Estilo : Comportamento» Estilo

Conteúdo Dra. ANA CLAUDIA SEGANTINE

Dia NACIONAL do VOLUNTARIADO. Quando CUIDAR do OUTRO TAMBÉM TRANSFORMA quem CUIDA

Entre solidariedade, escuta e responsabilidade, o trabalho voluntário revela uma das formas mais profundas de encontro humano, mas também exige limites, preparo emocional e cuidado com quem dedica a própria vida a ajudar

Celebrado em 28 de agosto, o Dia Nacional do Voluntariado é mais do que uma data de homenagem.

É um convite para refletirmos sobre milhões de pessoas que decidem oferecer algo que nenhum dinheiro consegue comprar: tempo, presença, conhecimento, escuta e cuidado.

Ser voluntário é transformar empatia em atitude.

É olhar para uma necessidade e decidir não permanecer indiferente.

Sob a perspectiva da psicanálise, porém, existe algo ainda mais profundo nessa relação. Quando alguém se coloca diante da necessidade do outro, também entra em contato com seus próprios desejos, valores, limites, afetos e fragilidades.

Pela religiosidade, o voluntariado também pode representar um caminho de humildade, carinho, fé, fraternidade e serviço ao próximo.

Por isso, quem cuida pode também ser profundamente transformado pelo encontro.

O que significa ser voluntário?

Voluntariar-se significa oferecer espontaneamente tempo, conhecimento, habilidades ou atenção em benefício de outras pessoas ou de uma causa, sem que a motivação principal seja uma remuneração financeira.

Essa escolha pode estar presente em hospitais, instituições sociais, escolas, igrejas, projetos comunitários, entidades de proteção aos animais, ações ambientais, organizações humanitárias, trabalhos com idosos, crianças, adolescentes, famílias vulneráveis e inúmeras outras iniciativas.

Para crianças e adolescentes, por exemplo, projetos voluntários podem representar muito mais que assistência imediata. Eles podem colaborar para ampliar oportunidades, fortalecer vínculos, promover cidadania e facilitar o acesso a direitos e cuidados essenciais.

O voluntariado contemporâneo também não pertence a uma única geração.

Jovens, estudantes, profissionais, aposentados e pessoas das mais diferentes formações participam de iniciativas sociais. O que antes poderia ser associado principalmente a quem possuía tempo disponível tornou-se um movimento muito mais amplo e intergeracional.

O desejo de ajudar  e aquilo que encontramos no outro

A psicanálise nos ensina que nem sempre conhecemos completamente as razões que orientam nossos comportamentos.

Nossos desejos e escolhas também podem ser atravessados por conteúdos inconscientes.

Diante disso, algumas perguntas são importantes:

  • O que me move a ajudar?
  • O que encontro quando cuido de alguém?
  • Por que determinada causa me sensibiliza profundamente?
  • O que significa, para mim, dedicar espontaneamente uma parte da minha vida ao outro?

Fazer essas perguntas não diminui a beleza do voluntariado.

Ao contrário.

Permite compreender que a solidariedade também pode ser uma experiência de transformação subjetiva.

Ao conhecer realidades diferentes da sua, o voluntário pode sair, ainda que momentaneamente, de uma existência excessivamente centrada em si mesmo e perceber dores, necessidades, sonhos e histórias que talvez permanecessem invisíveis.

É nesse encontro que novos vínculos podem nascer.

  • A importância da escuta
  • Para a psicanálise, escutar não significa simplesmente ouvir palavras.

Escutar verdadeiramente é permitir que alguém tenha espaço para falar, manifestar sentimentos, organizar experiências e ser reconhecido em sua singularidade.

  • E isso exige disponibilidade e, em determinadas situações, preparo.
  • Nem todo voluntariado precisa envolver grandes projetos.

Às vezes, estar presente diante de alguém que sofre, ouvir sem julgamento e oferecer acolhimento pode representar muito.

Uma escuta verdadeiramente disponível transmite uma mensagem poderosa:

Sua existência importa. Sua história merece ser ouvida.

Em uma sociedade marcada pela velocidade, pela exposição permanente e por relações muitas vezes superficiais, dedicar atenção genuína a alguém tornou-se um gesto profundamente humano.

Ajudar não significa salvar

  • Existe, entretanto, uma fronteira que precisa ser respeitada.
  • Ajudar não significa assumir integralmente a vida do outro.

Cada pessoa possui sua história, seus desejos, seus conflitos e sua capacidade de construir caminhos.

O voluntário não precisa ocupar a posição de quem sabe tudo ou de quem deverá solucionar todos os problemas encontrados.

  • Existe diferença entre acolher e controlar.
  • Entre ajudar e criar dependência.
  • Entre oferecer apoio e retirar a autonomia de quem está sendo ajudado.

O voluntariado responsável oferece suporte sem apagar a condição de sujeito daquele que recebe o cuidado.

Esse limite protege quem é ajudado — e também protege quem ajuda.

  • Quem cuida também precisa ser cuidado
  • Talvez essa seja uma das reflexões mais necessárias neste Dia Nacional do Voluntariado.
  • Quem ajuda também sofre.

O contato frequente com vulnerabilidade, abandono, violência, doença, pobreza, solidão e outras situações extremas pode produzir uma carga emocional significativa.

Existem voluntários que começam a assumir funções demais, ultrapassam seus limites e passam a acreditar que precisam estar disponíveis permanentemente.

Com isso podem surgir exaustão, frustração, sensação de impotência e esgotamento.

Há situações nas quais o voluntário percebe que, por maior que seja sua dedicação, o problema enfrentado é muito maior do que aquilo que uma pessoa ou uma instituição consegue resolver.

Mudanças sociais profundas exigem tempo.

  • E nem todos os resultados dependem exclusivamente do esforço de quem se voluntaria.
  • Reconhecer isso é fundamental.
  • Do ponto de vista psicanalítico, reconhecer os próprios limites não é egoísmo.
  • É maturidade.

Uma pessoa emocionalmente esgotada pode perder a capacidade de ajudar adequadamente e, mesmo sem intenção, prejudicar a si mesma ou ao próximo.

Por isso existe uma regra humana que jamais deveria ser esquecida:

  • para cuidar do outro, também precisamos cuidar de nós mesmos.
  • Quando ajudar também revela nossas próprias necessidades
  • Existe ainda uma reflexão delicada.

Em determinadas circunstâncias, a necessidade constante de ajudar pode estar relacionada à busca por reconhecimento, à tentativa de preencher vazios ou ao desejo de tornar-se indispensável.

Reconhecer essa possibilidade não significa desvalorizar a solidariedade.

Significa entender que até nossas atitudes mais generosas podem estar atravessadas por desejos, conflitos e necessidades inconscientes.

Conhecer nossas motivações permite construir relações de ajuda mais saudáveis.

  • O voluntário não precisa ser um herói.
  • Precisa ser humano.
  • Solidariedade é construção de vínculos

A psicanálise demonstra a importância dos vínculos na constituição do sujeito.

  • Não existimos isoladamente.
  • Somos também resultado das relações que construímos ao longo da vida.

E o voluntariado possui enorme capacidade de aproximar pessoas que talvez jamais se encontrassem em outras circunstâncias.

  • São histórias, idades, profissões, classes sociais e experiências diferentes reunidas por uma causa.
  • Nesse encontro nasce algo que vai além da ajuda material: o sentimento de pertencimento.

Em um mundo frequentemente dominado pela pressa, pelo individualismo e pela lógica do “cada um por si”, dedicar parte do próprio tempo a outra pessoa pode representar uma resistência silenciosa à indiferença.

Solidariedade, religiosidade, bons princípios, responsabilidade coletiva e respeito ao próximo ajudam a romper uma cultura na qual somente os interesses individuais parecem importar.

Voluntariar-se é afirmar, por meio de atitudes, que a dor do outro não precisa permanecer invisível.

  • Quem oferece ajuda também volta diferente

Existe uma característica extraordinária no voluntariado: muitas vezes alguém começa acreditando que irá transformar a vida de outra pessoa e acaba percebendo que também foi transformado.

  • Conhecer outras histórias modifica perspectivas.
  • O sofrimento alheio pode provocar questionamentos.
  • A superação de alguém pode produzir esperança.
  • A convivência pode despertar sentimentos antes desconhecidos.

E aquilo que parecia uma relação entre quem “dá” e quem “recebe” transforma-se em uma verdadeira experiência de encontro.

  • Não se trata apenas de dar. Trata-se de encontrar.
  • Não se trata apenas de oferecer. Trata-se também de aprender.
  • Não se trata apenas de cuidar do outro. Trata-se de reconhecer a humanidade existente em todos nós.

É verdade que essa experiência pode ser dolorosa.

  • Não é fácil testemunhar o sofrimento de alguém e descobrir que não temos poder para eliminar toda aquela dor.
  • Mas o voluntariado continua.
  • Continua porque pessoas permanecem acreditando que, mesmo quando não podemos resolver tudo, ainda podemos fazer alguma coisa.

Uma reflexão para o Dia Nacional do Voluntariado

A psicanálise nos convida a olhar para além do ato visível e perguntar o que sustenta nossas escolhas.

  • O que nos leva a ajudar?
  • O que buscamos quando cuidamos?
  • Conseguimos acolher sem julgar?
  • Conseguimos oferecer sem controlar?
  • E, principalmente, conseguimos ajudar sem nos perder de nós mesmos?

Talvez uma das respostas esteja na construção de relações mais humanas, nas quais cuidar não seja imposição, obrigação ou instrumento de poder, mas uma escolha consciente.

Porque voluntariar-se é oferecer algo de si ao mundo.

  • É descobrir que alguém precisa ser ouvido.
  • É perceber que uma pequena atitude pode ter enorme significado.
  • É entender que solidariedade não precisa de espetáculo.

E é reconhecer que, quando estendemos a mão para alguém, existe sempre a possibilidade de que aquele encontro também transforme alguma coisa dentro de nós.

Neste Dia Nacional do Voluntariado, nossa homenagem é para aqueles que escolheram não passar indiferentes diante da necessidade humana.

  • Aos que oferecem conhecimento.
  • Aos que oferecem trabalho.
  • Aos que oferecem alimento.
  • Aos que oferecem carinho.
  • Aos que oferecem fé.
  • Aos que oferecem escuta.

E, sobretudo, aos que oferecem algo cada vez mais precioso:

  • presença.

 

Por: Dra. ANA CLAUDIA SEGANTINE

 

Junte-se aos grupos de WhatsApp do Portal 7MINUTOS e fique por dentro das principais notícias de ANÁPOLIS, do BRASIL e do MUNDO siga aqui.

 

Siga o ‘ 7Minutos’ nas redes sociais

X (ex-Twitter)
Instagram
Facebook
Getter
Truth Social  

Dra. ANA CLAUDIA SEGANTINE
Cartaz Dourado do Voluntariado Comunitário
  • Fonte da informação:
  • Leia na fonte original da informação
  • Gildo Ribeiro

    Gildo Ribeiro é editor do Grupo 7 de Comunicação, liderado pelo Portal 7 Minutos, uma plataforma de notícias online.

    Artigos relacionados

    Verifique também
    Fechar
    Botão Voltar ao topo