Entrevista marcante!!!
Entrei no estúdio sem dizer uma palavra. Noah Ryan Mayer sequer percebeu minha chegada.
Diante da câmera montada sobre um robusto tripé, alternava o olhar entre o monitor e um storyboard aberto sobre a mesa.
Com um lápis nas mãos, fazia pequenas anotações, riscava detalhes, voltava algumas páginas e, logo em seguida, aproximava o desenho do enquadramento que observava pela lente.
Uma mecha dos longos cabelos insistia em cair sobre seus olhos.
Sem interromper a concentração, ele a afastava com um movimento quase automático de cabeça.
Em seguida, girava delicadamente o anel de foco da objetiva, procurando o ponto exato onde luz, textura e composição finalmente se encontravam.
Espalhados pela mesa havia dezenas de folhas, referências fotográficas, plantas de cena e storyboards meticulosamente desenhados.
Não eram apenas esboços.
Eram as primeiras imagens de um universo que ainda nem existia diante das câmeras, mas que já ganhava vida na imaginação de seu diretor de fotografia. Preferi permanecer em silêncio por alguns minutos.
Não queria interromper aquele ritual criativo.
Era evidente que Noah não estava simplesmente preparando uma filmagem; estava construindo a maneira como o público enxergaria o mundo de Antropoceno.
Somente quando ele terminou de conferir as últimas marcações no storyboard e afastou os olhos do monitor, finalmente pôde me cumprimentar.
— Posso atrapalhar por alguns minutos? — perguntei.
Ele sorriu, retribuiu o cumprimento e apontou para a cadeira ao lado da mesa. — Claro.
Senta aí.
Acho que finalmente encontrei a configuração que estava procurando para a primeira cena.
Puxei a cadeira enquanto ele ainda mantinha um dos olhos no monitor da câmera.
Ao nosso redor, lentes, filtros, plantas de iluminação e dezenas de storyboards revelavam que, antes mesmo do primeiro “ação”, Antropoceno já existia na imaginação de sua equipe.
Aos 25 anos, Noah Ryan Mayer nasceu em Wonthaggi, no estado de Victoria, Austrália.
Formado em Cinematografia pelo Victorian College of the Arts, em Melbourne, está no Brasil para assumir a direção de fotografia de Antropoceno, projeto que combina ficção científica, natureza, tecnologia e memória.
Antes de começarmos a conversa, havia um pequeno desafio a ser superado.
Noah ainda está dando os primeiros passos no aprendizado do português, enquanto meu inglês está longe de permitir uma entrevista com a tranquilidade que uma conversa como essa merece.
Como sua intérprete não pôde estar presente naquele dia, recorremos à tecnologia.
Cada um de nós colocou um fone tradutor com inteligência artificial.
Eu fazia as perguntas em português, Noah as ouvia em inglês.
Suas respostas retornavam traduzidas para o português.
Com tudo pronto, liguei o gravador, abri meu bloco de anotações e fiz a primeira pergunta.
Gildo Ribeiro — De onde veio essa paixão pelo cinema?
Noah Ryan Mayer — Ganhei minha primeira câmera aos oito anos e passei a fotografar tudo o que via.
Mais tarde, comecei a fazer pequenos experimentos gravando com o celular e descobri que o cinema me permitia ir muito além da fotografia.
A possibilidade de transformar uma mesma cena apenas mudando a luz foi o que realmente me conquistou.
Gildo Ribeiro — Você lembra o que costumava fotografar naquela época?
Noah Ryan Mayer — Tudo. Minha casa, meus amigos, a rua, árvores, objetos simples.
Eu gostava de observar como tudo mudava dependendo da luz do dia.
Acho que ali começou uma curiosidade que nunca parou.
Gildo Ribeiro — Quando você percebeu que queria estudar cinema de verdade?
Noah Ryan Mayer — Foi quando percebi que não bastava gostar de imagens. Eu queria entender como elas funcionavam dentro de uma história.
A fotografia despertou minha curiosidade, mas o cinema acrescentou movimento, ritmo e emoção. Foi aí que decidi estudar cinematografia.
Gildo Ribeiro — Você se formou em Cinematografia pelo Victorian College of the Arts, em Melbourne. O que essa formação mudou na sua forma de olhar para uma cena?
Noah Ryan Mayer — Ela organizou aquilo que antes era apenas intuição. Passei a entender melhor a relação entre câmera, personagem, luz e espaço. Aprendi que cada decisão visual precisa servir à história .
Gildo Ribeiro — Essa talvez seja uma das coisas mais difíceis de explicar: a diferença entre uma imagem bonita e uma imagem que conta uma história.
Noah Ryan Mayer — Uma imagem bonita chama atenção.
Uma imagem que conta uma história permanece com você.
A luz mais bonita nem sempre é a certa; a luz certa é a que ajuda o público a sentir o que o personagem está vivendo.
Gildo Ribeiro — Durante sua formação, você passou por diferentes funções dentro de uma equipe de filmagem. O quanto essa experiência contribuiu para o diretor de fotografia que você é hoje?
Noah Ryan Mayer — Contribuiu muito. Trabalhar como assistente de câmera e de iluminação me fez entender que um filme é construído por muitas mãos.
Hoje consigo compreender melhor o trabalho de cada departamento e isso facilita muito a comunicação durante uma filmagem.
Gildo Ribeiro — Você acredita que todo diretor de fotografia deveria passar por essas etapas?
Noah Ryan Mayer — Não existe uma regra, mas para mim foi muito importante.
Aprendi a respeitar cada função dentro do set.
Conhecendo o trabalho da equipe, consegue tomar decisões mais conscientes.
Gildo Ribeiro — Seu estilo visual é frequentemente associado ao uso da luz natural e de imagens com forte atmosfera. Isso surgiu como uma escolha ou aconteceu naturalmente?
Noah Ryan Mayer — Acho que aconteceu naturalmente. Sempre gostei de observar como a luz muda ao longo do dia.
Às vezes, um pequeno raio de sol diz muito mais do que uma iluminação extremamente elaborada.
Gosto quando a luz parece fazer parte daquele ambiente, sem chamar atenção para si mesma.
Gildo Ribeiro — Existem diretores de fotografia que influenciaram esse olhar?
Noah Ryan Mayer — Muitos. Roger Deakins e Emmanuel Lubezki são referências importantes para mim.
Cada um tem uma maneira muito própria de contar histórias através das imagens.
Gildo Ribeiro — A Austrália tem uma tradição muito forte no cinema pós-apocalíptico, especialmente com Mad Max. Essa referência chega de alguma forma ao seu trabalho?
Noah Ryan Mayer — Sim, com certeza.
Cresci admirando o trabalho de grandes diretores de fotografia australianos como Simon Duggan, John Seale e Dean Semler.
Gildo Ribeiro — Mad Max revolucionou o subgênero distópico e pós-apocalíptico. O visual árido, a crítica social e a escassez de recursos marcaram toda uma geração. Você consegue fazer algum paralelo entre esse universo e Antropoceno?
Noah Ryan Mayer — (sorrindo) Sim… ambos têm um diretor de fotografia australiano. (risos)
Falando sério, acho que a semelhança praticamente termina aí.
Mad Max construiu uma estética muito própria, baseada na aridez e no caos.
Antropoceno segue um caminho diferente. Existe um mundo pósapocalíptico, mas ele é muito mais tecnológico e traz outras questões visuais e narrativas.
Gildo Ribeiro — Você continua estudando mesmo depois de formado.
Isso é uma necessidade para quem trabalha com cinematografia?
Noah Ryan Mayer — Com certeza. A tecnologia muda o tempo todo, mas não é só por isso.
Sempre existe uma nova maneira de iluminar uma cena ou de contar uma história.
Acho que nunca deixamos de aprender.
Gildo Ribeiro — E foi nesse período de desenvolvimento profissional que surgiu o convite para integrar a equipe de Antropoceno?
Noah Ryan Mayer — No começo achei que fosse apenas uma conversa informal.
No nosso meio isso acontece bastante.
Você troca ideias, mas nem sempre um projeto realmente acontece.
Gildo Ribeiro — Em que momento você percebeu que era para valer?
Noah Ryan Mayer — Quando a produtora voltou a tocar no assunto para formalizar o convite, aí percebi que aquele desafio realmente iria acontecer.
Fiquei muito empolgado, porque trabalhar em um filme de ficção científica, com liberdade para construir uma identidade visual ao lado do diretor, era exatamente o tipo de projeto que eu procurava.
Gildo Ribeiro — O que mais chamou sua atenção quando você conheceu Antropoceno?
Noah Ryan Mayer — A proposta. Não era apenas criar imagens bonitas.
O filme apresenta um mundo que mistura natureza, tecnologia e memória humana.
Isso abre muitas possibilidades visuais.
É um daqueles projetos que fazem você pensar muito antes mesmo de ligar a câmera.
Gildo Ribeiro — Imagino que, nesse momento, os storyboards passem a ter um papel importante.
Noah Ryan Mayer — Fundamental. Eles são uma espécie de mapa visual. Claro que mui ta coisa muda durante as filmagens, mas gosto de chegar ao set sabendo o que estamos procurando.
Gildo Ribeiro — Depois de tudo o que conversamos, o que você espera que o público sinta quando assistir a Antropoceno pela primeira vez?
Noah Ryan Mayer — Espero que as pessoas se sintam parte daquele mundo.
Se, em algum momento, elas esquecerem que estão assistindo a um filme e simplesmente mergulharem naquela história, acho que teremos cumprido nossa missão.
Gildo Ribeiro — E para quem já está acompanhando o projeto desde agora, o que pode esperar da fotografia de Antropoceno?
Noah Ryan Mayer — Posso dizer que estamos colocando muito cuidado em cada imagem.
Nada está sendo pensado por acaso. Espero que o público perceba isso quando assistir ao filme.
Agradeci a Noah pelo tempo que dedicou à nossa conversa, desliguei o gravador e retirei o fone tradutor.
Depois de um último aperto de mão, ele voltou naturalmente ao seu trabalho.
Em poucos segundos, já estava novamente diante dos storyboards e da câmera, completamente concentrado, como se nossa entrevista tivesse sido apenas uma breve pausa em seu processo criativo.
Enquanto caminhava em direção à saída, olhei pela última vez para o estúdio.
Noah permanecia diante da câmera, fazendo pequenos ajustes, conferindo mais uma vez o storyboard e imaginando imagens que ainda levarão algum tempo para chegar às telas.
Saí dali com a mesma impressão que tive ao entrar.
Antes mesmo do primeiro “ação”, Antropoceno já existia ali, entre desenhos, anotações e a busca incansável pela imagem perfeita.
Uma coisa ficou evidente durante nossa conversa: para Noah Ryan Mayer, fotografar um filme não é apenas registrar cenas.
É construir emoções através da luz.
📰 Por Gildo Ribeiro
Editoria de Cinema – Portal 7Minutos – Anápolis
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— 7Minutos Notícias (@7minutos_news) December 15, 2025
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