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Os Diários de FAUCI:

O que ele ESCREVIA nos BASTIDORES da PANDEMIA agora vem a tona nos EUA

Mais de 1.100 páginas de registros privados do ex-chefe do NIAID provocam nova tempestade política nos Estados Unidos, alimentam acusações de contradição e colocam novamente lockdowns, escolas, máscaras e a origem da Covid-19 sob escrutínio

Durante boa parte da pandemia, poucas figuras tiveram tanta projeção mundial quanto Anthony Fauci.

Médico, cientista e então diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas dos Estados Unidos, o NIAID, Fauci tornou-se uma das vozes mais conhecidas da resposta americana à Covid-19.

Suas entrevistas atravessavam fronteiras. Declarações dadas em Washington eram reproduzidas no mesmo dia em emissoras e portais de praticamente todo o planeta.

Agora, anos depois da fase mais dramática da pandemia, os Estados Unidos voltam a discutir seu legado.

E desta vez o combustível da controvérsia vem das próprias anotações de Fauci.

MAIS DE MIL PÁGINAS DE REGISTROS PESSOAIS

O senador republicano Rand Paul, presidente da Comissão de Segurança Interna e Assuntos Governamentais do Senado americano, tornou públicas mais de 1.100 páginas de registros escritos por Fauci durante os primeiros anos da pandemia.

Fauci já havia se referido ao conjunto como seu “diário pessoal”.

Os documentos cobrem acontecimentos desde o final de 2019 até 2022 e registram reuniões, telefonemas, impressões pessoais, discussões científicas, conflitos políticos e até a enorme exposição pública que Fauci passou a experimentar.

A publicação desse material transformou novamente o ex-chefe do NIAID em personagem central da política americana.

A pergunta que imediatamente tomou conta das redes sociais foi explosiva:

  • Fauci dizia uma coisa em particular e outra diante das câmeras?

A resposta é mais complicada do que muitas postagens virais fazem parecer.

EXISTEM TRECHOS QUE PROVOCAM QUESTIONAMENTOS REAIS

Um dos episódios mais discutidos envolve o fechamento de escolas.

Uma reportagem da Fox News destacou uma anotação de março de 2020 na qual Fauci escreveu que havia conversado com o então prefeito de Nova York, Bill de Blasio, e que o convencera, com base em suas declarações públicas e na conversa daquela noite, a fechar as escolas da cidade.

O trecho ganhou força porque, posteriormente, Fauci procurou relativizar sua responsabilidade pessoal pelos lockdowns e pelos fechamentos.

É exatamente esse tipo de documento que seus críticos usam para defender a necessidade de uma investigação histórica mais profunda sobre quem recomendou determinadas medidas e com quais evidências elas foram adotadas.

O debate é legítimo.

Milhões de crianças ficaram longe das salas de aula, comerciantes perderam empresas, famílias foram separadas e governos tomaram decisões excepcionais em circunstâncias extraordinárias.

Conhecer os bastidores dessas decisões não é conspiracionismo.

É interesse público.

MAS UMA DAS FRASES DA IMAGEM VIRAL NEM SEQUER É DO DIÁRIO

Aqui está um detalhe importante para quem deseja tratar o assunto seriamente.

A montagem que vem circulando nas redes afirma que Fauci teria escrito em seu diário, em fevereiro de 2020, que as máscaras não eram realmente eficazes.

Essa informação está apresentada de maneira incorreta.

A frase deriva de um e-mail enviado por Fauci em fevereiro de 2020 à ex-secretária de Saúde Sylvia Burwell, divulgado originalmente anos atrás, e não do diário agora publicado.

Naquele período, Fauci também defendia publicamente que pessoas saudáveis não precisavam utilizar máscaras rotineiramente.

A recomendação americana mudou semanas depois, quando aumentaram as evidências sobre transmissão por pessoas assintomáticas e o CDC passou a recomendar coberturas faciais.

Em uma anotação de 31 de março de 2020, o próprio Fauci escreveu que as autoridades provavelmente haviam sido enfáticas demais ao afirmar anteriormente que máscaras não funcionavam.

Portanto, existe uma mudança de posição — isso é fato.

Mas transformar essa mudança automaticamente em prova de que Fauci sabia secretamente que máscaras não funcionavam e deliberadamente enganou a população não corresponde ao conjunto dos registros disponíveis.

WUHAN: TALVEZ O PONTO MAIS SENSÍVEL

Outro trecho provocou enorme repercussão.

Em 26 de janeiro de 2020, Fauci registrou que as primeiras infecções conhecidas não estavam necessariamente ligadas ao mercado de Wuhan e escreveu que o mercado poderia ter funcionado como um amplificador da transmissão.

Rand Paul passou a usar a anotação como argumento de que Fauci conhecia problemas na narrativa inicial sobre a origem do vírus.

Mas há um detalhe essencial.

Logo depois, na mesma anotação, Fauci continuava considerando que o vírus teria saltado de animais para humanos.

Ou seja: afirmar que o mercado poderia não ter sido o local da primeira infecção não é a mesma coisa que afirmar que o vírus saiu de um laboratório.

A origem definitiva da Covid-19 continua sem uma conclusão universalmente aceita.

Até dentro da comunidade de inteligência americana há divisão: algumas agências consideraram mais provável um incidente laboratorial, enquanto outras favoreceram transmissão natural ou permaneceram indecisas.

DOCUMENTOS MOSTRAM QUE CIENTISTAS DISCUTIAM A HIPÓTESE DE LABORATÓRIO

Isso não significa, porém, que o debate sobre laboratório possa ser descartado.

Outros documentos divulgados pelo Senado americano mostram que pesquisadores envolvidos no influente artigo científico “Proximal Origin of SARS-CoV-2” discutiram internamente a possibilidade de origem laboratorial com muito mais intensidade do que a percepção pública posterior sugeria.

Mensagens internas divulgadas pela comissão mostram cientistas atribuindo probabilidades não desprezíveis à hipótese de laboratório enquanto analisavam as características genéticas do vírus.

Posteriormente, o artigo publicado na Nature Medicine favoreceu fortemente uma origem natural.

Para os investigadores do Senado, essa diferença entre as discussões privadas e a conclusão pública exige explicações.

Para os autores do trabalho, trata-se do funcionamento normal da ciência: hipóteses iniciais são examinadas, novos dados aparecem e conclusões são modificadas.

A documentação agora disponível permite que o público examine esse processo com muito mais profundidade.

FAUCI FOI CHAMADO AO SENADO

A discussão deixou de ser apenas uma guerra de postagens na internet.

Em 29 de julho de 2026, Anthony Fauci compareceu perante a Comissão de Segurança Interna e Assuntos Governamentais do Senado.

A audiência foi convocada especificamente para tratar de sua atuação e dos acontecimentos relacionados à pandemia.

Orientado por seus advogados, Fauci invocou repetidamente a Quinta Emenda da Constituição americana, que protege cidadãos contra autoincriminação.

Ele afirmou estar sendo alvo de uma perseguição política conduzida por Rand Paul e disse considerar a investigação uma obsessão contra sua pessoa.

A atitude teve consequência imediata.

Em 6 de agosto, os republicanos da comissão aprovaram, por 8 votos a 5, uma resolução para considerar Fauci em desacato ao Congresso por se recusar a responder.

A votação ocorreu seguindo exatamente a divisão partidária da comissão.

Os democratas reagiram afirmando que Fauci estava exercendo um direito constitucional e que a tentativa de puni-lo poderia criar um precedente perigoso para futuras investigações parlamentares.

Portanto, o caso está longe de terminado.

E AGORA SURGE MAIS UMA FRENTE DE INVESTIGAÇÃO

A pressão aumentou ainda mais neste mês.

Segundo a Reuters, advogados de Fauci criaram um fundo de defesa jurídica diante da multiplicação de investigações federais e estaduais relacionadas à resposta americana à Covid-19 e às discussões sobre pesquisas envolvendo coronavírus.

Procuradores-gerais de estados americanos também abriram frentes investigativas.

Fauci, que deixou o governo em 2022, continua negando irregularidades.

É importante lembrar ainda que o então presidente Joe Biden concedeu a Fauci um perdão preventivo antes de deixar a Presidência, relacionado a possíveis delitos decorrentes de seu serviço público.

Isso adicionou outra camada política e jurídica à disputa.

E AS VACINAS?

Aqui também é necessário separar crítica política de evidência médica.

Os diários podem alimentar discussões sobre comunicação pública, mandatos, políticas sanitárias e a velocidade com que determinadas recomendações foram apresentadas.

Mas eles não demonstram que as vacinas contra Covid-19 eram “ineficazes”.

Os estudos realizados durante e depois da pandemia mostraram proteção significativa principalmente contra hospitalização, formas graves da doença e morte, embora a capacidade de impedir infecção e transmissão tenha diminuído com o surgimento de novas variantes e com o passar do tempo.

Pode-se  e deve-se  discutir mandatos, efeitos adversos, comunicação de risco, decisões governamentais e até possíveis exageros políticos.

Mas uma investigação séria precisa distinguir esses debates da afirmação absoluta de que os imunizantes “não funcionavam”.

A VERDADEIRA BOMBA DOS DIÁRIOS

Talvez a revelação mais importante não seja uma frase específica.

É enxergar como decisões que posteriormente foram apresentadas ao mundo com grande segurança eram, nos bastidores, tomadas em meio a dúvidas, hipóteses concorrentes, discussões políticas e informações incompletas.

Isso muda a perspectiva histórica.

Durante emergências, governos frequentemente precisam decidir antes que todas as respostas científicas estejam disponíveis.

O problema começa quando essa incerteza não é comunicada claramente à população.

Uma coisa é dizer:

Esta é nossa melhor avaliação neste momento.

Outra completamente diferente é transmitir a impressão de que determinada posição científica está definitivamente resolvida quando ainda existem divergências relevantes nos bastidores.

É exatamente nesse ponto que os diários de Fauci possuem enorme valor histórico.

NÃO É UM JULGAMENTO ENCERRADO    É O COMEÇO DE UMA PRESTAÇÃO DE CONTAS

  • A história da pandemia ainda está sendo escrita.
  • Cinco ou seis anos parecem muito tempo para quem viveu aquela crise.
  • Para a história, entretanto, é quase nada.
  • Documentos continuam surgindo.
  • Mensagens internas continuam sendo divulgadas.
  • Agências de inteligência continuam divergindo.
  • Congressistas continuam investigando.

E protagonistas daquele período estão sendo novamente chamados a explicar suas decisões.

Os diários de Anthony Fauci não constituem, sozinhos, a prova definitiva de uma gigantesca conspiração mundial.

Também seria ingenuidade tratá-los como documentos sem importância.

Eles abrem uma janela inédita para os bastidores de algumas das decisões públicas mais importantes de nossa geração.

E deixam uma pergunta que provavelmente acompanhará historiadores, cientistas, jornalistas e governos durante décadas:

  • quanto do que o mundo recebeu como certeza durante a pandemia era realmente certeza — e quanto ainda estava sendo discutido a portas fechadas?
  • Essa talvez seja a verdadeira descoberta.
  • E ela merece ser investigada até o fim.

 

Por Gildo Ribeiro
Editoria e Politica de Saúde Mundo
Redação Portal 7Minutos — Brasília

 

 

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  • Gildo Ribeiro

    Gildo Ribeiro é editor do Grupo 7 de Comunicação, liderado pelo Portal 7 Minutos, uma plataforma de notícias online.

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