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Senhor ZÉ PELINTRA !!!

O “ADVOGADO DOS POBRES” que TRANSFORMOU a MALANDRAGEM em CARIDADE, PROTEÇÃO e ESPERANÇA

De Pernambuco às ruas do Rio de Janeiro, da Jurema aos terreiros de Umbanda, Seu Zé atravessou o Brasil e se tornou uma das entidades espirituais mais populares do país

Para seus devotos, onde existe sofrimento, injustiça e uma porta aparentemente fechada, pode existir também um pedido:

Seu Zé, dê uma olhada aqui para mim…

 

  • Imagine a cena.
  • Terno branco impecável.
  • Gravata vermelha.
  • Chapéu elegantemente inclinado.
  • Bengala na mão.

Um sorriso de quem parece já ter entendido o problema antes mesmo de você terminar de contar.

E aquela aparência de sujeito que poderia simplesmente dizer:

  • — Calma, meu filho. Vamos dar um jeito nisso.

Para milhões de brasileiros ligados à Umbanda, à Jurema e a outras manifestações da religiosidade popular, essa figura dispensa grandes apresentações.

É Seu Zé Pelintra.

Ou Zé Pilintra, grafia igualmente encontrada nas tradições e registros sobre a entidade.

Mas reduzir Seu Zé simplesmente ao famoso “malandro de terno branco” seria perder justamente a parte mais bonita dessa história.

Porque, para seus devotos, a verdadeira malandragem de Zé Pelintra não está em enganar alguém.

Está em não deixar a vida enganar os mais fracos.

O MALANDRO QUE FICOU AO LADO DE QUEM TINHA POUCO

Zé Pelintra ocupa uma posição fascinante dentro da religiosidade brasileira.

Suas raízes são fortemente relacionadas ao Catimbó-Jurema do Nordeste, onde aparece associado à figura do mestre juremeiro.

Posteriormente, sua presença se difundiu pela Umbanda e ganhou enorme força nos centros urbanos do Sudeste.

Estudos acadêmicos também enxergam nessa trajetória algo maior: a própria movimentação da população brasileira, especialmente de nordestinos que migraram para grandes cidades e carregaram consigo suas crenças, costumes e formas de resistência.

E então aconteceu algo extraordinário.

  • O mestre nordestino encontrou o malandro urbano.
  • A Jurema encontrou a Lapa.
  • O chapéu encontrou o terno.
  • E nasceu uma das representações religiosas mais genuinamente brasileiras.

Não é por acaso que Seu Zé acabou recebendo um apelido poderoso:

O advogado dos pobres.

Não advogado no sentido profissional ou jurídico da palavra.

É uma expressão de devoção.

Para seus seguidores, Seu Zé é aquele que intercede simbolicamente por quem sofre, por quem está sem dinheiro, por quem procura emprego, por quem enfrenta injustiça, por quem precisa abrir caminhos ou simplesmente por quem chegou ao ponto de dizer:

Eu não sei mais o que fazer.

E talvez esteja justamente aí uma das razões de sua enorme popularidade.

MAS, AFINAL, ZÉ PELINTRA EXISTIU?

  • Aqui a história fica ainda melhor.
  • Existem diferentes narrativas religiosas sobre sua origem.

Algumas tradições situam sua história em Pernambuco.

Outras associam sua trajetória à migração para o Rio de Janeiro e à vida boêmia carioca.

Há ainda interpretações segundo as quais não deveríamos procurar necessariamente um único homem chamado Zé Pelintra, porque estamos falando também de uma falange espiritual e de uma tradição construída ao longo de muitas décadas.

Por isso, transformar qualquer dessas versões em uma biografia definitivamente comprovada seria exagerar aquilo que os documentos históricos permitem afirmar.

O que sabemos com muito mais segurança é que sua presença religiosa possui raízes antigas no Catimbó/Jurema e posteriormente ganhou enorme projeção dentro da Umbanda.

E sua imagem acabou se tornando inseparável da cultura popular brasileira.

E QUE MALANDRO É ESSE?

Esqueça por alguns minutos o significado negativo que a palavra “malandro” ganhou.

  • O arquétipo representado por Zé Pelintra é outro.
  • É o homem pobre que aprendeu a sobreviver.
  • É aquele que não teve sobrenome poderoso.
  • Não nasceu em palácio.
  • Não frequentou os grandes salões.
  • Conheceu a rua.
  • Conheceu a fome.
  • Conheceu a noite.
  • Conheceu gente boa e gente perigosa.
  • Conheceu a injustiça.

E aprendeu que, quando a vida não oferece privilégios, inteligência, conversa, coragem e jogo de cintura podem significar sobrevivência.

  • É por isso que a figura de Seu Zé consegue ser simultaneamente elegante e popular.
  • Ele pode estar de terno, mas continua conversando com quem está de chinelo.
  • E talvez essa seja uma das melhores imagens para compreender sua força religiosa.

ELE NÃO É EXU

Essa é uma confusão bastante comum.

Dependendo da tradição e da casa religiosa, Zé Pelintra pode trabalhar em diferentes contextos rituais, inclusive próximo de trabalhos relacionados à esquerda.

Mas simplesmente classificá-lo como Exu não representa adequadamente a diversidade das tradições umbandistas.

Seu Zé é principalmente associado à Linha dos Malandros, embora sua atuação seja descrita por muitos terreiros como extremamente versátil.

É daí que nasce outra característica famosa atribuída à entidade:

  • Seu Zé transita.
  • Onde há trabalho espiritual e caridade, dizem seus seguidores, ele encontra caminho.

BRANCO, VERMELHO E MUITA ELEGÂNCIA

  • Poucas entidades possuem uma representação visual tão reconhecível.

O clássico Zé Pelintra aparece com:

  • terno branco,
  • chapéu Panamá,
  • detalhes vermelhos,
  • sapatos cuidadosamente apresentados
  • e, frequentemente, sua bengala.
  • Em algumas representações surge também o cravo vermelho.

Entretanto, a aparência pode variar conforme a tradição religiosa.

Na Jurema nordestina, por exemplo, existem representações bastante diferentes do famoso malandro carioca.

E isso é importante.

  • Porque antes do personagem das ruas da Lapa existe uma história religiosa ligada ao Nordeste brasileiro.

CERVEJA, CIGARRO E OFERENDAS: É PRECISO RESPEITAR CADA TERREIRO

Cerveja, cachaça, cigarros, charutos e outros elementos aparecem tradicionalmente associados a trabalhos e oferendas dedicados à entidade.

Mas aqui cabe uma recomendação respeitosa.

Quem não pertence à religião não deveria simplesmente copiar uma oferenda encontrada na internet e imaginar que existe uma “receita oficial de Zé Pelintra”.

Umbanda e Jurema possuem tradições, fundamentos e diferenças entre casas.

O mais respeitoso é procurar orientação de dirigentes e pessoas responsáveis pelo terreiro que se frequenta.

  • Fé não precisa de tutorial improvisado.
  • Precisa de respeito.

POR QUE TANTA GENTE POBRE RECORRE A SEU ZÉ?

  • Talvez essa seja a pergunta central desta história.
  • Porque Seu Zé fala uma linguagem que o povo entende.

Sua representação não é a de alguém sentado num trono distante observando o sofrimento lá de cima.

  • Ele está simbolicamente na rua.
  • E quem está na rua conhece o preço do aluguel.
  • Conhece o desemprego.
  • Conhece a humilhação.
  • Conhece a porta fechada.
  • Conhece a preocupação de uma mãe.

Conhece aquele brasileiro que abre a carteira, encontra quase nada e ainda precisa descobrir como chegar ao final do mês.

É justamente nessa proximidade simbólica que nasceu o “advogado dos pobres”.

Para seus devotos, ele não pergunta quanto dinheiro você possui antes de ouvir seu problema.

O MAIS INTERESSANTE É QUE SEU ZÉ ULTRAPASSOU O TERREIRO

Hoje Zé Pelintra também pode ser estudado como personagem da cultura brasileira.

Há trabalhos acadêmicos examinando sua relação com resistência cultural, racismo, marginalização social, religiosidade e formação da identidade urbana brasileira.

No Rio de Janeiro, essa dimensão ganhou inclusive reconhecimento público: o Santuário de Zé Pelintra, na região da Lapa/Santa Teresa, tornou-se Patrimônio Cultural Carioca, e a cidade oficializou uma celebração dedicada à entidade.

Seu Zé saiu do espaço exclusivamente religioso e entrou definitivamente para a memória cultural brasileira.

TALVEZ O SEGREDO DE ZÉ PELINTRA SEJA MUITO SIMPLES

Seu Zé representa uma coisa que o brasileiro conhece desde pequeno:

  • cair e levantar.
  • Perder e tentar novamente.
  • Ter pouco e dividir mesmo assim.
  • Sofrer e ainda encontrar força para sorrir.

É uma espiritualidade representada não pela distância, mas pela proximidade.

Talvez por isso tanta gente converse com ele quase como se conversa com um velho conhecido.

  • Não precisa de palavras difíceis.
  • Não precisa preparar discurso.
  • Para quem acredita, às vezes basta fechar os olhos e conversar.
  • “Seu Zé, estou precisando de ajuda.”
  • E pronto.

O resto pertence à fé de cada pessoa.

UM AGRADECIMENTO A QUEM MANTÉM ESSA HISTÓRIA VIVA

Esta matéria também é uma homenagem.

  • Aos umbandistas.
  • Aos juremeiros.
  • Aos sacerdotes e sacerdotisas.
  • Aos médiuns.
  • Aos pesquisadores.

Aos terreiros que atravessaram décadas enfrentando intolerância religiosa.

E principalmente às pessoas simples que mantiveram essa tradição viva quando professar religiões afro-brasileiras podia significar perseguição, humilhação e violência.

Conhecer Zé Pelintra também significa conhecer um pedaço da história daqueles brasileiros que raramente apareciam nos grandes livros.

O trabalhador.

  • O migrante.
  • O sambista.
  • A mulher da noite.
  • O homem da rua.
  • O desempregado.
  • A mãe desesperada.

O sujeito que perdeu quase tudo, mas ainda guardou um pouco de esperança.

Talvez seja exatamente por isso que chamaram Seu Zé de advogado dos pobres.

  • Porque pobre também merece defesa.
  • Pobre merece dignidade.
  • Pobre merece esperança.

E pobre também merece ter alguém na Terra ou, para quem acredita, no mundo espiritual  disposto a ouvir sua causa.

Zé Pelintra continua atravessando gerações justamente porque representa essa extraordinária capacidade brasileira de enfrentar sofrimento sem abandonar completamente o sorriso.

Com seu branco impecável, seu vermelho marcante, o chapéu inclinado e a elegância de quem parece nunca chegar atrasado para ajudar alguém, Seu Zé permanece vivo na fé e na cultura de milhares de brasileiros.

E para quem chegou até aqui talvez finalmente fique mais fácil compreender por que tanta gente, diante de uma dificuldade, pronuncia seu nome com carinho.

  • Não é medo.
  • Não é obrigação.
  • Para seus devotos, é confiança.
  • É respeito.
  • E, muitas vezes, é gratidão.
  • Salve Seu Zé Pelintra!
  • Saravá a Malandragem!

E que nunca faltem respeito, liberdade religiosa e conhecimento para entendermos a extraordinária diversidade espiritual do povo brasileiro.

 

Por Gildo Ribeiro
Redação Portal 7Minutos — Brasília

 

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Zé Pelintra: Caminhos Abertos
Seu Zé Pelintra é uma das entidades mais populares da umbanda

 

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  • Gildo Ribeiro

    Gildo Ribeiro é editor do Grupo 7 de Comunicação, liderado pelo Portal 7 Minutos, uma plataforma de notícias online.

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