Crítica:

‘007 – Sem Tempo Para Morrer’ encerra sequência de Daniel Craig em grande estilo

Apesar de ser um personagem recorrente há 25 filmes e quase 60 anos, o James Bond de cada geração tem suas características próprias.

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‘007 – Sem Tempo Para Morrer’ encerra sequência de Daniel Craig em grande estilo

A versão de Daniel Craig possivelmente é a mais humanizada de todas – a que mais erra, mais se expõe, mais se arrepende de coisas que fez ou deixou de fazer e mais se entrega às suas emoções.

E em ‘Sem Tempo Para Morrer’, que estreia nesta quinta-feira (30), temos a aventura mais humanizada do atual 007, e talvez a mais trágica do personagem desde ‘A Serviço Secreto de Sua Majestade’ (1969).

Sequência direta dos acontecimentos de ‘Spectre’ (2015) – e essa é uma característica dos filmes com Craig, filmes menos episódicos e a construção de um universo próprio – a trama traz um Bond afastado das atividades de campo há cinco anos, recluso na Jamaica.

O MI6 também mudou, uma nova agente, Nomi (Lashana Lynch), ocupa o cargo de 007 e como o próprio M. (Ralph Fiennes), diferente dos tempos da Guerra Fria, está cada vez mais difícil saber quem é o inimigo, que se espalha pelo ar, como éter.

Apesar da prisão de Ernst Stavro Blofeld (Christoph Waltz), a Spectre ainda usa seus tentáculos para espalhar o terror, e uma nova ameaça, ainda mais sombria, espreita nas sombras.

Tão sombria que MI6 e CIA a investigam separadamente, sem contar com a tradicional cooperação mútua entre Reino Unido e Estados Unidos. Esse distanciamento faz com que o veterano Felix Leiter (Jeffrey Wright) procure o know-how de Bond para auxiliar os norte-americanos.

Poucas coisas poderiam tirar o agente da aposentadoria, e vingança pessoal é uma delas.

Já com 53 anos, Daniel Craig garantiu que ‘Sem Tempo Para Morrer’ seria sua última empreitada como Bond.

Depois de operar o joelho, fazer uma cirurgia de reconstrução no ombro direito e cortar fora a ponta do dedão, o ator quer dar um tempo nas cenas de ação mais ousadas.

Mas não se engane: não há falta delas no novo filme.

O diretor Cary Joji Fukunaga (primeiro norte-americano a dirigir um 007) conduz algumas das melhores e mais eletrizantes sequências da franquia. Destaque para a perseguição de moto e carro nos becos italianos ainda no começo do filme e um plano sequência com câmera na mão e porradaria bruta já no terceiro ato.

E embora o longa tenha uma carga dramática forte – levando em conta não só os acontecimentos atuais, mas também tudo que aconteceu nos filmes anteriores – vemos em ‘Sem Tempo Para Morrer’ um Bond até mais leve e seguro do que nos títulos anteriores. Daniel Craig não hesita em pedir sua vodka martini “batida, não mexida”, entrega um dos “Bond, James Bond” mais inusitados da série e não se furta em fazer comentários engraçadinhos mesmo nas horas mais tensas, como também faziam seus antecessores.

Esse Bond menos sisudo pode ser uma influência das mãos de Phoebe Waller-Bridge (‘Fleabag’) no roteiro, ou mesmo o próprio Craig, que é produtor do longa, já se divertindo nos seus últimos dias como 007.

Por sinal, Waller-Bridge foi uma das exigências do ator, assim como foi a participação da (sempre maravilhosa) Ana de Armas, com quem contracenou em ‘Entre Facas e Segredos’ (2019).

Se Nomi é a nova 007 do MI6, Paloma, personagem da atriz cubana, é a “Felix Leiter da nova geração” da CIA, designada para ajudar Bond na sua missão. Talvez outra pista da ação de Waller-Bridge, ou simplesmente um sinal dos tempos, nem ela, nem as outras mulheres de destaque na trama são objetificadas ou usadas por Bond só para serem descartadas depois.

Paloma é um aceno a todas as “Bond girls” que também participavam da ação.

Faço essa diferenciação porque, na trama, Paloma é uma parceira de ocasião. Já Nomi é uma igual. A nova agente 007 tem as mesmas habilidades de Bond e um potencial ainda maior, já que conseguiu sua “licença para matar” ainda mais nova (“um prodígio”, ela se define).

Longe de ser uma “Bond de saias” (nossa, que expressão terrível) Lashana Lynch apresenta uma agente com métodos diferentes do seu antecessor, mas igualmente competente e comprometida. Somente a necessidade de ser afirmar a coloca em constante competição com Bond, o que rende algumas das melhores trocas de provocações do filme.

Completam o time dos bonzinhos o quartel-mestre Q (Ben Whishaw) e a secretária Eve Moneypenny (Naomie Harris).

“Por sinal, é a primeira vez que um filme do 007 conta com o elenco completo de ajudantes, que inclui M e Felix Leiter, desde ‘Permissão para Matar’ (1989).”

Passando para o outro lado, temos mais um ator vencedor do Oscar como vilão de um filme de 007, depois de Silva (Javier Bardem em ‘Operação Skyfall’) e Blofeld (Christoph Waltz em ‘Spectre’). Em ‘Sem Tempo Para Morrer’, Remi Malek é Lyutsifer Safin, um adversário à moda antiga para Bond, com direito a aspecto bizarro, plano maligno e uma base em uma ilha fortificada. A novidade é que, diferente de Blofeld em ‘Spectre’, a mágoa antiga de Safin não é com o agente do MI6, mas com Madeleine Swann (Léa Seydoux), a filha do Mr. White (Jesper Christensen) e grande amor da vida de Bond. Pós Vesper Lynd (Eva Green), claro.

As ações de Safin permitem que a trama se desenrole em duas frentes: uma mais geral, com uma ameaça global criada pela própria agência de inteligência britânica, da qual o equilíbrio de forças entre as nações depende; e uma mais pessoal, entre o vilão, Bond, Swann e Blofeld.

A primeira frente acaba sendo pouco desenvolvida, e tirando uma “arma de Chekhov” que será determinante no fim, essa trama acaba se tornando secundária. Já o imbróglio pessoal, este sim, é o que prende o público na cadeira durante a última metade da sessão.

Com ‘Sem Tempo Para Morrer’, Daniel Craig deixa sua passagem pela franquia em grande estilo. São cinco filmes interligados, que até então não era a regra para o “Bondverso”, altos bem altos, e baixos um tanto quanto baixos (infelizmente estou olhando para vocês, ‘Quantum of Solace’ e ‘Spectre’), o filme consegue pegar o “final feliz” do seu antecessor, que até então Craig jurava que seria seu último, torcê-lo e tirar de lá uma nova história e uma ameaça que nos faça continuar nos importando com os personagens. Com mais de duas horas e meia de duração, Fukunaga não tem pressa em permitir que essa versão de Bond, que em tudo é uma “reinvenção”, percorra a jornada de perdas que vem desde ‘Cassino Royale’ (2006).

Bond sempre cumpriu suas missões sozinho e está mais do que acostumado a deixar uma trilha de corpos para trás a cada salvamento bem-sucedido do mundo. Mas agora ele terá que medir o peso dessa solução e pensar no quanto ele realmente precisava se isolar ou afastar e desconfiar dos seus aliados.

“Órfãos se tornam os melhores agentes”, afirmou a M de Judi Dench em ‘Skyfall’, mas isso nunca privou Bond de ter uma família – só ele próprio.

Embora ainda flerte de tempos em tempos com as belíssimas mulheres que cruzem seu caminho, o Bond de Craig é movido por uma paixão mais profunda.

As perdas de Versper, em ‘Cassino Royale’, e de M em ‘Skyfall’ reverberam através da forma como ele encara todos os seus relacionamentos.

“O 007 humanizado teve seu coração partido algumas vezes, mas cabe a ele decidir quantas mais vezes ele está disposto se deixar ser vulnerável e arriscar a felicidade que tanto almeja.”

Link original da matéria:
https://olhardigital.com.br/2021/09/29/cinema-e-streaming/critica-007-sem-tempo-para-morrer-encerra-sequencia-de-daniel-craig-em-grande-estilo/?utm_campaign=notificacao&utm_source=notificacao 

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