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RONNIE VON

O PRÍNCIPE que BRASIL ainda não CONHECE por INTEIRO

“Disseram que eu não voltaria a andar”: aos 82 anos e completando seis décadas de carreira, Ronnie Von abre o baú de uma vida que atravessou Beatles, Jovem Guarda, Tropicália, televisão, amizade, dor e uma impressionante luta pela própria vida

Talvez o Brasil conheça Ronnie Von.

Mas provavelmente não conheça todo Ronnie Von.

Por trás do homem elegante, da voz tranquila e do eterno apelido de “Príncipe”, existe uma história que atravessa alguns dos capítulos mais importantes da cultura popular brasileira — e também momentos pessoais de uma dureza que dificilmente combinam com a imagem serena que ele construiu diante das câmeras.

Em uma longa conversa com o jornalista Flavio Prado, Ronnie abre as portas de casa e, principalmente, as portas da memória.

E o que aparece é extraordinário.

São histórias envolvendo Roberto Carlos,

Rita Lee,

Os Mutantes,

Beatles,

Caetano Veloso,

Gilberto Gil,

Tom Jobim,

Hebe Camargo,

Carlos Imperial,

Agnaldo Rayol,

Chico Xavier e

Emerson Fittipaldi.

Mas nenhuma delas talvez seja tão impressionante quanto aquela em que Ronnie deixou de ser artista, galã ou apresentador.

Passou simplesmente a lutar para continuar vivo.

“VOCÊ NÃO VAI MAIS ANDAR”

Ronnie Von enfrentou uma grave enfermidade neurológica que atingiu seu sistema nervoso periférico.

Ao longo dos anos, o próprio artista descreveu o quadro como uma polirradiculoneurite viral, enquanto outras entrevistas e reportagens o associaram à síndrome de Guillain-Barré.

Independentemente da terminologia utilizada em diferentes momentos, uma coisa é incontestável em seus relatos:

  • Ronnie perdeu os movimentos e enfrentou dores devastadoras.

Em depoimentos anteriores, chegou a dizer que permaneceu cerca de um ano sem andar.

E ouviu algo terrível dos médicos:

  • a possibilidade de jamais voltar a caminhar.

Ronnie contou que chegou a ser mandado para casa depois que os médicos consideraram esgotadas as possibilidades de tratamento naquele momento.

A situação tornou-se tão dolorosa que, segundo ele próprio revelou posteriormente, houve momentos em que desejou morrer.

Mas não morreu.

E também não aceitou que uma cadeira de rodas fosse necessariamente o capítulo final de sua história.

  • Veio a fisioterapia.
  • Veio a tentativa.
  • Vieram os primeiros movimentos.

E Ronnie Von precisou fazer algo que a maioria de nós aprende ainda criança:

  • aprender a andar outra vez.

Décadas depois, ele reconheceria que ficaram sequelas físicas.

Mas também nasceu dali algo que nenhuma fotografia consegue mostrar: um Ronnie emocionalmente diferente daquele que entrou naquela cama.

  • A doença quase destruiu seu corpo.
  • Mas transformou sua percepção da vida.

E ENTÃO APARECE ROBERTO CARLOS

É justamente nos momentos mais difíceis que certas rivalidades fabricadas pelo mundo artístico perdem completamente o sentido.

Durante décadas, revistas e programas exploraram uma suposta disputa entre o “Rei” Roberto Carlos e o “Príncipe” Ronnie Von.

  • Só que a vida real era muito mais bonita.
  • Ronnie recorda que, durante aquele período devastador de sua saúde, recebeu amigos.
  • Entre eles estava Roberto Carlos.
  • Não era o Rei visitando o Príncipe.

Era simplesmente um amigo ficando perto de outro quando o palco, os discos, as câmeras e os aplausos já não tinham importância.

É uma dessas histórias que ajudam a desmontar uma velha narrativa da televisão brasileira: a rivalidade que vendia revistas nem sempre correspondia às relações existentes quando as câmeras eram desligadas.

O HOMEM QUE AJUDOU OS MUTANTES ANTES DE O BRASIL ENTENDÊ-LOS

Existe outro Ronnie Von que merece ser redescoberto.

  • O experimental.
  • O inquieto.
  • O homem fascinado pelos Beatles.

Quando comandava O Pequeno Mundo de Ronnie Von, ele abriu espaço para jovens músicos que ainda estavam construindo seus nomes.

  • Entre eles estavam Rita Lee, Arnaldo Baptista e Sérgio Dias.
  • Os Mutantes.

A história musical brasileira reconhece hoje a importância extraordinária do grupo.

O que muita gente desconhece é a participação de Ronnie naquele começo.

Os Mutantes estrearam em seu programa em outubro de 1966 e tornaram-se presença frequente da atração.

Ronnie inclusive reivindica participação na escolha do nome definitivo da banda.

  • E não ficou apenas nisso.

Seu programa tornou-se um espaço por onde circularam artistas que participariam das profundas transformações da música brasileira no final dos anos 1960.

Décadas depois, pesquisas acadêmicas passaram a olhar com muito mais atenção para essa fase de Ronnie Von.

Um estudo publicado em 2025 pela Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, da USP, analisa justamente sua transformação de ídolo juvenil em artista psicodélico entre 1966 e 1970.

Ou seja:

  • aquilo que durante muito tempo pareceu apenas uma excentricidade na carreira do “Príncipe” hoje é objeto de estudo da história da música brasileira.

CONTRATADO PARA SER “ANULADO”

Talvez uma das revelações mais curiosas de sua história na televisão seja esta.

Segundo Ronnie, ele descobriu anos depois que sua contratação pela Record teria uma finalidade muito diferente daquela que imaginava.

A emissora temia que outra televisão o transformasse em concorrente da Jovem Guarda, comandada por Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Wanderléa.

Ronnie contou que ouviu posteriormente de um executivo da própria Record:

  • ele teria sido contratado para ser neutralizado como concorrente.
  • O plano, entretanto, teve um pequeno problema.
  • Ronnie deu certo.

Mesmo com dificuldades de elenco e estrutura, O Pequeno Mundo de Ronnie Von encontrou público.

Em entrevista recente à Veja, ele voltou a contar que chegou a realizar programa praticamente apenas com Os Mutantes porque não havia elenco disponível.

Uma tentativa de “anular” um artista acabou, ironicamente, ajudando a criar um espaço importante para músicos que estavam mudando a música brasileira.

O FRACASSO QUE VIROU TESOURO

E existe uma deliciosa ironia na discografia de Ronnie Von.

O artista que ficou conhecido nacionalmente pelas canções românticas decidiu experimentar.

  • Psicodelia.
  • Arranjos ousados.
  • Beatles.
  • Tropicalismo.
  • Experimentação.
  • O público estranhou.
  • Parte da crítica também.
  • Os discos venderam pouco.

Ronnie chegou a definir um daqueles trabalhos como um dos maiores fracassos de sua carreira.

Só que o tempo resolveu reabrir o processo.

Décadas depois, os discos psicodélicos de Ronnie começaram a ser redescobertos por pesquisadores, músicos e colecionadores.

Álbuns como Ronnie Von, A Misteriosa Luta do Reino de Parassempre contra o Império de Nuncamais e A Máquina Voadora passaram a ocupar outro lugar na história do rock psicodélico brasileiro.

  • O fracasso comercial envelheceu.
  • A música, não.

Hoje aquela fase é justamente uma das partes mais cultuadas de sua obra.

E “A PRAÇA” QUASE NÃO ACONTECEU

  • Outra ironia deliciosa.
  • Uma das músicas mais associadas a Ronnie Von quase ficou sem Ronnie Von.

“A Praça”, composição de Carlos Imperial, não combinava inicialmente com aquilo que o jovem cantor imaginava para sua carreira.

  • Ele relutou.
  • Acabou convencido a gravá-la.
  • Resultado?

O álbum impulsionado pela canção vendeu dezenas de milhares de cópias em poucas semanas, e “A Praça” tornou-se um dos maiores sucessos de sua trajetória.

Anos depois, a composição ainda ganharia outra vida ao se transformar no conhecido tema do programa A Praça É Nossa.

Uma música que o cantor quase recusou acabou atravessando gerações.

HEBE NÃO VIU UM AVIADOR. VIU UM PRÍNCIPE.

  • Antes da televisão, Ronnie tinha outro sonho.
  • Voar.
  • Passou pela Escola Preparatória de Cadetes do Ar e chegou a pilotar ainda muito jovem.
  • Mas quando encontrou Hebe Camargo, ouviu algo que mudaria sua identidade pública.
  • Hebe achou que aquele rapaz educado e elegante simplesmente não tinha “cara de aviador”.
  • Tinha cara de príncipe.

Nascia ali um apelido que sobreviveria por seis décadas:

O Príncipe.

E a amizade com Hebe acabaria tornando-se muito maior que a televisão. Ronnie chegou a defini-la como um de seus grandes amigos — independentemente do gênero.

  • O apelido que poderia ter sido apenas uma brincadeira virou uma marca cultural brasileira.

AOS 82 ANOS, A HISTÓRIA AINDA NÃO TERMINOU

  • Aqui está talvez a melhor atualização dessa história.
  • Ronnie Von completou 82 anos em 17 de julho de 2026.
  • E chegou aos 60 anos de carreira.

Em janeiro, deixou a RedeTV! depois da demissão da equipe que trabalhava no Companhia Certa.

Segundo informações divulgadas na ocasião, Ronnie considerava aqueles profissionais praticamente uma família e decidiu que não faria sentido continuar diante da desestruturação do projeto.

Mas quem imaginar que isso significa simplesmente aposentadoria pode estar olhando para o Príncipe cedo demais.

Em julho, Ronnie participou do MasterChef Brasil, avaliando pratos em um episódio especial.

No mesmo mês, recebeu uma homenagem emocionante no Encontro, quando Faustão — amigo desde 1969 — enviou uma mensagem especialmente para ele.

E no último domingo, 23 de agosto, Ronnie voltou a ser homenageado na televisão, desta vez no Programa Silvio Santos, apresentado por Patricia Abravanel, durante as comemorações dos 45 anos do SBT.

Há mais.

RONNIE VON VAI VIRAR MUSICAL…

  • Uma vida assim talvez realmente não caiba somente em entrevistas.
  • Está prevista para o segundo semestre de 2026 a estreia de “Ronnie Von – O Musical”, espetáculo concebido para celebrar seus 60 anos de carreira.
  • A montagem tem direção de Debora Dubois e Marcio Macena e está sendo construída a partir de entrevistas com Ronnie e sua mulher, Kika.

A proposta é especialmente interessante: contar parte da própria história da música brasileira pelos olhos de alguém que estava lá.

  • Jovem Guarda.
  • Tropicalismo.
  • Bossa Nova.
  • Rock psicodélico.
  • Televisão.
  • Tudo atravessado pela memória do Príncipe.

TALVEZ TENHAMOS OLHADO POUCO PARA RONNIE VON

  • É aí que esta história ganha outra dimensão.
  • Ronnie Von não foi simplesmente um cantor bonito dos anos 60.
  • Não foi apenas o intérprete de “A Praça”.
  • Não foi somente o apresentador elegante que durante décadas recebeu convidados na televisão.
  • Ele estava próximo do nascimento de Os Mutantes.
  • Conviveu com personagens fundamentais da música brasileira.
  • Experimentou psicodelia quando isso significava correr o risco de perder público.
  • Viu um disco fracassar para, décadas depois, tornar-se cultuado.

Foi apresentado como rival de Roberto Carlos e, quando a vida ficou realmente difícil, descobriu que por trás da suposta rivalidade existia amizade.

  • Perdeu os movimentos.
  • Sentiu dores extremas.
  • Ouviu prognósticos terríveis.
  • Precisou reaprender a caminhar.
  • E caminhou.

Talvez seja por isso que, aos 82 anos, Ronnie Von consiga falar sobre seis décadas de fama sem parecer prisioneiro dela.

Porque um homem que já esteve diante da possibilidade de perder a própria vida aprende que sucesso é muito mais do que audiência, discos vendidos ou manchetes.

O PRÍNCIPE SOBREVIVEU AO PERSONAGEM

  • Há artistas que permanecem porque tiveram grandes sucessos.
  • Outros permanecem porque, de alguma maneira, ajudaram a construir a época em que viveram.
  • Ronnie Von pertence ao segundo grupo.

Sua história cruza televisão, música, comportamento e personagens fundamentais da cultura brasileira.

E talvez o mais impressionante seja perceber que, depois de 60 anos de carreira, ainda existem histórias capazes de surpreender quem pensava conhecê-lo.

O jovem que sonhava pilotar aviões virou Príncipe.

  • O Príncipe virou ídolo.
  • O ídolo resolveu experimentar.
  • O experimental virou cult.
  • O homem que disseram que talvez não voltasse a caminhar voltou a andar.

E aquele artista que certa vez teria sido contratado para ser “anulado” continua aqui, aos 82 anos, sendo homenageado e tendo sua vida transformada em espetáculo.

Algumas histórias sobrevivem ao tempo.

Ronnie Von parece ter feito algo ainda mais difícil: sobreviveu a quase tudo — inclusive às tentativas de defini-lo.

Assista à conversa completa de Ronnie Von com Flavio Prado:
Flavio Prado Entre Amigos — Ronnie Von

Por Gildo Ribeiro
Redação Portal 7MinutosMinutos — Brasília

 

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Ronnie Von: Voz, Coragem e Superação

 

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  • Gildo Ribeiro

    Gildo Ribeiro é editor do Grupo 7 de Comunicação, liderado pelo Portal 7 Minutos, uma plataforma de notícias online.

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