poderia ter mudado a história
VASP 375: o dia em que o Brasil esteve a minutos de viver seu próprio “11 de Setembro”
Treze anos antes dos ataques aos Estados Unidos, um Boeing com 105 pessoas a bordo foi sequestrado no Brasil. O plano era atingir o Palácio do Planalto.
Entre tiros, um copiloto morto, um caça Mirage, uma tentativa de pouso em Anápolis e manobras quase inacreditáveis, um comandante impediu uma tragédia que poderia ter mudado a história brasileira.
Parece roteiro escrito para um thriller de Hollywood.
Mas aconteceu no Brasil.
Na manhã de 29 de setembro de 1988, um Boeing 737 da VASP transformou-se, durante algumas horas, em uma possível arma contra o coração político do país.
Era o voo VASP 375, operado pelo Boeing 737-317 de prefixo PP-SNT.
A rota começava em Porto Velho e terminaria no Rio de Janeiro, depois de escalas em Cuiabá, Brasília, Goiânia e Belo Horizonte.
Na etapa final, entre Belo Horizonte e o Rio, tudo mudou.
A bordo estava Raimundo Nonato Alves da Conceição, então com 28 anos. Armado com um revólver, ele anunciou o sequestro e tentou chegar à cabine.
Seu objetivo não era simplesmente exigir dinheiro ou fugir para outro país.
Queria levar o Boeing novamente para Brasília.
E pretendia atingir o Palácio do Planalto, sede da Presidência da República, onde governava José Sarney.
A própria Polícia Federal registra o VASP 375 em seu material de formação sobre segurança da aviação como um dos atos de interferência ilícita de maior repercussão da história brasileira e confirma que o objetivo declarado era colidir a aeronave contra o Planalto.
TIROS DENTRO DO BOEING
Quando Raimundo tentou chegar à cabine, o comissário Ronaldo Dias procurou impedi-lo e foi atingido.
O sequestrador então disparou contra a porta da cabine — numa época em que portas blindadas como as atuais ainda não faziam parte daquele sistema de segurança.
Outro tripulante, Gilberto Renhe, também foi atingido.
No comando estavam o comandante Fernando Murilo de Lima e Silva e o copiloto Salvador Evangelista.
Foi nesse momento que Murilo tomou uma decisão silenciosa e fundamental: acionou no transponder o código 7500, sinal internacional utilizado para indicar interferência ilícita ou sequestro.
O controle de tráfego percebeu que algo gravíssimo estava acontecendo.
Mas a reação provocou outro momento trágico.
Quando Salvador Evangelista tentou responder a uma comunicação pelo rádio, Raimundo atirou.
O copiloto morreu dentro da cabine.
A partir daquele instante, Fernando Murilo estava praticamente sozinho no comando de um Boeing danificado, com um colega morto ao seu lado e um homem armado exigindo:
Brasília.
O PALÁCIO DO PLANALTO ERA O ALVO
Não se tratava de uma interpretação construída décadas depois.
A intenção de atingir o Palácio do Planalto aparece nos registros históricos do episódio e também no material da Polícia Federal sobre segurança da aviação.
O Brasil vivia uma situação que, vista hoje, é inevitavelmente comparada aos atentados de 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos.
A diferença fundamental é que, naquele 29 de setembro de 1988, havia um comandante tentando impedir que o sequestrador transformasse seu avião em uma arma.
Fernando Murilo começou a ganhar tempo.
- Argumentou.
- Negociou.
- Tentou convencer Raimundo de que determinadas aproximações não seriam possíveis.
E havia outro inimigo crescendo silenciosamente:
- o combustível estava acabando.
ANÁPOLIS ENTROU NA HISTÓRIA DO VOO 375
Um detalhe especialmente importante para Goiás costuma desaparecer nas versões resumidas dessa história.
Durante a crise, houve tentativa de levar o Boeing para um pouso seguro, e uma das alternativas consideradas foi a Base Aérea de Anápolis.
O sequestrador, entretanto, impediu que o comandante concretizasse o pouso.
Brasília também foi considerada.
Mais uma vez, Raimundo não permitiu.
O Boeing continuou no ar.
Isso coloca Anápolis em um capítulo extraordinário da história da aviação brasileira: por alguns instantes, a principal base de defesa aérea do país poderia ter se tornado o ponto final daquele sequestro.
Mas ainda havia mais.
UM MIRAGE DA FAB SUBIU ATRÁS DO BOEING
A Força Aérea Brasileira entrou em ação.
Um Mirage III foi acionado para acompanhar o Boeing sequestrado.
Enquanto passageiros viviam momentos de absoluto terror dentro da aeronave, do lado de fora a defesa aérea brasileira acompanhava aquele 737 que já não obedecia à sua rota comercial normal.
Era uma situação praticamente sem precedentes.
- Um avião comercial cheio de passageiros.
- Um sequestrador armado.
- Um copiloto morto.
- Tripulantes feridos.
- Pouco combustível.
E Brasília havia sido apontada como alvo.
ENTÃO O COMANDANTE FEZ O IMPROVÁVEL
Fernando Murilo precisava retirar Raimundo da posição de domínio da cabine.
Foi quando tomou uma decisão que entraria para a história da aviação brasileira.
Ele submeteu o Boeing a manobras extremamente violentas, incluindo um tonneau, uma rotação em torno do eixo longitudinal da aeronave.
Imagine um Boeing 737 comercial, carregado de passageiros, realizando uma manobra associada muito mais ao universo militar e acrobático do que a um voo regular.
O objetivo era físico e desesperadamente simples:
- derrubar o sequestrador.
- A manobra o lançou para longe da posição que ocupava.
- Mas Raimundo conseguiu se recuperar.
Murilo ainda precisaria continuar lutando com o avião, com o combustível e com o homem armado.
O Boeing finalmente chegou a Goiânia.
Às 13h45, aproximadamente, o VASP 375 pousou no Aeroporto Santa Genoveva.
Mas o drama ainda não havia acabado.
HORAS DE NEGOCIAÇÃO EM GOIÂNIA
- Em solo, o sequestro continuou.
- Raimundo exigiu outra aeronave para fugir.
- As negociações avançaram durante horas.
- Somente no início da noite veio o desfecho.
Ao deixar o Boeing utilizando o comandante Fernando Murilo como escudo, Raimundo foi atingido por disparos efetuados por agentes da Polícia Federal.
O sequestrador foi hospitalizado.
Morreu dias depois.
A causa oficial de sua morte foi associada a complicações decorrentes de anemia falciforme, e não diretamente aos ferimentos dos tiros, segundo o laudo citado nas reconstruções históricas do caso.
A circunstância incomum alimentaria posteriormente especulações sobre sua morte, mas não encontramos documentação confiável que sustente versões de execução ou injeção letal.
105 PESSOAS ESTAVAM NO AVIÃO
Os registros disponíveis apontam 98 passageiros e sete tripulantes, totalizando 105 pessoas.
Uma morreu: Salvador Evangelista.
Outras ficaram feridas.
104 sobreviveram.
O tamanho da tragédia evitada ajuda a explicar por que o caso continua impressionante quase quatro décadas depois.
Mas existe uma pergunta inevitável:
Como um homem armado conseguiu entrar em um Boeing?
A segurança aeroportuária de 1988 estava muito distante dos padrões atuais.
Detectores de metais, equipamentos de raio-X, procedimentos de inspeção e portas reforçadas de cockpit não funcionavam no mesmo padrão de hoje.
Anos depois, a Justiça chegou a responsabilizar a Infraero pela deficiência de segurança relacionada ao episódio, em ação envolvendo a filha do copiloto Salvador Evangelista.
O AVIÃO SOBREVIVEU — E CONTINUOU VOANDO
Existe ainda um detalhe quase cinematográfico.
O Boeing PP-SNT não terminou sua história naquele dia.
A aeronave havia realizado seu primeiro voo em 1986.
Depois da passagem pela VASP, acabou operando posteriormente nos Estados Unidos.
Chegou à Southwest Airlines, onde recebeu a matrícula N698SW.
Somente décadas depois, em 2013, encerrou sua carreira operacional e acabou desmontado.
Ou seja:
- o avião que quase atingiu o centro do poder brasileiro continuou transportando passageiros por muitos anos depois daquela quinta-feira de 1988.
E O HERÓI?
Fernando Murilo recebeu a Ordem do Mérito Aeronáutico e outras homenagens.
Em 2001 — curiosamente, justamente no ano dos atentados de 11 de setembro — recebeu do Sindicato Nacional dos Aeronautas o troféu Destaque Aeronauta.
Mas havia uma ausência que o incomodava.
Segundo relatos publicados posteriormente, Murilo dizia nunca ter recebido um agradecimento pessoal ou oficial do presidente José Sarney, justamente o homem que provavelmente era o principal alvo do sequestrador.
Fernando Murilo morreu em 2020, aos 76 anos.
Seu nome, entretanto, permaneceria ligado para sempre ao voo 375.
13 ANOS DEPOIS, O MUNDO VERIA ALGO TERRIVELMENTE PARECIDO
Em 11 de setembro de 2001, aviões comerciais sequestrados foram deliberadamente utilizados como armas nos Estados Unidos.
O mundo ficou chocado diante de uma estratégia terrorista que parecia inimaginável.
Para quem conhecia a história do VASP 375, entretanto, a ideia de utilizar um avião de passageiros contra um edifício governamental não era completamente inédita.
O Brasil já havia chegado perigosamente perto disso 13 anos antes.
Existe ainda uma história particularmente intrigante.
Integrantes da produção do filme O Sequestro do Voo 375 afirmaram que, durante as pesquisas para o longa, receberam informação de que recortes jornalísticos sobre o caso brasileiro teriam sido encontrados entre materiais relacionados a Osama bin Laden.
É uma afirmação explosiva.
Mas é importante separar narrativa de comprovação documental.
O 7Minutos não encontrou, até esta pesquisa, documentação oficial americana independente que permita afirmar como fato que o caso VASP 375 tenha inspirado os atentados de 11 de setembro.
Portanto, qualquer ligação direta entre os dois episódios deve continuar sendo tratada como hipótese ou relato atribuído à equipe do filme — e não como conclusão histórica comprovada.
A HISTÓRIA FINALMENTE VIROU CINEMA
Durante décadas, o episódio permaneceu surpreendentemente desconhecido de grande parte dos brasileiros.
Até que ganhou uma superprodução nacional.
O Sequestro do Voo 375, dirigido por Marcus Baldini, levou a história aos cinemas em 2023.
A produção realizou anos de pesquisa e contou com consultoria de especialistas ligados à aviação e à segurança.
Para recriar as situações dentro da aeronave, foi utilizada inclusive estrutura baseada em partes de avião real, com mecanismos que permitiram reproduzir as violentas movimentações do Boeing.
No filme, Danilo Grangheia interpreta Fernando Murilo, enquanto Jorge Paz vive Raimundo Nonato.
O cinema finalmente apresentou para uma nova geração uma história que o próprio Brasil quase havia esquecido.
MUITO MAIS QUE UM “QUASE 11 DE SETEMBRO”
Talvez seja injusto lembrar o VASP 375 apenas como o 11 de Setembro brasileiro que não aconteceu.
O episódio possui sua própria dimensão histórica.
- Houve um homem disposto a transformar um avião comercial em arma.
- Houve falhas graves de segurança.
- Houve passageiros que acreditaram que não voltariam para casa.
- Houve tripulantes feridos.
- Houve um copiloto, Salvador Evangelista, que perdeu a vida cumprindo sua função.
- E houve um comandante, Fernando Murilo de Lima e Silva, que continuou pilotando quando quase tudo dizia que seria impossível.
Entre Brasília, Anápolis e Goiânia, durante algumas horas de 29 de setembro de 1988, o Brasil esteve diante de uma tragédia potencialmente gigantesca.
Um Boeing chegou a ser apontado para o centro do poder da República.
- E não chegou ao alvo.
- Não porque o perigo fosse pequeno.
Mas porque, dentro daquela cabine, um piloto decidiu que faria tudo o que estivesse ao seu alcance para impedir.
- O voo 375 pousou.
- Brasília permaneceu intacta.
E 104 pessoas saíram vivas de uma história que, se tivesse terminado de outra maneira, provavelmente estaria hoje em todos os livros sobre terrorismo e segurança da aviação mundial.
O Boeing continuou no ar.
Isso coloca Anápolis em um capítulo extraordinário da história da aviação brasileira: por alguns instantes, a principal base de defesa aérea do país poderia ter se tornado o ponto final daquele sequestro.
Mas ainda havia mais.
UM MIRAGE DA FAB SUBIU… pic.twitter.com/9W6Tm9QCZl
— 7Minutos Notícias (@7minutos_news) August 25, 2026
O Portal 7Minutos deseja a todos um bom dia pic.twitter.com/76cDh70cEI
— 7Minutos Notícias (@7minutos_news) December 15, 2025
Siga o ‘ 7Minutos’ nas redes sociais
X (ex-Twitter)
Instagram
Facebook
Getter
Truth Social




