda
O Portal 7Minutos deseja a todos um bom dia pic.twitter.com/76cDh70cEI
— 7Minutos Notícias (@7minutos_news) December 15, 2025
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