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EARTH’S BLACK BOX

A “Caixa-Preta da Terra” foi criada para registrar nossas decisões — mesmo que um dia não estejamos mais aqui para explicá-las

Imagine que, centenas ou milhares de anos no futuro, alguém encontre uma enorme estrutura de aço em uma região isolada da Tasmânia, na Austrália.

Dentro dela não estarão ouro, armas, alimentos ou sementes.

Estará algo talvez ainda mais valioso: a história de nossas decisões.

Esse é o princípio da Earth’s Black Box — a Caixa-Preta da Terra, um dos projetos mais curiosos e provocadores já idealizados para preservar um registro da relação da humanidade com o planeta.

A inspiração vem diretamente das caixas-pretas dos aviões.

Quando ocorre um acidente aéreo, investigadores procuram os gravadores para descobrir o que aconteceu antes da tragédia. Eles registram informações capazes de ajudar a reconstruir os acontecimentos e identificar suas causas.

A Earth’s Black Box parte de uma pergunta muito mais inquietante:

  • E se fosse a própria civilização humana que estivesse caminhando para uma catástrofe? Quem registraria o que aconteceu?

UMA TESTEMUNHA PARA O FUTURO

O projeto foi anunciado mundialmente em 2021, durante o período da COP26, conferência climática realizada em Glasgow.

Sua concepção reuniu profissionais de diferentes áreas, originalmente envolvendo a empresa de comunicação Clemenger BBDO, o coletivo artístico The Glue Society, pesquisadores e colaboradores ligados à Universidade da Tasmânia, além de especialistas em arquitetura, tecnologia e dados.

A proposta é criar um gigantesco arquivo independente capaz de registrar continuamente informações sobre as condições do planeta e também sobre aquilo que governos, empresas e sociedades estão fazendo — ou deixando de fazer — diante das mudanças ambientais.

Não se trata, portanto, de uma caixa-preta porque sua estrutura seja necessariamente preta.

O nome representa sua função.

  • Assim como a caixa-preta de uma aeronave pode contar aos investigadores o que ocorreu antes de um desastre, a Caixa-Preta da Terra pretende deixar para o futuro um registro de nossa época.

O QUE SERÁ GUARDADO?

O projeto prevê a coleta de grandes volumes de informação.

Entre eles estão dados científicos relacionados às temperaturas terrestres e oceânicas, concentração de dióxido de carbono na atmosfera, acidificação dos oceanos, mudanças no uso da terra, extinção de espécies, população humana e consumo de energia.

Mas existe uma característica que torna o projeto ainda mais impressionante.

  • A caixa não pretende registrar somente aquilo que está acontecendo fisicamente com a Terra.
  • Ela também foi concebida para preservar o que a humanidade está dizendo e decidindo sobre esses acontecimentos.
  • Notícias, informações publicadas na internet, acontecimentos políticos, discursos e decisões relacionadas às mudanças climáticas podem fazer parte desse gigantesco retrato digital de nossa civilização.

Assim, uma sociedade futura poderia não apenas descobrir que a temperatura aumentou ou que determinadas espécies desapareceram.

Poderia também tentar compreender o que nós sabíamos, o que discutíamos e quais decisões tomamos enquanto tudo acontecia.

UMA FORTALEZA DE AÇO NA TASMÂNIA

O local escolhido fica na região oeste da Tasmânia, Austrália, próximo de Queenstown.

A escolha não foi aleatória.

Os responsáveis pelo projeto procuraram uma área considerada relativamente segura do ponto de vista geológico e político, capaz de aumentar as possibilidades de sobrevivência da estrutura durante um período extremamente longo.

O conceito original previa um gigantesco monólito construído com aço de aproximadamente 7,5 centímetros de espessura, instalado sobre uma formação de granito.

O projeto passou posteriormente por modificações e atualizações de engenharia, mantendo a ideia fundamental: construir uma estrutura extremamente resistente para proteger os equipamentos e arquivos.

Painéis solares fornecerão energia, enquanto baterias servirão como apoio. Sistemas de armazenamento digital deverão preservar as informações coletadas.

É, em outras palavras, uma espécie de cápsula do tempo tecnológica em escala monumental.

NÃO CONFUNDA COM O BANCO DE SEMENTES DA NORUEGA

Existe uma diferença fundamental entre a Earth’s Black Box e outra instalação famosa que costuma ser associada ao “fim do mundo”.

O Svalbard Global Seed Vault, localizado no arquipélago norueguês de Svalbard, preserva cópias de sementes de culturas agrícolas provenientes de diferentes partes do mundo.

Sua finalidade está ligada à conservação da diversidade agrícola.

A Earth’s Black Box tem outra missão.

  • Ela preserva registros e informação.
  • Uma tenta proteger parte da herança biológica necessária à agricultura.
  • A outra pretende proteger a memória de nossas escolhas.

A CAIXA JÁ DEVERIA ESTAR PRONTA?

Aqui existe uma história importante.

  • Quando o projeto ganhou repercussão internacional em 2021, a previsão inicial era de que a estrutura fosse construída rapidamente.

Isso não aconteceu.

  • O empreendimento enfrentou anos de atrasos relacionados a engenharia, aprovações, financiamento e execução.
  • Em 2025, seus responsáveis voltaram a anunciar a retomada do projeto para 2026.

E as informações divulgadas neste ano indicam que a estrutura está finalmente avançando para sua instalação na região de Queenstown, com componentes sendo preparados e a expectativa anunciada pelos responsáveis de colocá-la em funcionamento até o final de 2026, caso o cronograma seja cumprido.

Portanto, é importante fazer uma distinção:

  • o projeto e a coleta digital de informações existem há anos, mas a gigantesca estrutura física definitiva passou por sucessivos atrasos e ainda estava em processo de implantação em 2026.

MAS E SE NINGUÉM SOUBER LER OS DADOS?

  • Essa talvez seja uma das questões mais fascinantes de todo o projeto.
  • Imagine uma civilização encontrando a caixa milhares de anos depois.
  • Computadores atuais provavelmente não existiriam. Sistemas operacionais teriam desaparecido. Formatos digitais poderiam ser incompreensíveis.

Como acessar os registros?

  • Esse problema está entre os desafios conceituais de qualquer arquivo destinado a sobreviver durante períodos extremamente longos.
  • Não basta preservar os dados.
  • É necessário preservar também a possibilidade de compreendê-los.

Por isso, a Earth’s Black Box deve ser entendida tanto como um projeto tecnológico quanto como uma experiência sobre memória, responsabilidade e comunicação entre gerações.

UMA CAIXA PARA O FIM DO MUNDO?

  • Talvez seja justamente aí que esteja o maior equívoco sobre ela.
  • A Earth’s Black Box não foi construída porque seus criadores saibam que o mundo vai acabar.
  • Ela funciona como uma advertência.

Quando entramos em um avião, ninguém instala a caixa-preta porque tenha certeza de que aquele avião cairá.

  • Ela existe porque, se alguma coisa acontecer, será fundamental saber por quê.
  • A mesma lógica foi transportada para o planeta.

E talvez a mensagem mais importante da Caixa-Preta da Terra não seja destinada às pessoas que viverão daqui a mil anos.

  • Talvez seja destinada a nós, que estamos vivos agora.

Porque, enquanto a caixa registra temperaturas, emissões, discursos, promessas, decisões e acontecimentos, ela produz silenciosamente uma pergunta desconfortável:

  • Se as futuras gerações puderem descobrir tudo o que nós sabíamos, como explicarão aquilo que decidimos fazer — ou aquilo que decidimos não fazer?
  • A Earth’s Black Box poderá um dia ser encontrada como o registro de uma civilização que fracassou.
  • Mas existe outra possibilidade muito mais interessante.

Ela poderá sobreviver como o monumento de uma época em que a humanidade percebeu o perigo, mudou seu caminho e evitou o pior.

Nesse caso, a caixa não contará a história do fim.

Contará a história de como conseguimos evitá-lo.

 

Por Gildo Ribeiro
Redação Portal 7Minutos — Brasília

 

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  • Gildo Ribeiro

    Gildo Ribeiro é editor do Grupo 7 de Comunicação, liderado pelo Portal 7 Minutos, uma plataforma de notícias online.

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