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26 de agosto:

Quando o mundo declarou que ninguém deveria nascer para ser súdito

A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão atravessou mais de dois séculos defendendo uma ideia revolucionária: o poder deve servir ao cidadão — e não transformar o cidadão em servo do poder

Há datas que comemoram acontecimentos. Outras nos obrigam a pensar.

O 26 de agosto pertence à segunda categoria.

Foi em 26 de agosto de 1789, durante a Revolução Francesa, que a Assembleia Nacional Constituinte da França aprovou a histórica Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, um dos documentos fundamentais da construção moderna dos direitos civis e políticos.

Mais de dois séculos depois, suas palavras continuam carregando uma força impressionante.

A declaração nasceu em uma Europa marcada por privilégios de nascimento, desigualdade jurídica e concentração de poder. Naquele mundo, a posição de uma pessoa na sociedade frequentemente dependia da família em que havia nascido.

Então surgiu uma afirmação que ajudaria a mudar a história:

  • os seres humanos nascem e permanecem livres e iguais em direitos.

Hoje, essa ideia parece elementar.

  • Em 1789, era revolucionária.
  • O cidadão acima do arbítrio

A grande transformação proposta pela Declaração não estava apenas em reconhecer direitos individuais.

Ela estabelecia um princípio ainda mais poderoso:

  • quem governa também precisa estar submetido à lei.

O Estado não deveria possuir liberdade ilimitada para perseguir, prender, censurar, confiscar ou punir seus cidadãos simplesmente porque alguém no poder assim desejasse.

Entre os princípios consagrados naquele documento estavam a liberdade, a propriedade, a segurança, a resistência à opressão, a igualdade perante a lei e garantias contra acusações e prisões arbitrárias.

Também aparecia uma ideia essencial para qualquer democracia verdadeira:

  • a liberdade de expressão e de opinião.
  • Não significa que uma sociedade possa viver sem leis ou responsabilidades.

Significa exatamente o contrário.

  • Significa que as regras precisam existir para todos  governantes e governados.
  • Uma declaração que continua incomodando o poder

Talvez essa seja a razão pela qual um documento escrito em 1789 continue tão atual.

A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão não foi criada para proteger apenas quem concorda conosco.

Direitos fundamentais mostram sua verdadeira importância justamente quando precisam proteger o indivíduo impopular, o crítico, o adversário, a minoria e aquele que desafia o pensamento dominante.

Liberdade apenas para quem concorda com o poder não é liberdade.

Justiça aplicada de maneira diferente conforme o nome, a influência ou a posição política do cidadão deixa de representar o ideal de igualdade perante a lei.

E uma democracia na qual as pessoas passam a ter medo de perguntar, discordar ou criticar precisa necessariamente refletir sobre a qualidade de suas próprias instituições.

Essa discussão não pertence à direita nem à esquerda.

  • Pertence ao cidadão.
  • Direitos não podem depender de quem está governando

Existe uma pergunta simples que deveria acompanhar qualquer sociedade democrática:

  • Você defenderia determinada autoridade ou determinado poder se amanhã ele estivesse nas mãos do seu maior adversário?

A resposta ajuda a compreender por que direitos individuais e limites institucionais são tão importantes.

  • Governos mudam.
  • Presidentes mudam.
  • Parlamentos mudam.
  • Juízes passam.
  • Ideologias ganham e perdem eleições.
  • Mas os direitos fundamentais precisam permanecer.

Porque uma Constituição e uma declaração de direitos não existem apenas para os dias tranquilos.

  • Elas se tornam ainda mais importantes nos momentos de crise, medo, conflito e polarização.

É justamente quando surge a tentação de abrir exceções que a democracia precisa demonstrar maturidade.

 

Celebrar a importância histórica da Declaração não significa transformar 1789 em uma história perfeita.

Não foi…

A própria expressão “Direitos do Homem” refletia as limitações daquele período.

Mulheres não receberam imediatamente igualdade política, e profundas desigualdades continuaram existindo.

A revolucionária francesa Olympe de Gouges, por exemplo, publicaria em 1791 sua Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã, denunciando justamente essa contradição.

A história dos direitos humanos nunca terminou em um documento.

  • Ela continuou sendo escrita.

Depois vieram novas constituições, movimentos pela abolição da escravidão, lutas pelos direitos das mulheres, conquistas civis e, em 1948, a Declaração Universal dos Direitos Humanos, aprovada pelas Nações Unidas após os horrores da Segunda Guerra Mundial.

Cada geração ampliou uma ideia iniciada muito antes:

  • a dignidade humana não deveria depender da vontade de quem exerce o poder.

E o Brasil de 2026?

Neste 26 de agosto, a data também oferece ao Brasil uma oportunidade de reflexão.

Não importa quem esteja ocupando o Palácio do Planalto, uma cadeira no Congresso, um tribunal, um governo estadual ou uma prefeitura.

A pergunta deve ser sempre a mesma:

  • as instituições estão protegendo o cidadão ou apenas exercendo poder sobre ele?

Democracia não pode significar apenas votar de tempos em tempos.

Ela exige liberdade de imprensa, direito de defesa, devido processo legal, igualdade perante a lei, liberdade de consciência, respeito às instituições e possibilidade real de fiscalizar aqueles que exercem autoridade pública.

E exige algo ainda mais difícil:

  • defender direitos inclusive quando o beneficiado por eles pensa exatamente o contrário de nós.

Esse talvez seja um dos maiores testes de uma sociedade livre.

237 anos depois, o recado permanece

  • Entre Paris de 1789 e o Brasil de 2026 existe um oceano, séculos de história e um mundo completamente diferente.

Mas uma questão permanece extraordinariamente parecida:

até onde pode ir o poder do Estado sobre o indivíduo?

A resposta construída ao longo de gerações deveria ser simples:

  • o poder encontra seu limite onde começam os direitos fundamentais do cidadão.

Por isso, o 26 de agosto não deveria ser apenas uma lembrança histórica.

  • Deveria ser um alerta.

Direitos conquistados não sobrevivem apenas porque foram escritos em documentos, constituições ou livros.

Sobrevivem quando uma sociedade compreende seu valor, exige seu cumprimento e se recusa a aceitar que sejam seletivos.

Porque liberdade não é propriedade de um governo.

  • Não pertence a um partido.
  • Não pertence à direita.
  • Não pertence à esquerda.
  • Liberdade pertence ao cidadão.

E talvez esta seja a mensagem mais poderosa que atravessou os séculos desde aquele 26 de agosto de 1789:

O Estado pode ter autoridade.

Mas o cidadão tem direitos

. E nenhuma democracia permanece verdadeiramente livre quando esquece essa diferença.

Por Gildo Ribeiro
Redação Portal 7Minutos — Brasília

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  • Gildo Ribeiro

    Gildo Ribeiro é editor do Grupo 7 de Comunicação, liderado pelo Portal 7 Minutos, uma plataforma de notícias online.

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