Igualdade feminina:
Autonomia, respeito e o direito de ser dona da própria história
No dia 26 de agosto, Dra. Ana Claudia Segantine propõe um olhar da psicanálise sobre as conquistas das mulheres, os pesos invisíveis que ainda carregam e uma transformação que precisa continuar
Por Dra. Ana Claudia Segantine
Existem conquistas que mudam as leis.
Outras precisam ir muito além: precisam transformar comportamentos, relações e até aquilo que aprendemos, silenciosamente, a considerar normal.
O 26 de agosto, Dia da Igualdade da Mulher, é uma oportunidade para olhar para os avanços conquistados pelas mulheres ao longo da história, mas também para uma pergunta que permanece profundamente atual:
Até que ponto a igualdade conquistada no papel já se transformou em igualdade na vida?
A data remete à conquista do direito de voto pelas mulheres nos Estados Unidos, com a 19ª Emenda à Constituição norte-americana, certificada em 26 de agosto de 1920. Décadas depois, em 1973, o Congresso dos Estados Unidos estabeleceu oficialmente o Women’s Equality Day.
Mas a importância simbólica desse momento ultrapassa o sufrágio.
Falar de igualdade feminina significa falar de oportunidades, remuneração, liderança, segurança, respeito, combate à violência e liberdade para que cada mulher possa construir sua própria trajetória.
No Brasil, um dos grandes marcos dessa caminhada foi o Código Eleitoral de 1932, que reconheceu o voto feminino. De lá para cá, mulheres conquistaram espaços antes praticamente inacessíveis.
Entraram nas universidades, na ciência, nas empresas, na política, na medicina, na Justiça, na cultura, no empreendedorismo e nas mais diversas posições de liderança.
Mas a história ainda está sendo escrita.
A igualdade também passa pela saúde emocional
Existe uma dimensão da igualdade feminina que nem sempre aparece nas estatísticas.
Ela está dentro das pessoas.
Está na subjetividade, nas relações, nos sentimentos e nas expectativas que atravessam gerações.
Durante séculos, muitas mulheres foram ensinadas a ocupar determinados lugares: cuidar, obedecer, agradar, evitar conflitos, suportar e colocar suas próprias necessidades em segundo plano.
A sociedade mudou profundamente, mas algumas dessas marcas permanecem.
Sob o olhar da psicanálise, é importante compreender que determinadas cobranças podem ser internalizadas de tal maneira que passam a ser percebidas como se fossem escolhas absolutamente individuais.
É nesse território que podem aparecer sentimentos como culpa, medo de desagradar, necessidade excessiva de aprovação e dificuldade para estabelecer limites.
A pergunta, então, deixa de ser apenas “o que esperam de mim?” e passa a ser:
“O que eu realmente desejo para a minha vida?”
- Essa pode parecer uma pergunta simples.
- Nem sempre é.
- Igualdade não significa apagar diferenças
Defender a igualdade feminina não significa afirmar que todas as pessoas são iguais em suas histórias, desejos, características ou maneiras de viver.
A diversidade humana existe e deve ser respeitada.
Igualdade significa que nenhuma diferença pode servir de justificativa para inferiorização, violência, silenciamento ou restrição injusta de oportunidades.
Para a psicanálise, cada sujeito carrega uma história singular.
Por isso, uma mulher não pode ser reduzida exclusivamente aos papéis que a sociedade historicamente lhe atribuiu.
- Ela é sujeito de desejos.
- De escolhas.
- De conflitos.
- De sonhos.
- De possibilidades.
- E também de transformação.
Autonomia, nesse sentido, não significa necessariamente romper vínculos ou rejeitar família, relacionamentos e responsabilidades.
Significa ter condições de escolher os vínculos que deseja construir e a maneira como pretende vivê-los.
O peso invisível da mulher que precisa dar conta de tudo
Existe ainda uma cobrança particularmente cruel em nosso tempo: a ideia de que a mulher contemporânea precisa conseguir fazer tudo — e fazer tudo perfeitamente.
- Ser profissional competente.
- Ser mãe exemplar.
- Ser companheira presente.
- Cuidar da família.
- Administrar a casa.
- Cuidar da aparência.
- Manter equilíbrio emocional.
- E, de preferência, fazer tudo isso sorrindo.
- Quando essas expectativas se acumulam, pode nascer uma dolorosa sensação de insuficiência.
- Nunca faço o bastante.
- Nunca sou suficientemente boa.
- A escuta psicanalítica pode ajudar justamente na identificação dessas cobranças, permitindo que a mulher diferencie aquilo que verdadeiramente deseja daquilo que aprendeu que deveria desejar.
Nem toda obrigação que carregamos nasceu conosco.
Algumas nos foram entregues.
E reconhecer isso pode ser profundamente libertador.
O amor também precisa conhecer a palavra igualdade
Nas relações afetivas, igualdade não significa ausência de diferenças ou conflitos.
Significa existir espaço para diálogo, respeito, reciprocidade e liberdade.
Uma relação saudável não deveria exigir que uma pessoa diminua para que a outra possa crescer.
O amor não deveria ser confundido com submissão, dependência ou renúncia permanente de si.
Nesse ponto, a psicanálise pode provocar perguntas incômodas, mas necessárias:
- Onde termina o desejo do outro e começa o meu?
- Quantas escolhas faço porque realmente desejo fazê-las?
- E quantas faço por medo de perder, desagradar, decepcionar ou ser rejeitada?
Perguntas assim não oferecem respostas prontas.
Mas podem abrir portas importantes para o autoconhecimento.
Mulheres precisam ser sujeitos da própria história
A igualdade também passa pelo direito de ocupar espaços de conhecimento, ciência, liderança, cultura, trabalho, empreendedorismo e política sem que a capacidade de uma pessoa seja previamente diminuída simplesmente porque ela é mulher.
E existe algo ainda maior nessa transformação.
Quando uma sociedade permite que mulheres sejam reconhecidas plenamente como sujeitos, ela modifica também as referências das próximas gerações.
Uma menina que cresce vendo mulheres pesquisando, comandando empresas, criando, ensinando, governando, empreendendo, escrevendo, descobrindo e tomando decisões aprende algo poderoso sem que ninguém precise lhe explicar:
- ela também pode escolher seu caminho.
As referências que uma sociedade oferece às suas crianças ajudam a construir aquilo que elas acreditarão ser possível no futuro.
- A psicanálise e o poder da palavra
A psicanálise não pretende fornecer respostas prontas para todos os conflitos sociais.
- Mas oferece algo fundamental:
- um espaço para a palavra.
Falar pode permitir elaborar experiências, reconhecer conflitos, questionar padrões, compreender repetições e construir novos significados para a própria história.
Pensar a igualdade feminina sob o olhar da psicanálise significa, portanto, pensar também na liberdade de cada mulher para construir uma existência que não seja determinada exclusivamente pelo olhar ou pelas expectativas do outro.
A verdadeira igualdade não exige que mulheres se tornem iguais aos homens.
Exige que possam existir plenamente em sua singularidade sem que a diferença seja transformada em inferioridade.
E talvez esteja justamente aí uma das mensagens mais importantes deste 26 de agosto:
- uma sociedade verdadeiramente igualitária começa quando mulheres podem ocupar plenamente o lugar de sujeitos de desejos, escolhas, direitos e decisões — e quando suas vozes deixam de ser tratadas como exceção para serem reconhecidas como parte essencial da construção do nosso futuro.
Porque muito foi conquistado.
Muito mudou.
Mas a história nos lembra:
a luta pela igualdade continua.
Sobre a autora
Dra. Ana Claudia de Laet Segantine é psicanalista e Mestra em Biociência. Atua principalmente nas áreas de Neurociência, TAB, TDAH, depressão, prevenção ao suicídio, dependência química, TAG e TEPT, desenvolvendo seu trabalho a partir do acolhimento, informação, orientação e cuidado, sem preconceitos ou julgamentos.
TikTok: Ana Claudia de Laet Segantine
Instagram: @anaclaudiadelaetsegantine
Contato: (62) 98244-0724
O Portal 7Minutos deseja a todos um bom dia pic.twitter.com/76cDh70cEI
— 7Minutos Notícias (@7minutos_news) December 15, 2025
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