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Conteúdo Rodrigo Magalhães

O Brasil não odeia o crime odeia não participar dele

Tem uma verdade incômoda que pouca gente está disposta a encarar: o problema do Brasil não é a criminalidade em si. É a admiração disfarçada por ela.

A recente operação da Polícia Federal que escancarou um esquema bilionário de lavagem de dinheiro ligado ao PCC  e que, segundo as investigações, envolve nomes como MC Ryan SP, Poze do Rodo e o responsável pela página Choquei  não revelou apenas um mecanismo criminoso sofisticado.

Revelou algo muito pior: o nível de degradação moral de uma sociedade que normalizou o crime quando ele vem embalado em sucesso, luxo e likes.

Segundo a Polícia Federal, o esquema envolvia lavagem de dinheiro oriundo do tráfico  inclusive de cocaína  por meio de empresas de fachada, uso de criptomoedas, rifas digitais e pulverização de valores via microtransações (o chamado “smurfing”).

Influenciadores e páginas com milhões de seguidores, de acordo com os investigadores, teriam ajudado a limpar a imagem de investigados, transformar criminosos em “vítimas” e dar aparência de legitimidade a dinheiro sujo.

Não é só crime financeiro. É construção de narrativa.

E aí começa o teatro.

Quando o criminoso é o cara de chinelo que rouba celular na esquina, a reação é imediata: revolta, ódio, desejo de justiça rápida.

Mas quando o criminoso ostenta Ferrari, milhões de seguidores e status de ídolo, surge uma legião de defensores. “É perseguição.” “Veio da favela.” “Inveja do sucesso.”

Não. Não é perseguição. É consequência.

O brasileiro médio não odeia bandido. Odeia fracasso.
Se o crime não deu dinheiro, merece cadeia.
Se deu, vira inspiração.

E isso explica muita coisa.

Estamos vivendo uma inversão brutal de valores.

O sujeito que agride mulher  como veio à tona em denúncias envolvendo MC Ryan SP, que se envolve com facção criminosa, que participa de esquemas de lavagem de dinheiro  como apontam as investigações sobre nomes do entretenimento e influência digital  se tiver dinheiro e visibilidade, ganha uma espécie de anistia moral popular.

Como se o sucesso financeiro apagasse o caráter. Como se o dinheiro justificasse o meio.

E não é um fenômeno isolado. É estrutural.

A cultura da “bandidolatria” não nasce do nada.

Ela é alimentada diariamente por um ecossistema que mistura entretenimento, algoritmo e falta de senso crítico.

A estética do crime virou produto. O traficante virou personagem. A ostentação virou narrativa de superação  e nomes como Poze do Rodo frequentemente aparecem nesse imaginário, onde a linha entre realidade e construção de imagem vai sendo apagada.

E as pessoas compram isso.

Compram porque é mais fácil admirar o resultado do que questionar o processo.
Compram porque, no fundo, existe uma inveja silenciosa travestida de admiração.

Compram porque o Brasil parou de valorizar virtude e passou a valorizar aparência.

A lógica virou: se está rico, alguma coisa ele fez certo.

Não. Não fez.

E o mais grave: muita gente não só consome isso, como participa ativamente.

Compartilha, comenta, defende, engaja. Vira peça da engrenagem sem perceber — ou pior, percebendo e ignorando.

Essa operação escancarou algo ainda mais perturbador: o crime organizado não está mais só nas periferias ou nas rotas do tráfico.

Ele está infiltrado no entretenimento, nas redes sociais, no imaginário coletivo.

Está sendo vendido como estilo de vida  com a ajuda de estruturas de influência digital, como a Choquei, que, segundo a PF, teria participado da disseminação de narrativas favoráveis e da reconfiguração de reputações.

E está sendo aceito.

Quando rifas suspeitas, “ajudas à comunidade” financiadas por dinheiro sujo e narrativas manipuladas passam a ser vistas como algo positivo, o problema já não é mais jurídico.

É cultural.

É moral.

É civilizacional.

Existe uma romantização grotesca do crime quando ele parece “dar certo”. Como se distribuir cesta básica com dinheiro de tráfico  dinheiro que nasce da cocaína que destrói famílias  fosse caridade.

Como se ajudar a comunidade apagasse o fato de que esse mesmo dinheiro vem de uma cadeia que destrói outras famílias.

Não apaga.

Só disfarça.

E quem aceita isso está, no mínimo, sendo conivente. No máximo, cúmplice.

O Brasil chegou num ponto em que o símbolo do criminoso não causa repulsa  causa desejo.

Corrente de ouro, carro importado, vida de luxo. Tudo isso virou sinônimo de vitória, não importa o custo humano por trás.

E quando uma sociedade começa a admirar aquilo que deveria condenar, ela já perdeu o rumo.

O mais assustador não é o criminoso existir.

Sempre existiu.

O assustador é ele virar referência.

Porque aí o problema deixa de ser o indivíduo e passa a ser o coletivo.

E talvez essa seja a parte mais dura de aceitar: o crime organizado não cresce só por falha do Estado.

Cresce porque encontra terreno fértil na mentalidade das pessoas.

Enquanto houver aplauso para o criminoso bem-sucedido, vai haver incentivo para que outros sigam o mesmo caminho.

Enquanto o brasileiro continuar confundindo riqueza com mérito, nada muda.

Enquanto a indignação depender da conta bancária do bandido, a justiça nunca será levada a sério.

No fim das contas, essa história toda não é sobre um MC, um influenciador ou uma operação policial.

É sobre nós.

Sobre o tipo de sociedade que estamos construindo — ou permitindo.

E se isso não incomoda, já diz muito.

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Por: Rodrigo Schirmer Magalhães
Cientista político e Analista de Politica

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  • Gildo Ribeiro

    Gildo Ribeiro é editor do Grupo 7 de Comunicação, liderado pelo Portal 7 Minutos, uma plataforma de notícias online.

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