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CONTEÚDO RODRIGO MAGALHÃES

A República dos Devotos

O brasileiro não gosta de política. O brasileiro gosta de santos políticos.

Essa talvez seja uma das maiores ironias nacionais: o país que mais reclama dos governantes é também o país que mais necessita transformá-los em figuras messiânicas.

Aqui, presidentes deixam de ser funcionários públicos e passam a ocupar algo entre o papel de pai da nação, líder espiritual e protagonista de novela das nove.

O sujeito acorda às seis da manhã, trabalha dez horas por dia, paga metade da vida em impostos, é assaltado no ônibus, enfrenta fila em hospital, vê o salário evaporar no mercado e, ainda assim, acredita sinceramente que a solução da própria existência virá de um homem em Brasília usando faixa presidencial e cercado de assessores.

É quase uma religião civil.

A política brasileira deixou há muito tempo de ser um debate sobre administração pública, instituições ou projetos nacionais. Ela virou um grande campeonato emocional onde milhões de pessoas escolheram viver como torcidas organizadas ideológicas.

Não importa a coerência, a honestidade intelectual ou os resultados concretos.

O importante é defender o “lado certo”.

E o mais curioso é que ambos os lados se enxergam como resistência heroica enquanto reproduzem exatamente os mesmos comportamentos.

A esquerda brasileira, durante décadas, construiu uma estética quase litúrgica em torno de certas figuras políticas. O líder não erra: é perseguido.

O fracasso econômico não existe: é sabotagem externa. Escândalos de corrupção viram “narrativas da elite”. A realidade objetiva se torna secundária diante da necessidade psicológica de preservar o mito.

Mas seria confortável demais fingir que isso é exclusividade da esquerda.

A direita brasileira, especialmente nos últimos anos, criou sua própria versão tropical do culto à personalidade.

O político virou “mito”, escolhido, enviado, último bastião moral da civilização ocidental contra o comunismo, a ONU, o globalismo, o STF, os illuminati e, dependendo do dia, até contra o Papa.

Não importa se o sujeito contradiz tudo o que dizia ontem. Não importa se pratica exatamente aquilo que condenava nos adversários.

A coerência deixa de ser uma virtude e passa a ser um detalhe inconveniente.

O importante é proteger o líder porque, sem ele, muitos perceberiam que talvez nunca tenham defendido princípios — apenas pertencimento emocional.

E isso produz um fenômeno curioso: o cidadão comum terceiriza completamente sua responsabilidade individual.

A culpa pela própria vida passa a ser sempre de alguém distante: do sistema, do capitalismo, do comunismo, da direita, da esquerda, da burguesia, dos militares, do mercado, da mídia, do imperialismo, do judiciário, do algoritmo ou do “gabinete do ódio”.

Tudo é estrutural, tudo é geopolítico, tudo é culpa de grandes forças invisíveis. Menos dele próprio.

A política moderna oferece exatamente isso: conforto psicológico.

É muito mais fácil acreditar que existe um salvador que resolverá o país do que admitir que sociedades fortes dependem de cidadãos maduros, responsáveis e intelectualmente honestos.

Gustave Le Bon já alertava no século XIX que multidões apaixonadas abandonam a razão em troca de símbolos, líderes e emoções coletivas. E talvez nunca tenha sido tão atual. As redes sociais transformaram esse comportamento em modelo de negócios. Hoje, o fanatismo político não é um efeito colateral da polarização: é o produto principal.

As plataformas digitais descobriram que indignação vicia.

Que medo engaja.
Que raiva monetiza.

E que pessoas emocionalmente dependentes de líderes políticos são consumidores perfeitos de narrativa.

Por isso tudo virou “a batalha final”.

Toda eleição é “a mais importante da história”.

Todo adversário é tratado como ameaça existencial à humanidade. Toda pauta é transformada em guerra moral absoluta.

O debate público perdeu nuance, profundidade e proporcionalidade. Restou apenas espetáculo.

E o espetáculo precisa de heróis e vilões simples.

Enquanto isso, o país real continua exatamente onde sempre esteve: violento, desigual, burocrático, emocionalmente infantilizado e intelectualmente preguiçoso.

Mudam os slogans, os influencers políticos, os cortes de podcast e os adesivos de carro. Mas a lógica permanece a mesma.

A velha necessidade colonial de encontrar um “pai” para conduzir a sociedade.

Talvez aí esteja a tragédia brasileira: nunca aprendemos verdadeiramente o que significa cidadania. Herdamos do período colonial uma cultura profundamente personalista, onde instituições importam menos que figuras carismáticas.

A República mudou as roupas do poder, mas preservou a mentalidade de corte. Apenas trocamos reis por populistas, coronéis eletrônicos e celebridades políticas.

E isso se torna ainda mais perigoso na atual conjuntura geopolítica.

O mundo caminha para um período de instabilidade econômica, guerras híbridas, disputas tecnológicas, manipulação algorítmica e radicalização social crescente.

Potências disputam influência global enquanto populações inteiras se tornam emocionalmente manipuláveis através de redes sociais e propaganda digital.

Uma sociedade incapaz de pensar criticamente será facilmente conduzida por qualquer narrativa bem produzida.

E povos que agem como torcida jamais serão verdadeiramente soberanos.

Porque soberania exige maturidade.
Exige responsabilidade individual.
Exige capacidade de criticar até mesmo aqueles com quem concordamos.

Mas isso é difícil.
Muito mais fácil é escolher um messias político, colocar uma bandeira na janela, repetir slogans prontos e acreditar que alguém em Brasília salvará uma nação que sequer consegue mais conversar consigo mesma.

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Por: Rodrigo Schirmer Magalhães
Cientista político e Analista de Politica

 

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  • Gildo Ribeiro

    Gildo Ribeiro é editor do Grupo 7 de Comunicação, liderado pelo Portal 7 Minutos, uma plataforma de notícias online.

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