"Xepa do Lula"
Pressão das redes e da oposição faz governo recuar em medida para estender a validade dos alimentos
Com a repercussão, o Palácio do Planalto recuou da medida.
Após enfrentar forte reação pública com a normativa da Receita Federal sobre o monitoramento de transações financeiras, incluindo o Pix, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) volta a ser pressionado pelas redes sociais e pela oposição após propor a extensão da validade dos alimentos para reduzir preços.
Lula planeja oficializar a xepa e liberar alimentos vencidos para ajudar nos preços.
Parabéns, @LulaOficial!Sem a picanha, cervejinha mas com a Xepa !
Agora é sustentabilidade gourmet: come-se o que sobrou e paga-se o que não vale. 👏#ImpeachmentDoLulaJá janja faz o L lula pic.twitter.com/L7nNhyFM4H— Mídia Livre (@MidiaLibre) January 23, 2025
Com a repercussão, o Palácio do Planalto recuou da medida.
O ministro do Desenvolvimento Agrário, Paulo Teixeira, classificou a proposta como um “equívoco de comunicação” e afirmou que o governo descarta qualquer intervenção nos preços.
Isso aí já foi corrigido.
Foi um equívoco de comunicação. Isso está fora.
O presidente já falou, já afastou qualquer possibilidade de intervenção nisso.
A Casa Civil já esclareceu, declarou o ministro.
A declaração de Teixeira segue na linha do que o ministro-chefe da Casa Civil, Rui Costa, disse na quarta-feira (22) sobre o caso. Em entrevista à CNN Brasil, Costa alegou que o governo não adotaria a medida.
Foram várias sugestões [do setor varejista] que estarão incluídas nessas análises que iremos fazer agora.
Uma dessas sugestões é essa [de ampliar a data de validade dos alimentos], e eles relataram lá a existência de prateleiras diferentes
ou até de supermercados diferentes que vendem produtos com a validade vencida.
Essa não é a cultura do Brasil, não é a prática do Brasil, então não vejo nenhuma possibilidade dessa sugestão específica ser adotada, afirmou Costa.
No ano passado, associações da indústria alimentícia já haviam sugerido a revisão das regras para a validade dos alimentos com a adoção da prática do “best before”, adotada nos Estados Unidos e no Canadá.
O que significa Xepa?
– Comida de baixa qualidade
Na feira, a xepa é o resto de mercadoria que é vendida a um preço mais baixo.
Restos de comida
A xepa é resto de comida que não foi consumido.Lula prometeu, Lula cumpriu, o póbi voltou a ter valor!
— Italo Marsinho (@ItaloMarsinh0) January 22, 2025
Nesse caso, a frase “Válido até”, seguida da data de vencimento, seria substituída por “Melhor consumir até”.
A crise ganhou força com acusações de que o governo estaria, mais uma vez, agindo de forma a prejudicar as classes mais vulneráveis.
Críticos alegaram que a medida abriria espaço para a comercialização de alimentos impróprios para consumo, ampliando o risco para a saúde da população mais pobre.
Parlamentares da oposição não pouparam ataques ao governo.
O deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) postou que
a picanha não veio, e se vier, será podre, ao fazer referência à promessa eleitoral de Lula de que o brasileiro voltaria a comer esse tipo de carne.
Além disso, o parlamentar do PL também afirmou que a mobilização popular foi fundamental para forçar o recuo da gestão petista.
Se as redes já estão fazendo o governo recuar, milhões nas ruas farão ele parar.
Já deputado federal Kim Kataguiri (União-SP) ironizou a justificativa oficial para a discussão da medida.
Ué, a economia não estava bombando?!
O que aconteceu que agora querem oficializar a xepa?
É uma mentira atrás da outra, mas o governo não consegue sustentar
. A realidade sempre se impõe!, destacou.
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) associou o episódio ao desgaste recente da normativa da Receita Federal.
Lula tem sede por impostos, tentou usar o PIX para jogar o pobre na malha fina da Receita e agora quer normalizar comida vencida para os mais vulneráveis.
Quando é exposto, joga a culpa na comunicação e em quem aparecer na frente”, criticou. Primeiro o PIX… agora comida vencida… Qual será a próxima?
Com o Lula, o pobre não tem um dia de paz!, disse.
A força do povo derrubou a xepa! vamos encher as ruas de novo, FORA LULA #ImpeachmentDoLulaJa pic.twitter.com/jnIKDPEqUe
— Iane menezes (@iane_menezes) January 23, 2025
Problemas estruturais do governo desaguam em crises nas redes
Para o cientista político Adriano Cerqueira, professor do Ibmec de Belo Horizonte, o episódio envolvendo a proposta de estender a validade dos alimentos é mais um exemplo de uma tentativa de maquiar problemas estruturais.
Cerqueira vê o recuo como resultado da forte reação nas redes sociais e da incapacidade do governo em lidar com essas plataformas.
Essa questão da xepa foi mais uma tentativa de disfarçar o problema estrutural da inflação.
A ideia foi tão mal recebida que, poucas horas após o anúncio, o governo precisou recuar.
As redes sociais mais uma vez mostraram sua capacidade de amplificar a opinião pública junto aos agentes políticos, salientou.
Além disso, ele avalia que o governo enfrenta dificuldades com a comunicação digital.
O PT e o presidente Lula ainda não entenderam como funcionam as redes sociais.
É um governo que eu costumo dizer muito analógico.
Eles estão apanhando porque não dominam essa comunicação e, mais importante, porque não têm o que entregar, afirmou Cerqueira.
Os problemas da comunicação do governo levaram Lula a mudar o comando da Secretaria de Comunicação da Presidência da República (Secom) neste mês
. O publicitário Sidônio Palmeira, marqueteiro da campanha de 2022, assumiu a vaga do petista Paulo Pimenta.
A troca ocorreu em meio à crise do Pix e ainda não surtiu o efeito esperado pelo Palácio do Planalto.
A XEPA DO GOVERNO LULA PT E A PVF A POLÍCIA DA CORRUPÇÃO !!!pic.twitter.com/KeeGYZRsUf pic.twitter.com/niuP2DtPGb
— OS PETRALHAS (@AreiaGrao_) January 24, 2025
Modelo de comunicação do governo Lula ficou preso ao passado
De acordo com o cientista político Felipe Rodrigues, o governo enfrenta um “efeito dominó” de desgaste, em que cada crise diminui sua credibilidade e enfraquece sua capacidade de governar.
Cada vez que o governo precisa explicar uma medida após reação popular negativa, como ocorreu com o Pix e agora com os alimentos, sua capacidade de propor e implementar novas políticas fica comprometida.
A população passa a olhar com desconfiança qualquer nova iniciativa, explicou.
Rodrigues também observa que esse desgaste fortalece a oposição, principalmente nas redes sociais.
Parlamentares de oposição com forte engajamento digital amplificam rapidamente as críticas ao governo, criando uma pressão constante e em tempo real.
Para o cientista político Elton Gomes, professor da Universidade Federal do Piauí (UFPI), a principal fragilidade do governo Lula 3 vai além da comunicação.
O problema não é de comunicação, o problema também é de comunicação.
Esse não é nem de longe o principal problema do governo. O que temos é uma coalizão ineficiente e cara, prioridades erráticas, conflitos na execução de políticas públicas e falta de clareza nas metas administrativas.
Tudo isso é agravado por um gasto público crescente que dificulta uma gestão mais ampla e planejada, explica Gomes.
XEPA DO LULA, MELHOR QUE PICANHA. pic.twitter.com/pM9JBhrc0x
— Moreno®PapiLoko® (@Tiagosc88) January 23, 2025
Ele aponta que a estrutura comunicacional do governo ainda está presa a paradigmas antigos, enquanto o modelo de mídia descentralizada exige novas estratégias.
Esse grupo político, assim como outros grupos progressistas pelo mundo, está aferrado ao paradigma da mídia legada – grandes jornais, emissoras de rádio e TV – que dominaram a comunicação política por décadas.
Hoje, vivemos em um modelo em que muitos criam e reproduzem informações em tempo real, gerando um filtro bolha e um viés de confirmação.
Isso subverteu o papel tradicional dos gatekeepers e favoreceu a direita, que tem utilizado a mídia descentralizada de forma mais eficaz.
Segundo Gomes, essa transformação midiática expõe um desafio estrutural para o Partido dos Trabalhadores e a esquerda brasileira, que ainda precisa adaptar suas estratégias ao novo cenário de comunicação global.
Inflação sobre alimentos pressiona governo
Apesar da promessa de alimentos mais baratos, a inflação sobre o setor fechou em 8,23% no ano passado. De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) liberados no início do mês, a carne foi a mais atingida, registrando um aumento de 20,84%, tornando-se o item vilão da inflação no grupo de alimentos do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA).
No geral, a inflação oficial do Brasil fechou em 4,83%, acima do limite máximo da meta estipulada pelo governo federal.
O aumento dos preços foi causado por fatores ambientais e econômicos.
A carestia dos alimentos no ano passado, associada a problemas climáticos, reduziu a oferta de mercadorias.
Por outro lado, o dólar também foi visto como outro elemento de pressão. Além de encarecer parte dos produtos, a moeda americana também contribuiu para estimular as exportações de itens.
Além disso, a falta de medidas efetivas por parte do governo federal para o corte de gastos e controle das contas públicas foi outro componente que pesou nessa questão.
Outro produto que chamou atenção foi o café moído.
Nesse caso, a inflação alcançou 39,6% no ano passado. Foi a maior variação desde 2021 (50,24%).
A previsão do IBGE é que a inflação dos alimentos neste ano não tenha o mesmo aumento do que o ano passado.
No entanto, o mercado prevê que os preços devem continuar pressionando o bolso do brasileiro em um nível acima da média geral do IPCA.
Por Vinícius Sales
🚨Que comecem os memes!: Lula avalia “oficializar a xepa” e permitir a venda de alimentos vencidos para tentar reduzir os preços nos supermercados. pic.twitter.com/HOwCxfEvji
— ALBERTO IANNUZZI (@ALBERTOIANNUZZ6) January 22, 2025
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